Vou considerar o testemunho acima transcrito como um grito de ajuda de alguém que se encontra privado de tudo o que é essência da vida.
Este ser humano, impossibilitado de se suicidar, faz uma súplica para alguém o ajudar, pede um suicídio assistido, alguém que se voluntarie a colocar-lhe uma substância mortal num copo que ele próprio possa ingerir por vontade própria através de uma palha. Sendo cidadão brasileiro e residente no Brasil, tal acto é punível por lei para quem lhe preste esse auxílio, mesmo que revestido de piedade e respeito pela autonomia do doente…
As questões de ideologia religiosa vou abstrair-me delas.
Não existem dúvidas, pelo que expõe que se encontra num sofrimento insuportável… dores físicas 24 horas por dia, mas antes existe um “por isso”… a ausência de amor, ausência de afectividade, ausência de um pequeno mundo seu, ausência de momentos de felicidade…, o que torna tudo impossível… insustentável a esta pessoa. A imagem da mãe cuidadora por “obrigação” e a de “um peso” para outros é questão central no seu testemunho no meu entender.
É certo que todo o Homem pode e deve, em qualquer circunstância, considerar a vida bela e preciosa para deixar de ser vivida, ninguém deve colocar em causa a capacidade do ser humano em viver com dor e contrariedades quando para este a sua vida é também um percurso de nobreza e grandiosidade. Mas acontece, porém, que há gente que sofre de abandono, que vivem sozinhos na sua dor física acrescida da dor psicológica e enorme que é a solidão…
Existe pelo que vejo todos os dias, a um palmo do meu nariz…em todos os meios… uma noção de vida na sociedade actual, que é tristemente vazia, rasteira e pobre, que consiste em olhar para a vida apenas no seu valor utilitário, baseada no egoísmo, em critérios economicistas… a vida não é útil se não for produtiva, e não têm razão de ser se não proporcionar todos os prazeres… E esta mentalidade não é dos que estão em estados de dependência humana como no testemunho desta pessoa, são do cidadão comum, saudável que na ignorância da sua natureza efémera tende a construir regras livres de valores essenciais!
A questão central da eutanásia para mim não está em se cada pessoa pode, ou não, ter a liberdade de escolher o seu destino (para mim a liberdade é um valor irrenunciável), e também não se centra em esta pedir auxílio, em consciência, a outro ajuda para esse fim… é ao invés a falta de humanidade, a falta de respostas da sociedade perante a maior parte dos casos de quem vê a morte como solução, onde a ausência politicas sociais e de organização da sociedade civil, de quem dê o devido acompanhamento e apoio aos indíviduos na gestão das suas graves carências e debilidades físicas e emocionais!
Aqui voltamos ao critério de utilidade da vida humana infelizmente… parece que não vale a pena investimento… É tão fácil assim… porque difícil, trabalhoso e muito empenho se reveste todo o apoio e carinho que estes necessitam para levar a vida com dignidade e até onde é possível resistir! A dor é também, muitas vezes, uma falsa questão. A medicina sabe tirar a dor, e o resto… aguenta-se, resiste-se o mais possível. O pior é a solidão e o abandono. Isso é que é difícil de suportar…
Abraço!