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Autor Tópico: Mundo cão  (Lida 1452 vezes)

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Offline Urostomizado

Mundo cão
« em: 28/11/2010, 23:29 »
 
Começo a pensar que alguma coisa de muito grave se passa com este mundo e com as pessoas que nele habitam. Aqui há uns meses atrás, havia eu chegado a casa, vi um jovem, morador na mesma rua onde eu habito, que se desloca numa cadeira de rodas eléctrica, a fazê-lo pela estrada, isto porque em cima do passeio encontrava-se um carro estacionado. Na mesma rua há lugares de estacionamento criados para esse efeito e gratuitos. E são muitos os lugares de estacionamento, pelo que a qualquer hora do dia, há sempre lugar para todos que aqui moram. No entanto, uma mão cheia de gente acha-se com mais direitos do que os outros e estaciona o carro em cima do passeio.

No momento em que vi o jovem na sua cadeira de rodas a contornar o veiculo pela estrada, com um autocarro a passar ao seu lado naquele preciso momento e tudo porque alguém tinha decidido deixar o seu veiculo em cima do passeio, ocupando-o em toda a sua largura, mesmo havendo lugares livres, dei por mim a pensar: mas porque é que isto acontece? Porque é que isto é admissivel? Serei o unico a ver o quão errado este quadro é?

Chegado a casa, após uma pesquisa na internet por situações semelhantes, descobri o blog Passeio Livre, onde vim a saber que mais pessoas partilhavam das minhas questões e que haviam, como tal, decidido reclamar contra aqueles que estacionam em cima do passeio. E como arma de reclamação, fazem uso de um autocolante que pode ser pedido por e-mail endereçado aos responsáveis do blog.

Ainda pensei em pedir alguns autocolantes, mas não o fiz de imediato, porque esperava conseguir apelar ao bom senso de quem estacionava em cima do passeio, lembrando-os de que isso era errado por várias razões, entre elas o facto de existir uma pessoa com mobilidade reduzida a habitar na própria rua.

E assim fiz. Uma tarde, ao chegar a casa, vejo uma das minhas vizinhas a chegar no seu carro, a subir o passeio e a estacioná-lo em cima do mesmo, a poucos centimetros da porta de entrada do prédio. Dirigi-me a ela e, de forma cordial, pedi-lhe que não deixasse a viatura naquele local, até porque haviam muitos lugares vagos naquele momento, inclusive um deles encontrava-se do outro lado da estrada em frente à entrada do prédio. Ela volta-se para mim e diz que tenho razão e que são só 5 minutos e já tira o carro dali. Descansado e convicto de que a pessoa tinha sido sincera, fui para casa.

Qual não é o meu espanto quando, 30 minutos depois, vejo da minha janela que o carro ainda se encontrava no mesmo sitio. Uma hora depois, a mesma coisa. Duas horas, três horas, chegou a noite e o carro no mesmo local, em cima do passeio, lá se encontrava.

Fiz esta mesma experiência com mais outras duas pessoas, sendo que o resultado foi o mesmo. Prometiam tirar o carro do passeio de seguida, mas não o faziam. E, no dia seguinte, voltavam a estacioná-lo no mesmo local.

Pedi então ao Passeio Livre alguns autocolantes, confiante de que seriam elementos dissuasores e chamadas de atenção. Sempre que encontrava um carro estacionado em cima do passeio, colava-lhe um autocolante na janela do condutor ou do passageiro. Algumas pessoas entenderam a mensagem e deixaram de estacionar os carros em cima do passeio, mas outras continuaram a fazê-lo.

Um dia, colei 3 autocolantes no mesmo carro. O proprietário tinha-o deixado estacionado em cima do passeio no dia anterior, sendo que na manhã seguinte, ao sair de casa, passei pelo carro e colei-lhe um autocolante. Ao regressar a casa para almoço, o carro ainda lá se encontrava no mesmo sitio, mas o autocolante havia sido arrancado, tendo ficado vestigios do mesmo no vidro. Voltei então a colar novo autocolante. Ao final da tarde, quando regressei a casa, o carro ainda estava no mesmo local, já sem o segundo autocolante, pelo que lhe colei o terceiro.

Na outra manhã, ainda o carro estava lá, mas o terceiro autocolante já tinha sido arrancado, tal como os dois anteriores. Quem arrancava os autocolantes, ou não percebia a mensagem ou não queria saber. Não pude admitir mais esta total falta de respeito e chamei a policia. Minutos depois, passa o reboque da policia com dois agentes, que autuaram o proprietário da viatura e o obrigaram a removê-la de cima do passeio. E fizeram o mesmo a mais dois outros carros.

Desde então, raros são aqueles que ainda insistem em estacionar os carros em cima do passeio, provavelmente com receio de serem multados também. Mas ainda há quem o faça. O mais grave é que ainda reclamam que têm direito a estacionar em cima do passeio, porque pagam impostos, porque moram na rua ou, simplesmente, porque se acham donos e senhores da razão e não querem saber que, na mesma rua, há alguém que precisa do passeio desimpedido para circular em segurança. E este, sim, é um direito real e verdadeiro.

Dois meses atrás, apresentei uma reclamação junto da Câmara Municipal sobre esta situação e um pedido para a instalação de pilaretes, de forma a que seja vedado o acesso dos automóveis ao passeio. Vim a saber que já haviam duas reclamações e dois pedidos no mesmo sentido, mas nada ainda havia sido feito para resolver o problema. A policia já passou aqui na rua mais algumas vezes por iniciativa própria. Mas nem assim certas pessoas compreendem o quão erradas estão e o quanto estão a prejudicar alguém mais vulnerável e com mais limitações. Inclusive, chegam ao ponto de proferir ameaças caso alguma coisa seja feita para os impedir de estacionar em cima do passeio.

Custa-me a compreender o que passa pela cabeça desta gente. Custa-me a compreender como é que alguém faz o que faz, com perfeita noção do que está a fazer e ainda se ache no direito de continuar a prejudicar quem está à sua volta. Há 3 semanas atrás, voltei a ver o jovem a esbarrar contra um carro estacionado no passeio.

Dizem-me assim: "porque é que reclamas, o problema não é teu." "Quem sofre com o problema é que tem que reclamar."

Mas não consigo pensar assim. Porque se for a pensar assim, estou a olhar tanto para o meu umbigo como fazem aqueles que estacionam em cima do passeio. Não deveriamos pensar mais nos outros que estão à nossa volta? Não deveriamos auxiliar, apoiar e reclamar por essas pessoas? Não o deveriamos fazer junto? Então porque é que parece que só eu é que reclamo, só eu é que dou a cara e só eu é que me revolto com isto? Inclusive, já houve quem dissesse que faço o que faço por maldade. É maldade reclamar, mas não há maldade da parte de quem se está pouco lixando e deixa o carro em cima do passeio? Mas que mundo é este?
 

Online migel

Re:Mundo cão
« Responder #1 em: 29/11/2010, 09:38 »
 
Olá amigo,
Este teu relato é sintomático de como as acessibilidades deste País funcionam, tb eu vejo se não diáriamente pq vivo numa vila pequena, mas quando me desloco a um sitio maior por exemplo a uma grande superfice, deparo-me sempre com estes casos "ocupação dos lugares para deficientes" muitas das vezes falo,e até compreendem mas a maoria das vezes como dizes parece que ainda têm razão... e aqueles que mesmo não colocando no parque o colocam na entrada para o lugar, alguns ainda se mantem dentro do carro outros abandonam-no.

Aqui há dias, deixei o meu no parque, e de seguida estaciona ao meu lado uma senhora, eu esperei que saisse para verificar a incapacidade dela e não era nenhuma, perguntei.lhe porque estacionava ali se não era deficiente!!! ela me respodeu com cara de arreliada..- e voçê é?.
E foi.se embora..., enfim são muitos os casos de falta de civismo, mas se todos agisse-mos de modo a chamar atenção aos infractores talvez não acontecesse tantas vezes.

 

 



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