Há uns três nos atrás, ao subir uma rampa normalíssima e que já tinha subido outras vezes, caí da cadeira de rodas. Felizmente meu corpo ficou entre um dos lados da cadeira e portão. Consequências físicas nenhumas, mas psicológicas, muitas.
Tantas que nunca mais pude ter liberdade. Apanhei um medo inexplicável de qualquer elevação e terreno irregular. Sair sozinho é um martírio. Deparo-me com uma elevação no meu trajecto, por mais pequena que seja, ultrapassa-la impensável.
Lá vou ver se tenho outra alternativa. Tento todas as hipóteses, menos passar por ali. Se não houver, lá vou eu pedir que alguém se ponha atrás da cadeira. Tento explicar o inexplicável...desculpe, mas rodas não têm andado bem, tenho travões com problemas...e assim consigo subir. Se não aparecer ninguém para ajudar, volto para trás.
Tentei várias vezes ultrapassar estes medos. Fui mesmo enfrentar problema. Mas começam os batimentos no coração a acelerar, eu que não tenho sensibilidade nenhuma, até formigueiro nas pernas tenho. Respiração quase para, etc.
Jeito foi pedir apoio psicológico. Andei em dois psicólogos, inclusive do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão. Mas não adiantou nada. Tentei experimentar outra psicóloga e dias atrás comecei a ser atendido por ela. Estou a gostar. Perguntou-me o que eu achava que deveria ser feito, para me ajudar. Disse-lhe que ir para o terreno e enfrentar os medos de frente. Neste caso as rampas e pisos irregulares. Ainda por cima a rampa onde cai, fica em frente ao consultório. É na Junta de Freguesia. Foi o que fizemos e embora fobia continue, estou a ficar muito mais confiante e seguro.

Um dia destes ao descerem-me a rampa para entrar numa carrinha adaptada, fiquei quieto e sem alguém atrás na cadeira, não subi. Diz-me motorista: ah, logo vi que deveria ter tido o acidente recente! Até medo de subir a rampa tem! Vá, vamos lá! E eu que ando de cadeira de rodas há 19 anos...
Nesta foto são bem visíveis as rodas anti-volteio. E sei bem que sua função é não deixar a cadeira de rodas virar-se. Mas interiorizar a informação, é outra coisa...
Por: Eduardo Jorge