Hoje tenho um artigo muito especial para compartilhar. Trata-se de um estudo brasileiro publicado na revista physiotherapy em 2003 e que investigou os efeitos da cinta abdominal sobre a função respiratória de pacientes tetraplégicos na posição sentada e supina.
Este artigo é particularmente interessante porque ele demonstra que o apoio das vísceras abdominais pode ajudar a mecânica respiratória. Além das repercussões óbvias para pessoas com lesão medular alta, parece razoável supor que podemos extrapolar os resultados deste estudo também para crianças com amiotrofia espinhal e hipotônicos em geral na tentativa de melhorar a eficiência da tosse.
Segue abaixo a tradução livre do resumo, introdução e discussão do trabalho. Quem quiser baixar o artigo original, basta clicar no anexo ao post.
A lesão medular alta provoca uma diminuição da função respiratória. O uso de cintas abdominais em pacientes tetraplégicos com paralisia dos músculos abdominais têm sido relatado como benéfico.
Dez pacientes com lesão medular cervical (C4 a C7) foram avaliados por um examinador "cego", por meio da medição da pressão inspiratória máxima, pressão expiratória máxima e capacidade vital forçada com e sem a cinta abdominal nas posições supina e sentada em uma seqüência aleatória.
Os valores da pressão inspiratória máxima (-57,25 ± 17,68 cm de H2O), pressão expiratória máxima (24,35 ± 7,28 cm H2O) e capacidade vital forçada (2,35 ± 0,62 litros) foram inferiores ao esperado. Os valores da capacidade vital forçada foram maiores na posição supina do que sentada. A pressão expiratória máxima e a capacidade vital forçada apresentaram os valores mais altos na posição sentada quando a cinta abdominal foi utilizada.
Concluímos, portanto, que uma cinta abdominal melhora a eficácia dos músculos respiratórios por aumentar a pressão expiratória máxima e a capacidade vital forçada quando usado por pacientes tetraplégicos na posição sentada.
INTRODUÇÃO:
As lesões medulares causam alterações motoras e sensoriais, levando não só a dependência física, mas também a dependencia social, psicológica e profissional (Guttmann, 1981).
As lesões traumáticas da medula produzem paralisia dos músculos inervados ao nível da lesão e abaixo.
Portanto, lesões altas da medula espinhal causam danos a toda a mecânica respiratória, resultando em alterações musculares e perda de volume e capacidades pulmonares (Mesard et al, 1978; Ledsome e Sharp, 1981; Umphred, 1994).
O declínio da função pulmonar já foi estudado por vários autores. Foram avaliados o Volume Pulmonar (volume de reserva expiratório, volume residual), a Capacidade Pulmonar (capacidade vital, capacidade vital forçada, capacidade pulmonar total) e a Pressão Respiratória (inspiratória máxima e pressão expiratória).
Foram observados uma diminuição no volume de reserva expiratório, capacidade vital, capacidade pulmonar total, pressão inspiratória máxima e pressão expiratória máxima e um aumento no volume residual (Fugl-Meyer e Grimby, 1971; Forner, 1980; Ledsome e Sharp, 1981; Gounden, 1997; Loveridge et al, 1992; Lin et al, 1998; Fujiwara et al, 1999; Van Der Schans et al, 2000; Estenne et al, 2000).
A perda de volume pulmonar está associada com a perda da força muscular abdominal, e os benefícios de usar uma cinta abdominal em pacientes tetraplégicos para ajudar a respiração estão descritos na literatura.
Alguns autores demonstram melhora da capacidade vital em determinadas posições e também melhora da pressão transdiafragmática no "sniff test" (Goldman et al, 1986; McCool et al, 1986). No entanto, outros estudos não mostram esses efeitos (Haas et al, 1965; Estenne et al, 1998; Maloney, 1979), e desta forma, o uso de cinta abdominal permanece controverso.
O objetivo desta pesquisa foi avaliar os efeitos da cinta abdominal sobre o desempenho dos músculos respiratórios e na capacidade vital forçada em pacientes tetraplégicos nas posições sentada e supina.
DISCUSSÃO
O presente trabalho avaliou os efeitos da cinta abdominal na musculatura respiratória e volumes e capacidades pulmonares, quando utilizada nas posições sentada e supina em pacientes com lesão medular (C4 a C7).
Quando as posições sentada e supina foram comparadas, os valores da capacidade vital forçada foram maiores na posição supina, sem demostrar melhora adicional quando a cinta era utilizada; e quando comparado o uso ou não-uso da cinta abdominal, a pressão expiratória máxima e a capacidade vital forçada foram maiores com o uso da cinta na posição sentada.
Embora hajam algumas controvérsias, estudos têm demmonstrado os benefícios do uso da cinta abdominal. Os parâmetros utilizados mostram um aumento da capacidade vital (Goldman, 1986), capacidade inspiratória (McCool, 1986) e da pressão transdiafragmática durante o "sniff test" na posição sentada e na supino elevada. Outra recomendação para o uso da cinta abdominal é a melhora da tosse (Celli et al, 1984; Goldman et al, 1986), entretanto, o estudo da Estenne et al (1998) mostra pequena melhora na efetividade da tosse em pacientes tetraplégicos.
Este é o primeiro trabalho que demonstra uma melhora na mecânica respiratória, com um aumento na eficiência dos músculos respiratórios e consequente aumento nos valores de pressão expiratória máxima e capacidade vital forçada com o uso da cinta abdominal na posição sentada, permitindo um melhor fluxo respiratório e melhora da tosse, uma vez que os valores de pressão expiratória máxima foram de 26,4 ± 7,3 cm H2O, que são maiores do que o necessário para iniciar a compressão dinâmica das vias aéreas.
Esta melhora na função pulmonar, no entanto, não apresentou nenhuma melhora nas medidas de pressão inspiratória com o uso da cinta em qualquer postura adotada, estando este achado, de acordo com estudos anteriores (Goldman et al, 1986; McCool et al, 1986; Gounden, 1997).
A maioria dos estudos foram realizados com um número pequeno de pacientes e uma grande variação no tempo decorrido desde a lesão. Isso também ocorre nesta pesquisa e pode contribuir pelos resultados variados observados na amostra.
Depois de usar a cinta, os pacientes foram questionados quanto a sensação durante a sua utilização. Eles relataram maior facilidade em respirar na posição sentada com o uso da cinta. Este tipo de relatos não foi encontrado na literatura. Quando questinados, todos os pacientes relataram facilidade em tosse com o uso da cinta abdominal.
Ao final da pesquisa e com estes resultados discretos, porém benéficos, cintas abdominais foram dadas aos pacientes para uso diário.
Um outro fato a ser considerado é a possível dependência de outras pessoas para a colocação das cintas, mas esta dificuldade também é encontrada no ato de se vestir, e elas podem ser colocados por outra pessoa da mesma forma como qualquer outra peça de vestuário. Alguns pacientes podem aprender a colocar a cinta por si só mesmos.
Relatos de desconforto, efeitos concomitantes, ou efeitos colaterais não foram observados nesta pesquisa, o que está de acordo com outros trabalhos, mostrando que o uso da cinta abdominal é seguro, bem como simples e barato.
Nesta pesquisa, foi demonstrado que as cintas abdominais possuem um efeito positivo sobre a função pulmonar de pacientes tetraplégicos. Elas geraram uma melhoria da capacidade vital forçada, da pressão expiratória máxima na posição sentada, o que sugere que pacientes tetraplégicos poderão beneficiar-se de seu uso, especialmente quando estiverem sentado. Estas cintas também devem ser consideradas em episódios de infecção ou desconforto e quando os pacientes tiverem dificuldade em tossir.
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