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Autor Tópico: “Existe o hábito de nos fecharem portas e de nos criarem barreiras”  (Lida 1316 vezes)

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Offline Eduardo Jorge

 
Gonçalo Coelho tem 26 anos e é surdo. Só é diferente das outras pessoas porque, diariamente, tenta derrubar os muros que a sociedade ergueu à comunidade surda nas escolas, no mercado de trabalho e até nos hospitais. Em entrevista ao DIÁRIO AS BEIRAS, na empresa Smile Hands, mostra-se preocupado com o futuro daqueles que representa enquanto presidente da Associação da Comunidade Surda do Distrito de Coimbra.
                                                                     
A maior parte dos jovens surdos não consegue arranjar emprego. O Gonçalo tem 26 anos e esse é um dos problemas com que se depara.

Não quero falar só sobre mim, mas sobre a situação geral das pessoas surdas. A maior parte delas tem algumas dificuldades. Há pessoas surdas que têm cursos completos como eu, por exemplo. Há esteticistas, outros são eletricistas, etc., e quando vão encontrar-se com o empregador têm dificuldades porque eles dizem: ‘nós temos dificuldades em percebê-los’. Os surdos ficam magoados e isso não deve ser feito às pessoas. Parece que nos tratam como coitadinhos e nós, surdos, não somos coitadinhos, temos de continuar a lutar. Nós podemo-nos casar, ter filhos, ter carro, casa, ter dinheiro, tal e qual como as pessoas ouvintes. Nós não devemos ser tratados a um nível inferior e não podemos continuar assim. Não sei porque é que há este hábito de nos fecharem as portas e de nos criarem tantas barreiras. Nós ficamos tristes e não aceitamos esta situação. Dizem-nos: ‘você é surdo, não pode atender o telefone, não pode contactar com as pessoas”. Isso não pode ser assim.

Até porque há limites para algumas tarefas, mas não para tudo.

Claro, mas temos sempre barreiras. Eu estou desempregado, trabalhei durante pouquíssimo tempo, foi um trabalho bastante precário num armazém duma empresa. Tive um contrato de três meses e depois o patrão disse que, possivelmente, iriam renovar o contrato. Eu trabalhava muito bem, era bastante pontual, tinha muita responsabilidade, mas como era surdo, acabava por ser posto de lado. E depois foi uma pessoa ouvinte que foi contratada em vez de mim. Achei estranho. Eu colaborava bastante bem com os meus colegas, trabalhava em conjunto com eles e, depois, tiveram preferência por outra pessoa, não sei porquê. Estou preocupado em relação ao futuro dos surdos. Será que vai ser assim? Isto não pode ser um objetivo para as pessoas surdas. Agora, quando peço para marcar entrevistas e envio o meu currículo, não tenho nenhum tipo de resposta. Mandei mais de 20 currículos e não obtive nenhuma resposta. Parece-me impossível. As pessoas ouvintes dizem: ‘peço desculpa, mas não pode trabalhar nesta área’. Isto não é uma resposta que se dê e eu sinto que esta situação não pode continuar assim. Há pessoas surdas com licenciaturas e cursos superiores, mas, por serem surdas, é-lhes recusada a hipótese de trabalhar. Temos de lhes dar uma oportunidade.

Qual é a sua área de formação?

Já tenho um curso e agora estou a estudar Língua Gestual Portuguesa. Eu gosto muito desta área porque também é uma forma de defender a minha língua. Sendo presidente da associação de Coimbra, vejo que é fácil estabelecer uma ponte de comunicação com os intérpretes e, no entanto, continuam a criar-nos as tais barreiras, alegando problemas de comunicação. As pessoas perguntam-me: ‘tu não ouves, como é que é?’. Eu não penso nisso, tenho pernas, braços, cara, tudo igual às outras pessoas, inclusive a capacidade mental. Temos alguns limites na comunicação, mas se houver um intérprete, esse problema desaparece.

Para além de haver falta de tolerância, deveria haver maior educação para a língua gestual?

Não acho que se deva obrigar ninguém a aprender língua gestual. No entanto, as pessoas surdas são obrigadas a oralizar e a aprender língua portuguesa. Eu, quando era pequeno, não sabia língua gestual porque os meus pais são ouvintes e tínhamos alguns limites de comunicação. Contudo, conseguíamos comunicar entre nós, mas tinha aquele hábito e aquela imposição da sociedade. Comecei a olhar para mim e a achar que não tinha facilidade em comunicar com outras pessoas ouvintes, mas quando estava com outras pessoas surdas não tinha barreiras. As pessoas surdas sempre respeitaram as pessoas ouvintes, e às vezes os ouvintes não nos respeitam a nós. O grande problema da nossa sociedade é a falta de acessibilidade. Na Assembleia da República, o professor Cavaco Silva falou diretamente para os surdos e a favor da língua gestual. Vamos ver como vai ser o nosso futuro.

O futuro há de vir, mas e quanto ao passado? Como foi para si crescer com a surdez?

Eu tenho alguma facilidade na oralidade, mas há pessoas surdas que não oralizam nada. Por exemplo, os meus pais são ouvintes e a minha irmã mais velha também e a nossa comunicação não funciona a 100 por cento. A minha família apoia-me bastante, claro, e isso nem sequer está em causa. Contudo, eu nasci com uma cultura diferente, a cultura dos surdos. Mas convivo em sociedade e respeito as regras. Sinto que somos todos iguais. Os meus pais dizem que eu sempre tive uma vida feliz, mas, fazendo uma retrospetiva, eu acho que não. Em pequeno, não era tão feliz como isso. Eles davam-me tudo, mas faltava-me o contacto, a comunicação, faltava-me poder comunicar com eles de forma perfeita. Eu acabei por aprender bastantes coisas junto da comunidade surda, mais do que com os meus pais. Quando as pessoas ouvintes têm filhos surdos, acham que os devem super proteger, mas devemos dar independência às pessoas surdas, tal como às pessoas ouvintes.

Sentiu que teve todo o apoio que necessitava durante o seu percurso académico ou teve mais dificuldades por ser surdo?

Senti um pouco das duas coisas. Agora na faculdade não, sou tratado de forma igual. Os professores percebem-nos perfeitamente, temos intérpretes de língua gestual. No secundário e no ensino básico foi mais complicado, parece que me davam “sopa”, acabavam por nos deixar passar. Na faculdade é bastante diferente, eu prefiro esta exigência. Nas escolas onde estudei, esses hábitos continuaram e mantêm-se hoje em dia. Na faculdade os professores respeitam-nos, tratam-nos com igualdade plena e fiquei muito admirado, porque no secundário parecia que o ensino era à moda antiga e bastante retrógrado. Quando tinha mais dificuldades, os meus pais apoiavam-me, tal como a minha namorada que também me apoia bastante e também é surda. Mas, por outro lado, é preciso um grande esforço da nossa parte. A minha namorada, que está na faculdade, no curso de Psicologia, não tem intérprete e tem de fazer um grande esforço.

Mas, hoje em dia, sente que faltam apoios aos estudantes surdos?

Agora estamos melhor porque, finalmente, temos algum apoio ao nível da interpretação. Em 2004, quando acabei o secundário, foi o primeiro ano em que tive intérprete. Mas alguns intérpretes também têm bastantes falhas e não são perfeitos. Eu sempre estive preocupado com os surdos, sempre achei que devia defender as outras pessoas e nós fundámos a associação no ano passado porque estávamos muito preocupados com a nossa situação e também com a questão da saúde. Quando vamos ao médico, explicam-nos tudo de forma muito resumida e parece que nem temos acesso àquilo que se passa connosco. Eu detesto ir ao médico porque ele não me explica nada, mas faço um esforço para tentar perceber o que se está a passar. As pessoas surdas não têm acessibilidades nos hospitais. Há hospitais bons com acessos para deficientes em cadeiras de rodas ou para cegos. E para os surdos, onde estão?

É uma das falhas, essa falta de intérpretes nos hospitais?

Sim. Por exemplo, se eu tiver um acidente e ficar inconsciente. Sou surdo, o médico trata-me, mas será que ele vai perceber que eu sou surdo? Os hospitais deviam chamar um intérprete sempre que há uma pessoa surda. Cada vez há mais intérpretes, mas os surdos não estão satisfeitos com a situação de ter de pagar sempre aos intérpretes. Às vezes pagam 25 euros ou 50 euros por uma hora. Os surdos precisam de ter dinheiro para as suas despesas pessoais, para comer, para viver, e isso prejudica a sua vida. As outras pessoas deficientes têm apoio na aquisição de cadeiras de rodas e a lei obriga a criar rampas de acesso, por exemplo. E para os surdos? Também devia haver a obrigação de ter um intérprete. Os nossos principais problemas têm a ver com trabalho, escolas e hospitais. São as principais barreiras que temos no nosso dia-a-dia. Temos de chamar a atenção às pessoas para que acordem para esta realidade. Tem de haver igualdade.

O que é que esperava que pudesse mudar?

Por exemplo, os acessos nos hospitais. Ter intérprete de língua gestual em vários serviços para poder aceder a tudo.

E que medidas gostava de ver aplicadas no mercado de trabalho, neste caso?

Para já, sermos tratados como pessoas normais, tal e qual como os ouvintes. A fila é a mesma e devíamos estar todos nessa fila. Chamam-nos coitadinhos, mas os deficientes não são coitadinhos. As pessoas surdas acabam por brincar com essa situação e aproveitar-se disso, mas eu não concordo.

Gostava de deixar algum conselho?

Eu costumo colaborar com esta empresa, a Smile Hands. E acho que era importante lembrar que esta empresa também tem cursos de Língua Gestual Portuguesa e as pessoas não têm acedido. As pessoas aprendem línguas estrangeiras e a língua gestual portuguesa pertence à sociedade portuguesa. Porque é que as pessoas não pensam nisso? Acabam por adiar e não aderir a esta causa e acho que devíamos aproveitar agora. Esta empresa está aberta todos os dias, trabalha em prol da igualdade de todos e isso deixa-me muito satisfeito.

Fonte: Diário as Beiras
 

 



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