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Autor Tópico: Nunca precisámos de outra coisa! Foi escrito em 1934  (Lida 481 vezes)

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Offline casconha



Em 1934,os agricultores do Campo Branco, debatiam-se com uma enorme falta de adubos para a sua actividade agricola.
Na época o Presidente da Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos do Norte, Centro e Sul do Alentejo (Nos tempos de Salazar não havia Sindicatos livres, mas sim estatais, corporativos), que se denominava a si mesmo como, Dom Tancredo, o Lavrador, decide enviar auma Exposição em verso, ao Ministro da Agricultura de Salazar, à época (1934) Leovivildo Queimado de Sousa.Eis o texto da Exposição:

"Ao Excelentissimo Senhor
Ministro da Agricultura.

Exposição

Porque julgámos digna de registo
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguêmos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslise
e em que damos razão da nossa crise.

Senhor! Em vão esta província inteira
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa,
Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca
-A matéria ,em questão, chama-se cáca.

Precisamos de merda, senhor Soisa!
E nunca pecisámos de outra coisa

Se os membros desse ilustre Ministério
querem tomar o nosso caso a sério
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.

E mijem-nos ,também ,por caridade!
Oh senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
venha até nós!...

Solicito ,calado,
busque um terreno que estiver lavrado
e...como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!

A Nação confiou-lhe os seus destinos?...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe
...quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Qunto porão as suas esperanças,
num traque do Ministro das Finanças?...
E quem viver aflicto ,sem recursos,
já não distingue ,os traques, dos discursos.

Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merfda que juntarmos nelas.

Precisamos de merda, senhor Soisa
e nunca precisámos de outra coisa.

...Adubos de potessa?...Cal?...Azote!...
tragam-nos merda pura, do bispote!

E todos os penicos portugueses
durante, pelo menos, uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras nuas,
desespero de arados e charruas,
quem as compra, ou arrenda, ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda...

Precisamos de merda, senhor Soisa
e nunca precisámos de outra coisa.

Ah! merda grossa e fina, merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!...
Como é triste saber que todos vós
andais cagando sem pensar em nós!
Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala
pois até nos faz conta a merda rala!

Venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão de qualidade
formas normais, ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas
desde a pequena pôia à grande bósta
de tudo o que vier a gente gosta.

Precisamos de merda ,senhor Soisa
e nunca precisámos de outra coisa!

Évora, 18 de Fevereiro de 1934

Pela Junta Corporativa dos Sindicatos
Reunidos Norte,Centro e Sul do Alentejo

O Presidente
Don Trancredo (O lavrador)"
 

 



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