A correria por um lugar de estacionamento automóvel começa cedo na cidade do Lis. Fugir ao parqueamento pago é o objectivo e, depressa se instala a confusão, sobretudo junto aos serviços públicos. Agora, imagine que é portador de uma deficiência motora. Irremediavelmente, a procura por um lugar vago aumenta as 'dores de cabeça' para os cidadãos com mobilidade reduzida. Foi o que fizemos.
Vestimos 'a pele' de um automobilista que necessita de uma cadeira de rodas para se deslocar fora da viatura, e fomos à procura de estacionamento automóvel junto aos locais públicos, nomeadamente de prestação de serviços e de actividades culturais. A 'tarefa' revelou-se impossível na sua quase totalidade, uma vez que esses lugares não existem ou estão distantes dos serviços que queremos aceder.
'Visitamos' 17 locais, e se a maioria até já tem acessos para pessoas com mobilidade reduzida, nomeadamente através de rampas, o mesmo não se pode dizer do estacionamento para esses cidadãos, como está estipulado por lei. Aliás, em muitas situações existe, de facto, estacionamento, mas ele é pago, não deixando alternativa à pessoa com 'deficiência', e mesmo que essa opte por pagar, em algumas das situações não há estacionamento livre ou não tem condições - por exemplo de espaço - para um utente com cadeiras de rodas sair da viatura em condições de segurança.
Assim constatámos juntos aos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento (SMAS) - na Rua Machado Santos - e na via de acesso ao Instituto de Emprego e Formação Profissional.
Mas há muitos outros maus exemplos. Estacionar junto à 1.a Repartição de Finanças de Leiria é uma acção quase impossível, assim como próximo do Ministério Público, Tribunal de Trabalho, Instituto de desenvolvimento e Inspecção das Condições de Trabalho (IDICT), Tribunal Administrativo e Fiscal de Leiria, e posto de Correios dos Marrazes. Em nenhum desses locais há estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida.
Os maus exemplos não se ficam por aqui. No Largo da República, a partir do qual se acede a quatro serviços públicos - Câmara, Tribunal, Segurança Social e Finanças - existe, apenas, um lugar destinado a 'deficientes' e localiza-se numa das pontas do largo, que dista a 50 metros, por exemplo, do Tribunal de Leiria. Mas para lá chegar, o cidadão com mobilidade reduzida tem que fazer o percurso em situação de 'rampa', ou seja, percorrer um trajecto com inclinação ascendente.
Naquela área, a boa notícia é que o edifício da câmara leiriense tem, desde há poucos dias, um elevador, podendo, e devendo, o automobilista portador de deficiência estacionar nas traseiras da autarquia. Falta, apenas, a sinaléctica com a respectiva informação.
Também os serviços culturais e educativos da cidade não 'sabem' dar o melhor exemplo. Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, Centro Cultural Mercado de Sant'ana e Instituto Português da Juventude (IPJ) não têm estacionamento para 'deficientes'. Nas traseiras do IPJ até existe um - mau - acesso, mas não há sinaléctica.
Nesta 'ronda' que classificámos como 'maus exemplos, terminámos no Castelo de Leiria, expoente máximo do património edificado e classificado da cidade do Lis. À porta, encontrámos automóveis estacionados, mas não um lugar ou sinalética para automobilistas portadores de deficiência.
Neste 'passeio' cultural e turístico, há que adicionar a sede do Turismo Leiria-Fátima. É certo que nas proximidades há estacionamento, mas é pago.
Bons, mas poucos, exemplos
Na nossa viagem de duas horas pela cidade do Lis, também encontrámos bons exemplos, mas poucos. Governo Civil de Leiria e Centro de Saúde Dr. Gorjão Henriques têm estacionamento para pessoas com mobilidade reduzida.
O mesmo acontece junto ao Teatro José Lúcio da Silva e Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT). Contudo, se no primeiro caso o estacionamento está localizado nas traseiras, obrigado a pessoa 'deficiente' a contornar obstáculos e a percorrer cerca de 40 metros, próximo do IDT há dois lugares, mas, por sua vez, o edifício não tem rampas de acesso. A solução será pedir ajudar para subir as escadas.
A todos os exemplos que reportamos, constatámos a falta civismo. Se em alguns locais não há estacionamento para 'deficientes', onde os há estão, algumas vezes, ocupados por viaturas de automobilistas sem qualquer problema de locomoção ou mobilidade.
Câmara estuda mobilidade e trânsito na cidade
O vereador da câmara de Leiria com o pelouro do Trânsito e Segurança Rodoviária mostrou-se sensível sobre a temática da mobilidade, e assegurou, ao nosso jornal, que a autarquia está a estudar essa e outras situações relativas ao trânsito na cidade.
"A questão de lugares [de estacionamento] para pessoas com mobilidade condicionada tem estado a ser equacionada por esta câmara e junto dos serviços públicos, mas a autarquia também precisa da ajuda e do contributo desses cidadãos, no sentido de levarmos a efeito acções para que tenham acessos mais fáceis e cómodos e, consequentemente, possam usufruir desses serviços".
António Martinho reforçou que "a câmara está a estudar essa situação em concreto, assim como de outras relativas ao trânsito e mobilidade na cidade. Podemos pensar numa solução, mas essa pode ser sempre melhorada a favor do munícipe e dos serviços", concluiu.
Falta de estacionamento e de rampas são as maiores queixas
A ausência de estacionamento e de rampas são as maiores queixas das pessoas portadoras de deficiência e com mobilidade reduzida. Assim o garante o vice-presidente da Associação Portuguesa de Deficientes - Delegação Distrital de Leiria, que não se mostra surpreendido pela falta de lugares de estacionamento junto aos serviços públicos. "A mim não me surpreende", afirma Manuel Sousa, sublinhando que a Associação que dirige desenvolveu um trabalho nesta temática, e reportou o problema a várias entidades, inclusive à autarquia de Leiria. "Pedimos à câmara, há mais de 10 anos, para que colocasse o estacionamento no Largo da República num espaço mais central, por exemplo, junto à Praça de Táxis, uma vez que o estacionamento que existe está no início de uma rampa", exemplifica. Contudo, Manuel Sousa aponta que há sensibilidade da autarquia leiriense para os problemas que atingem as pessoas com 'deficiência'. "Os poderes locais escutam-nos e recebem-nos bem, mas, depois, não há fiscalização dos trabalhos executados, e encontram-se muitos erros. Mas a câmara até tem sido acessível às nossas reivindicações e apelos".
Sobre a sensibilidade dos outros automobilistas, "há os que compreendem, outros não, e também há aqueles sem escrúpulos. Ocupam lugares que não lhe são reservados. Mas também há os que oferecem ajuda", sublinha. O mesmo acontece com as autoridades policiais, que "mostram sensibilidade. Mas, na prática, não há correspondência às nossas expectativas", frisa o mesmo responsável, de 57 anos, e há 36 portador de uma deficiência que o obriga a deslocar-se em cadeira de rodas. A concluir, Manuel Sousa realça que "na parte antiga da cidade fizeram-se boas acessibilidades, mas ainda há muito para fazer em Leiria".
Fonte: Diário de Leiria