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..:: Deficiente-Forum - Entretenimento ::.. Responsável: casconha => Off Topic's => Curiosidades & História => Tópico iniciado por: casconha em 31/10/2025, 16:52

Título: Guerra Junqueiro - magistral
Enviado por: casconha em 31/10/2025, 16:52

É no que dá saber pouco de história. estava eu convencido que a actual mentalidade e comportamento dos políticos e governantes portugueses eram da safra de 1974 e seguintes. santa ignorância pois já em 1896 as queixas eram iguais às de 2025 e continuarão, o que menos desculpa os actuais governantes que depois de 188 anos não só não aprenderam nada que jeito tivesse, achando eu que até reviram e aumentaram a eficácia da criminalidade política e governamental. morte lenta e dolorosa seria castigo exageradamente benevolente para quem tanto prejuízo tem causado...
guerra junqueiro parece estar a viver os dias de hoje
um retrato magistral feito há 118 anos, mas com actualidade aterrorizadora


Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga,
besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião,
um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,não descriminando já o bem do mal, sem palavras,
sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia,
da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam,
entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador;
e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política,torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido,
análogos nas palavras, idênticos nos actos,
iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar.

Hoje, a única diferença é que há mais partidos, logo, mais uns quantos inúteis imbecis, candidatos ao gamelo, à espera da oportunidade de se juntarem à camarilha do poder para mais depressa esfolarem o borrego que já foi sacrificado e se sentarem à mesa do orçamento. Só falta mesmo tirar-lhe a pele!
Como se pode entender, a não ser por uma endémica inercia de todos nós, que um povo com mais de 850 (oitocentos e cinquenta anos) de história, ainda não tenha atingido a maioridade para se governar por si próprio? Um povo de bravos homens que, no desconhecido, procurou um mundo novo que lhe diziam estar para lé do mar? Um povo que ajudou a fazer a história da velha Europa. Todavia, um povo que
nunca se soube governar, nem mesmo quando às nossas costasmarítimas chegavam barcoscarregados de ouro das possessões ultramarinas?