Como perceberia o que é a música se fosse surdo? O MUTE mostra-lhe comoMARIA JOSÉ SANTANA 20/05/2016 - 10:08
Espectáculo, que conta com a participação de Noiserv, estreia esta sexta-feira no Imaginarius e proporciona uma experiência sensorial que visa chamar a atenção para a realidade vivida por aqueles que não ouvem.

PEDRO GRANADEIRO/NFACTOS
Teatro
Santa Maria da Feira
David Santos, mentor do projecto musical Noiserv, tem consciência que as actuações que irá realizar esta sexta-feira e sábado serão das mais “desafiantes” que já teve de fazer ao longo da sua carreira. Parte da assistência irá ter dificuldades em ouvir, na íntegra, as músicas que estará a interpretar e outra parte não o irá escutar de todo – apenas terão a oportunidade de o ver a tocar um instrumento e a mexer os lábios. Confuso? David Santos estará a tocar e a cantar integrado numa criação artística que pretende chamar a atenção da sociedade para a realidade que é vivida por quem tem limitações auditivas. Um espectáculo ao qual se junta também o Ballet Contemporâneo do Norte (BCN) e que conta com a performance de 12 jovens surdos – alunos da EREBAS (Escola de Referência para a Educação Bilingue de Alunos Surdos) Feira. MUTE é apresentado este fim-de-semana no Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua, que acontece em Santa Maria da Feira (ver caixa), e lança um desafio: “como se ouve a música que não se ouve?”
Os ensaios levaram cerca de três meses e foram, também eles, “um desafio interessante”, nota Daniel Vilar, director artístico da criação. “Nós, produtores, não sabemos comunicar em língua gestual”, começa por reconhecer, ao mesmo tempo que desvenda que a barreira foi ultrapassada com a ajuda de alguns jovens do próprio grupo da EREBAS. “Aqueles que têm menos limitações auditivas, passam a nossa mensagem para os restantes”, especifica o director artístico, ao mesmo tempo que garante que a comunicação acabou por funcionar em pleno, nos últimos meses de trabalho conjunto. Isso mesmo foi testemunhado pelo PÚBLICO, num dos últimos ensaios do espectáculo que irá ser apresentado no Mercado Municipal de Santa Maria da Feira em quatro sessões – sábado e domingo, às 16h00 e às 21h45.
“Têm de ser mais rápidos nos movimentos”, ordenava Susana Otelo, do BCN, no ensaio do passado sábado, aos 12 jovens que integram o elenco de MUTE e que, note-se, não conseguem escutar, ou escutam com dificuldades a música que estão a dançar. Mas isso não foi impeditivo para que mexessem, ritmadamente, os seus corpos, enquanto a música de Noiserv era emitida nas colunas de som instaladas no mercado. “E não nos podemos esquecer que estamos a exigir deles um nível performativo quase profissional”, notava Susana Otelo, no intervalo do ensaio, que demorou cerca de duas horas e que, ainda assim, não retirou as forças a estes bailarinos especiais. “É espectacular ter uma participação activa na cultura, na arte. Isto dá-nos muito prazer”, confessava Joana Cottim, formadora de língua gestual da EREBAS - também ela surda - e que fez questão de integrar o elenco de MUTE. Desde a primeira hora, Joana Cottim tem assumido essa dupla função de bailarina e mediadora entre o grupo de jovens e os produtores do espectáculo, uma missão que garante estar a assumir com todo o orgulho.
No seio do grupo de “bailarinos” o sentimento generalizado é de “satisfação”. “Estamos todos muito incentivados e o projecto é muito inovador”, confessa Pedro Leite, de 17 anos, um dos alunos da EREBAS chamados a integrar o elenco de MUTE. “Já tinha dançado noutros eventos, mas num espectáculo com esta produção é a primeira vez”, faz questão de acrescentar.
A avaliação positiva feita por Pedro Leite é, segundo garantem as docentes Graça Campos e Fátima Oliveira, da EREBAS, extensiva a todo o grupo. “Eles andam todos entusiasmados”, testemunhavam as professoras ao PÚBLICO, enquanto assistiam ao ensaio dos seus “meninos”. “Alguns deles já estão connosco desde os três anos”, nota Fátima Oliveira, com orgulho.
Ambas as docentes garantem que irão assistir à estreia do espectáculo e estarão a torcer para que a mensagem passe para o público presente. “A vida destes jovens é muito difícil e a sociedade nem sempre tem noção disso”, realçavam.
Quer isto dizer que também em matéria de sonoplastia, o espectáculo constitui um grande desafio. “Há um som a ser emitido para as cerca de 50 pessoas que irão vivenciar a experiência, outro para o Noiserv, que tem de estar sempre a ouvir o que está a tocar e a cantar, e o silêncio absoluto para a restante assistência”, evidencia Daniel Vilar.
Fonte: PUBLICO