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Autor Tópico: “Eu não sou eu nem sou o outro sou qualquer coisa de intermédio”  (Lida 21 vezes)

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“Eu não sou eu nem sou o outro sou qualquer coisa de intermédio”
BRAGA


autor
Teresa M. Costa

Quem os ouve a declamar ‘Eu não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio (...) evocando o poema 7, de Mário Sá Carneiro, percebe que as suas capacidades vão muito para além da diferença que, no dia-a-dia, lhes tolda a vida e que eles, também, são capazes de ser felizes.
É através da arte que os utentes do Centro D. João Novais e Sousa, em Braga revelam as capacidades ‘escondidas’ pela sua deficiência mental e que, nos próximos dias 2 e 3 de Dezembro, levam ao palco do Auditório Vita, num espectáculo que irá assinalar o Dia Internacional da Deficiência e, certamente, surpreender o espectador.

Mais que um sarau de variedades, apesar de incluir diferentes artes, desde a música à dança, passando pela poesia, teatro e até vídeo, o objectivo do espectáculo é levar o espectador a questionar-se sobre o caminho para atingir a felicidade.
“Toda a gente pode conseguir encontrar a felicidade, independentemente das suas limitações e das suas capacidades” acredita Sérgio Cerdeira que partilha com o formador de teatro, Eduardo Dias, a direcção artística do espectáculo que está a ser preparado com os utentes do Centro D. João Novais e Sousa.

Sérgio Cerdeira está empenhado em mostrar que arte influencia a qualidade de vida das pessoas com deficiência.
O caminho começou a ser trilhado com a percussão pela mão da ‘Equipa Espiral’, que deu origem aos Zés Pereiras do Novais que puseram a cantar e a dançar utentes que até ali não respondiam à música. “É só premir o gatilho” aponta Sérgio Cerdeira que confessa que a opção inicial para o espectáculo era trabalhar com os utentes mais capacitados do ponto de vista motor, mas acabou por vingar a consciência de que era preciso incluir todos.

Quase todos entram no espectáculo e os que não estão lá, directamente, estão presentes nas projecções vídeo. “Fomos explorando tudo aquilo que eles nos foram dando, as capacidades que eles foram manifestando” até conseguir “uma estética coerente e um espectáculo homogéneo” descreve o encenador, referindo-se “às capacidades que não sabíamos que eles tinham porque nunca tínhamos abordado o assunto”.

Neste contexto, Sérgio Cerdeira destaca a abertura do Centro D. João Novais e Sousa a estas actividades, a título de “disciplina artística extracurricular”.
A directora técnica do Centro D. João Novais e Sousa, Lucinda Vilaverde, defende que o caminho para tornar estes utentes autónomos e aptos a participar na sociedade passa por educar a saber estar, a saber esperar. “A grande dificuldade está em descobrirmos as necessidades e as capacidades” reconhece a responsável técnica, realçando, no entanto, que “é o que os torna pessoas” e “é importante para eles e para as famílias&rd

 quo; pelo que “todos temos que fazer um esforço”.

Lucinda Vilaverde acredita que quem for assistir ao espectáculo, nos dias 2 e 3 de Dezembro, “vai ficar sensibilizado e perceber que as pessoas com deficiência têm que ser tratadas como pessoas”. “Eles têm motivação, nós, às vezes, é que nos esquecemos da motivação deles” afirma a directora técnica.

Para Marlene Fernandes, a professora de dança que tem estado a trabalhar com os utentes do Centro D. João Novais e Sousa, “às vezes é mais importante a sensibilidade do que a técnica”.
No espectáculo, os utentes interpretam o poema de Mário Sá Carneiro através da dança fazendo perceber ao público que “eles também sentem as coisas” sublinha Marlene Fernandes que revela: “eles mostram que são mais capazes do que imaginamos, nós é que somos limitados ao pensar que não”.

É um despoletar de capacidades

“Quando entrei aqui pela primeira vez, achava impossível que tocassem bombo ou decorassem uma frase, agora declamam estrofes inteiras”. A constatação é de Sérgio Cerdeira, director artístico do espectáculo ‘Eu não sou eu...’ que está a ser preparado com os utentes do Centro D. João Novais e Sousa.
No final de mais um ensaio, Sérgio Cerdeira reconhece que “é uma aprendizagem mútua” porque os formadores que trabalham com estes utentes também estão a aprender a despoletar estas capacidades”.

O director artístico do espectáculo admite que estes actores são especiais “não só pelas suas limitações, mas pelas suas capacidades e pelos sentimentos à flor da pele”, identificando que “a verdade está sempre lá”.
A ensaiar há cerca de um mês, Sérgio Cerdeira garante que os actores “cumprem o guião à risca”, assumindo que “trabalhar com eles é uma surpresa todos os dias”.
“Se deixarmos as coisas fluir deparamos com capacidades extraordinárias” descreve.

O espectáculo envolve cerca de três dezenas de utentes directamente e mais uma dezena que participam nas projecções-vídeo.
A directora técnica da instituição, Lucinda Vilaverde, explica que houve a preocupação de envolver o maximo de utentes possível, mesmo aqueles que não costumam participar nas actividades.
Superado o medo inicial e muita carolice à mistura, Lucinda Vilaverde acredita que vai resultar: “pela envolvência e pela felicidade deles já começo a ver espectáculo”.

A própria responsável técnica do Centro D. João Novais e Sousa já foi surpreendida pelo espectáculo em preparação: “ouvir um tango tocado à concertina e tocado por duas pessoas que, no dia-a-dia, não conseguem conviver e que, nos ensaios, se olham nos olhos”. E não fica por aqui!

Correio do minho

 



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