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..:: Deficiente-Forum - Mundo Animal : Responsável: Nandito => Comportamento => Tópico iniciado por: Nandito em 31/03/2026, 09:41
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Comportamento “extremamente raro”: Fêmeas de lince-ibérico observadas a molhar presas depois de as caçarem
Green Savers
31 Março 2026 07:02
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Comportamento “extremamente raro”: Fêmeas de lince-ibérico observadas a molhar presas antes de as consumirem
Um grupo de investigadores liderado pelo Instituto de Investigação em Recursos Cinegéticos (IREC) apercebeu-se de algo inesperado: várias fêmeas foram observadas a levar coelhos que caçaram até pontos com água e a submergi-los.
Na região de Montes de Toledo, no centro de Espanha, foi documentado o que os cientistas estão a descrever como um comportamento nunca antes observado em linces-ibéricos (Lynx pardinus).
Através de armadilhas fotográficas que captaram imagens da vida selvagem entre 2020 e 2025, um grupo de investigadores liderado pelo Instituto de Investigação em Recursos Cinegéticos (IREC) apercebeu-se de algo inesperado: várias fêmeas foram observadas a levar coelhos que caçaram até pontos com água e a submergi-los.
O primeiro caso deste comportamento singular foi captado a 9 de agosto de 2020. Uma fêmea de nome Naia foi vista a transportar um coelho (Oryctolagus cuniculus) que tinha acabado de capturar até um bebedouro criado para fornecer água ao gado. Além deste caso, a equipa documentou outros oito, envolvendo cinco fêmeas diferentes e cinco bebedouros distintos.
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Imagens de fotoarmadilhagem mostram uma fêmea a levar um coelho até a um bebedouro e a molhá-lo, no centro de Espanha. Fotos: Jiménez et al., 2026, `Ecology’.
“Este comportamento é extremamente raro em carnívoros terrestres selvagens e nunca tinha sido documentado em felídeos”, diz José Jiménez, primeiro autor do estudo que dá conta da descoberta, publicado na revista ‘Ecology’.
Nas imagens recolhidas, os cientistas viram os linces a submergir os coelhos na água durante pelo menos 60 segundos, sem os largarem, e depois a abandonarem o local, com a presa encharcada nos dentes.
Os autores dizem que este parece ser um fenómeno local, uma vez que não há, pelo menos para já, quaisquer registos de comportamentos semelhantes noutras populações selvagens de linces na Península Ibérica nem em centros de reprodução em cativeiro. Mais intrigante é o facto de o comportamento não acontecer somente quando está muito calor, pelo que dizem que será causado por algo mais profundo.
Como o pêlo dos coelhos absorve uma quantidade de água equivalente a 5% do seu peso corporal e consegue mantê-la em grande parte durante quase 40 minutos após a imersão, a equipa sugere que, dessa forma, as fêmeas estão a transportar água para as suas crias, além de comida.
Uma vez que todos os casos deste tipo de comportamento foram registados entre junho e agosto, no pico da estação seca e quente, molhar os coelhos pode ajudar as fêmeas a levar água até às suas crias durante o período de desmame, quando passam do leite materno para alimentos sólidos e, por isso, ingerem menos água.
Indícios de uma cultura animal
Os investigadores sugerem que este comportamento é aprendido através de interações sociais que permitem a partilha de conhecimento, uma vez que as fêmeas que foram observadas a fazê-lo eram parentes ou partilhavam os mesmos espaços.
Dessa forma, dizem que, embora seja considerado um animal solitário, os linces-ibéricos têm capacidades de socialização que lhes permitem transmitir e receber conhecimento de outros indivíduos.
Por tudo isso, a equipa acredita estar perante um caso de “cultura animal” ou, mais tecnicamente, de inovação comportamental socialmente mediada. É possível que, algures no tempo, uma fêmea inovadora tenha descoberto as vantagens de molhar os coelhos e que outras, muito provavelmente as suas filhas, tenham aprendido a técnica através da observação.
Os autores deste trabalho salientam que a capacidade de mudar de comportamento é algo que raramente é documentado em felídeos selvagens e que revela a “sofisticação cognitiva” destes animais.
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Créditos:
Os cientistas descrevem este comportamento como inédito e sugerem que foi descoberto um fêmea pioneira e aprendido por outras através de observação. Foto: Jiménez et al., 2026, ‘Ecology’.
Além disso, mostra que há ainda segredos por desvendar, mesmo sobre espécies relativamente às quais podemos achar que já sabemos tudo.
“Mesmo em espécies tão emblemáticas e bem estudadas como o lince-ibérico, continuamos a encontrar comportamentos inesperados na Natureza que põem em causa as nossas ideias sobre evolução e adaptação”, sublinha Jiménez.
O lince-ibérico é uma espécie ameaçada de extinção. No início do século, estava à beira da extinção, classificado como “Criticamente em Perigo” na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Em 2015, nova avaliação do seu estado de conservação global aliviou o estatuto de ameaça para “Em Perigo” e em 2024 passou para “Vulnerável”, fruto de décadas de cooperação transfronteiriça ibérica, e também a nível internacional, para resgatar das garras da extinção o felídeo endémico da Península Ibérica.
Por isso, os investigadores veem como “um sinal de resiliência” o facto de o lince ser capaz de inovar e transmitir novos comportamentos, especialmente num contexto de agravamento das alterações climáticas e de aquecimento do planeta, em que ser capaz de se adaptar rapidamente a ambientes em mudança pode ser a diferença entre a sobrevivência e a extinção.
Fonte: sapo.pt Link: https://sapo.pt/artigo/comportamento-extremamente-raro-femeas-de-lince-iberico-observadas-a-molhar-presas-antes-de-as-consumirem-69cb637d8267c026e3e08dad