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..:: Deficiente-Forum - Informação ::.. Responsável: Claram => Ciência & Novas Tecnologias => Tópico iniciado por: Eduardo Jorge em 17/07/2010, 20:50
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Um dos mais prestigiados cientistas nacionais deu o tiro de partida para este encontro. Alexandre Quintanilha, secretário do Conselho dos Laboratórios Associados (CLA), explicou que reuniões como esta servem sobretudo para desenvolver uma massa crítica científica e uma plataforma para jovens investigadores. Quintanilha lançou um claro apelo aos elementos do governo presentes no encontro: o antigo director do Instituto de Biologia Molecular e Celular (I BMC) admitiu que o investimento no conhecimento é sempre dispendioso, «mas a ignorância é certamente muito mais cara para o país. Em conversa com a Notícias Magazine, Alexandre Quintanilha confessou a surpresa (e o orgulho) pelas duas mil pessoas que se inscreveram para assistir ao evento: «É a quarta vez que nos juntamos, mas estou estupefacto com toda esta curiosidade que conseguimos despertar. É importante que as pessoas saibam o que podem pedir à ciência.» Uma das grandes vantagens desta reunião, na opinião do cientista, é a possibilidade de constituição de uma plataforma para jovens investigadores que aqui descobrem interesses em comum, e o contacto com laboratórios que desenvolvem projectos com os quais poderão vir a associar-se. Para Quintanilha, este é também um fórum de discussão sobre os meios que a ciência pode utilizar para chegar ao público. Apontando o dedo aos órgãos de comunicação social, afirma que muitos sacrificam as secções de ciência e cultura em prol dos acontecimentos desportivos e dos escândalos: «Isto não está só a acontecer em Portugal. Nos EUA, por exemplo, as redacções têm cada vez menos jornalistas especializados nestas temáticas.» Para combater a apatia dominante, investigador sublinha o número crescente de cientistas que se deslocam às escolas ou que divulgam as suas actividades e pesquisas através da internet.
Muito concorridas foram as sessões com temáticas gerais, talvez por não exigirem conhecimentos especializados. Investigadores de todas as áreas, curiosos de todas as idades e muitos estudantes, sobretudo do secundário. Fernando Fraga foi um deles. A terminar o 12. ° ano na Escola Secundária Pedro Alexandrino, na Póvoa de Santo Adrião, Odivelas, é candidato a engenheiro químico: «Acho que sempre soube que queria ser cientista. Também tive influência familiar, porque o meu pai é médico, mas sempre gostei de investigação.» Fernando Fraga foi um dos de 1200 alunos do ensino secundário que no ano passado ocuparam parte das férias nas iniciativas do Ciência Viva: «Visitei vários laboratórios de universidades portuguesas. Fui mesmo ver os sítios onde se faz ciência», conta, entusiasmado. «O Ciência 2010 é uma óptima maneira de reunirmos todos os investigadores e debatermos os problemas. Um dos quais, considera, é a falta de divulgação da ciência nos meios de comunicação: «Sinceramente, não me identifico muito com o que se noticia nos jornais e na televisão em Portugal. Em relação à ciência, os meios de comunicação social têm uma grande carência de conteúdos.
Robôs e humanos
Manuela Veloso liderou uma das sessões mais aplaudidas deste encontro. Há mais de vinte anos que se dedica ao estudo da robótica, na Universidade de Carnegie Mellon, nos EUA - o que lhe permitiu chegar a algumas conclusões, como a que diz respeito à autonomia dos robôs. Tal como um psicólogo ou um neurocientista que estuda a mente humana, Manuela Veloso investigou a percepção, cognição e acção dos robôs. Concluiu que têm visão limitada e que não conseguem realizar determinadas tarefas. Mas percebeu também que se encontram «perfeitamente conscientes» das suas incapacidades e que, por essa razão, estão aptos a pedir ajuda humana.
Para comprovar a sua teoria, a investigadora avança com alguns exemplos: «Isto pode ser aplicado na melhoria da qualidade de vida de pessoas com mobilidade reduzida.» Mostra vídeos em que os recebem ordens de humanos e as concretizam. A investigadora sublinha como os robôs podem ser úteis em hospitais ou clínicas de saúde: «Imagine que pretende ir fazer análises e que na recepção lhe dizem para ir ao quinto piso, depois virar à esquerda, terceira porta... Quando lá chegar o mais provável é não se lembrar de nada. Estes robôs podem guiar as pessoas se lhes dermos esse tipo de instrução.» tarefas que para os humanos são fáceis e para os robôs são difíceis, como abrir portas. Mas a investigadora acha que se nos deixarmos desta ansiedade de querermos pôr os robôs a fazer tudo e soubermos interagir com eles, poderemos vir um dia a ter uma sociedade que os integre: «Para a robótica é fundamental colocar robôs em Marte ou no fundo dos oceanos, porque os seres humanos não podem ir lá. Essa é uma prioridade absoluta, o que não é o caso na nossa investigação. É verdade que não vamos inventar nem descobrir nada. Mas considero que esta é mais uma oportunidade para melhorarmos a nossa qualidade de vida.
Medicina e informática
Gabriela Almeida, cientista do IPATIMUP - Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto -, apresentou o projecto de investigação oncológica que coordena e envolve 12 investigadores de três laboratórios. A investigação aponta as grandes vantagens da quimioterapia em doentes com cancro: aumento da percentagem de hipóteses de cura e a melhoria da qualidade de vida. Há, no entanto, alguns «senãos», como a toxicidade produzida nas células não doentes. Gabriela Almeida e a sua equipa estudaram a resistência farmacológica à medicação que possibilita o regresso do cancro anos mais tarde. Ao que afirma, os cientistas acreditam que esta resistência é causada por um determinado tipo de células potencialmente cancerígenas: «Estamos a estudar estas células para tentar descobrir formas de as tornar mais sensíveis à quimioterapia. Assim, poderemos eliminálas e evitar a recorrência.
No capítulo da segurança de informação e protecção de infra-estruturas críticas, Mário Freire, da Universidade da Beira Interior, apresentou pormenores de um projecto sobre segurança na internet. Depois de códigos e fórmulas transmitidos numa linguagem da qual definitivamente não partilhamos, o investigador acede em fazer-nos «a tradução». Imagine que é administrador de um site de uma empresa e que esse mesmo site é acedido por milhares (ou milhões) de visualizadores do mundo inteiro, partilhando conteúdos e informação. A dada altura, pretende realizar uma tarefa interna, como o processamento de salários, uma comunicação para os seus colaboradores, ou qualquer outra actividade similar. Não pode, porque a largura de banda» encontra-se ocupada pelas aplicações Peer2Peer - os conteúdos que são partilhados entre pares. Mário Freire percebeu que deveriam existir estratégias que permitissem às empresas detentoras destes sites bloquear o tráfego em determinados momentos nos quais necessitassem de ter mais largura de banda disponível. O processo não passa simplesmente pela descodificação e bloqueio do IP (ou endereço) do computador que está a aceder ao site: «As aplicações Peer2Peer de que estamos a falar conseguem encriptar o tráfego, ou seja, não se consegue ver o que lá vai dentro. Para além disso, o IP varia consoante o peer que está a fornecer-nos esse conteúdo. Não é sempre o mesmo servidor que gere esse tráfego. Esse tráfego está distribuído por milhares de utilizadores, e pode ser qualquer um desses milhares a enviá-lo.» O projecto encontra-se ainda fase de investigação. Espera-se que possa vir a chegar ao utilizador comum (e às empresas) o mais rapidamente possível.
Artes e design
Neste quarto encontro de cientistas introduziu-se uma inovação. Christopher Frayling, do Royal College of Arts, no Reino Unido, felicitou os organizadores por, pela primeira vez, colocarem ciência, tecnologia, arte e design no mesmo patamar de investigação. Criticando o snobismo da ciência (e dos seus habituais produtores) face às artes, à cultura e ao design, considerou importante que se divulgue e incentive a investigação ligada a estas últimas áreas.
Numa sessão específica, investigadores da Universidade Católica e do INESC Porto, da Faculdade de Belas Artes e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, da Universidade da Beira Interior e do Algarve puderam apresentar muito resumidamente os projectos que desenvolvem e que são únicos nas suas especificidades. Entre eles, destaque para uma base de dados com todas as teses científicas realizadas sobre cinema português que está a ser desenvolvida pelo Labcom, da Universidade da Beira Interior, enquanto o Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa está a criar um site com todos os momentos representativos da história do teatro em Portugal. Uma sessão plenária e um pequeno painel marcaram o modesto início do que se espera vir a ser uma iniciativa mais consistente no futuro ano. As restantes áreas foram institucional e individualmente bem representadas. E aplaudidas com entusiasmo, provando que a ciência em Portugal está viva e de boa saúde.
Fonte: Inescporto