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Autor Tópico: Portadora de deficiência auditiva fala sobre ser apresentada ao som depois de uma cirurgia  (Lida 117 vezes)

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Portadora de deficiência auditiva fala sobre ser apresentada ao som depois de uma cirurgia

Stephanie Giordani diz que todo dia descubre um som novo
   
POR STEPHANIE GIORDANI 28/05/2018 4:30


RG - ELA - Stephanie Giordani - Divulgação


Eu tinha mais ou menos 1 ano e meio quando meus pais começaram a desconfiar de que havia algo estranho, já que não reagia a nenhum barulho que eles faziam. Mas, como era sempre sorridente e muito participativa, acreditavam que se tratava de um probleminha menor.

Levaram-me ao otorrinolaringologista, que os tranquilizou dizendo que, na minha idade, era normal não reagir a todos os barulhos. Ele recomendou, apenas por excesso de zelo, uma audiometria. No laboratório, o responsável disse aos meus pais que, como minha audição parecia normal, o exame demoraria 45 minutos até que fossem testados todos os volumes e frequências.

Mas, dois minutos depois de avaliação, o médico disse que eu não reagia a praticamente nenhuma frequência. Portanto, o diagnóstico era: surdez profunda.

Apesar de toda a bateria de exames a que me submeti para descobrir a causa da surdez, ninguém soube explicar – diziam que a estrutura do ouvido estava perfeita, nada “fora do lugar”. Depois de muito pensar, minha mãe se lembrou de uma vez, ainda grávida de mim, em que entrou em um elevador e havia uma mulher com rubéola, e esse rápido contato poderia ter me contagiado. Fiz então o exame de sangue para ver se havia os anticorpos da rubéola, e lá estavam (isso quer dizer que eu tive contato com a rubéola e já fui “automaticamente” curada).

Ao mesmo tempo, graças a Deus, apenas o meu ouvido foi afetado, pois rubéola na gravidez normalmente dá problemas bem mais sérios.Obviamente, meus pais ficaram sem chão ao receber a notícia. Contaram-me que, saindo do laboratório em que fiz a audiometria, sentaram no meio fio e choraram por meia hora. Depois de uns dias atordoados, decidiram que eu não levaria uma vida “diferente”. Não teria uma educação de surda nem aprenderia a linguagem dos sinais. De certa maneira, era uma forma de não aceitar a realidade. Vergonha? Sentimento de culpa? Desconhecimento de como tratar o assunto? Talvez um pouco de tudo.

A partir daí, foi uma montanha-russa de emoções, de idas e vindas no mundo inteiro a médicos, especialistas, pesquisas de aparelhos. Todos da família entraram na “luta” — vale lembrar que, naquela época, não havia todas as tecnologias e facilidades de hoje. Depois de muitas viagens, consultas e “conselhos” recebidos, a conclusão foi de que não haveria milagre. Eu deveria usar aparelho de audição e fazer fonoaudiologia para viver neste mundo.


Iniciei a fono. Fui treinada para ser oralizada e não sinalizada. Faço leitura labial desde então.Passei a usar aqueles aparelhos que me permitiam escutar, mas não identificava os barulhos. Todos os ruídos tinham o mesmo som, como uma torre de babel em que meu cérebro tinha que aprender o que cada um deles representava. Isso foi parcialmente possível graças à minha visão das coisas, muito mais do que pelo som. Eu dizia que meus olhos sempre tiveram uma dupla função.

Tive uma infância boa, muito boa aliás. Lembro que ia frequentemente a médicos e fonoaudiólogos para o treino e para ficar testando diversos aparelhos. Ao mesmo tempo, minha família fez questão de que eu cultivasse boas memórias.

Quando tinha entre 4 e 5 anos, minha mãe, já separada do meu pai, me deu um irmãozinho, para me ajudar no processo de adaptações. Ele foi uma dádiva e ajudou a aliviar a situação — até hoje somos melhores amigos. Só frequentei escolas “normais”, mudei para o Rio por dez anos, depois retornei a São Paulo. Passei por aqueles típicos problemas de adolescência também.


Ilustração Silvana Mattievich - O Globo
Tive namorados que só souberam da minha surdez depois de começarmos a sair. Todos tiveram paciência e diziam que isso não era nada. O problema, muitas vezes, era eu mesma, que agia como se minha deficiência fosse um bicho de sete cabeças.

Na escola (e um pouco na faculdade), embora todo mundo dissesse que não havia motivo para embaraço, eu continuava com receio de assumi-la. Talvez os preconceitos tenham dificultado; quem não conhecia esse meu “detalhe”, por vezes, me achava metida, já que eu “não dava bola” para algumas pessoas que tentavam falar comigo.Muitos faziam brincadeirinhas de mau gosto e diziam que eu era “errada”. Sempre tive que fazer o dobro de esforços em relação aos outros: como obrigar o professor a não se virar para o quadro enquanto fala algo? A cada virada, a leitura labial era impossível, e eu tinha que correr atrás do prejuízo. Mas não me lembro de algo tão traumático, pois minha família sempre me apoiou. É importante os pais ou a família darem essa força aos filhos ainda pequenos. Na faculdade, comecei a me soltar mais e, finalmente, falo hoje sobre isso até quase com orgulho.

Durante toda a minha vida, sempre ficamos de olho nas novidades em aparelhos e implantes. Mas eu sempre dizia: “ah, vamos esperar mais um pouco, vai que daqui a pouco aparece algo melhor ainda”; acho que o medo de fazer alguma cirurgia falava mais alto. E foi assim por 30 anos, até que finalmente decidi fazer o implante coclear.

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Meus pais me incentivavam, mandando as últimas notícias sobre novos aparelhos, sempre respeitando o meu tempo. Quem me ajudou a bater o martelo foi uma amiga também implantada que conheci por acaso na faculdade e com quem tive o prazer de passar um tempo em Londres. Diante do tanto que ela escutava e falava, tomei a decisão. Hoje faz um ano e nove meses que implantei e não podia estar mais feliz e grata. Ainda estou em processo de fono para o cérebro “aprender” a escutar sem precisar da leitura labial, e está cada dia mais incrível com o tanto que tenho escutado e entendido. Até o tique-taque do relógio consigo escutar! Claro que, para chegar até aqui, não foi simples. Quando ativei o implante, tive aquela sensação de “é isso...?” Quase fiquei decepcionada; não escutava quase nada, eram uns sons superestranhos. Mas me explicaram que era assim mesmo, que era algo novo para o cérebro, que era questão de treino e tempo. E hoje... uau.

Todo dia descubro um som novo e vivo uma emoção diferente. Às vezes, até desligo meu aparelho para ter um pouco de paz. É inacreditável a cacofonia de barulhos que a vida tem. Agora já fico pensando em quando farei o implante do outro lado. Sei que muita gente não tem a mesma sorte que eu, mas espero que um dia todos possam ter acesso a essa cirurgia. O processo melhorou e está se popularizando. Mas, infelizmente, ainda é um privilégio. Quero muito ajudar nessa questão, chamar atenção para a causa e tornar a cirurgia acessível. A quantidade de surdos é enorme.

Namoro um homem incrível, inglês por sinal. Só que tudo é diferente, pois não tenho vergonha nem aquela insegurança que acabava criando problemas onde não havia. Aprendi, cresci, me aprofundei espiritualmente e sou uma nova pessoa. Moro em Londres há três anos, faço leitura labial em inglês, trabalho no setor de marketing de uma empresa que, mesmo conhecendo minha deficiência, acreditou em mim. Vejo hoje a surdez como algo positivo, que, em grande parte, moldou o que eu sou. O sentimento é de uma profunda gratidão. Ainda passo por dificuldades e sempre passarei, mas não importa; sei que isso faz parte da minha missão para algo maior nesta vida. Quem sabe contar a minha história não ajude outras pessoas nesse despertar?



Fonte: https://oglobo.globo.com/ela/gente/portadora-de-deficiencia-auditiva-fala-sobre-ser-apresentada-ao-som-depois-de-uma-cirurgia-22714938
 

 



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