Lesão medular e os benefícios da atividade física
Elaine Real, advogada e colunista do GuiaEste relato não tem nenhum cunho científico, apenas um depoimento de quem na prática conhece os benefícios que proporciona uma atividade física. Quando sofri o acidente em Setembro de 93, tendo como diagnóstico uma lesão medular, não tinha consciência alguma sobre o que poderia ser e quais seriam seus reflexos em meu corpo.
A falta de movimento dos membros de nosso corpo interfere em tudo o que se possa imaginar, respiração, musculatura, articulações, bom funcionamento dos órgãos internos, circulação, pele..simplesmente tudo muda e como muda. Afinal, nosso corpo foi criado para executar seus movimentos e quando esta habilidade fica comprometida praticamente nosso organismo entra em uma confusão generalizada. Literalmente embarcamos em uma viagem totalmente desconhecida sem saber bem seu destino. Esse tipo de viagem não desperta em nós aquele sentimento de aventura que toda viagem nos proporciona, mas sim um medo imenso, desesperador por não ter mais a consciência corporal de antes e muito menos o que nos aguarda em momentos posteriores.
Quando passei por esta grande transformação, já vinha finalizando uma das mais belas fases de minha vida, que era de ser atleta (atletismo). E como regra geral todo atleta possui um corpo muito saudável e perto da beleza perfeita, se é que podemos dizer que existe uma beleza perfeita. Não sei. Mas acredito sim em um corpo sadio, que necessita de cuidados e, mais que tudo, acolhe nosso espírito e nos impulsiona a realização das atividades diárias que nossa existência requer.
E um dos reflexos da lesão medular é a atrofia das fibras musculares, encurtamento dos tendões e conseqüentemente a perda da massa muscular. Isso para uma atleta é um efeito devastador em sua vida. A mente de ninguém está preparada para situações como estas, seja atleta ou não. Não conseguia me imaginar com um corpo inerte aos movimentos e sem sua estrutura normal. Por pensar assim que eu nunca desisti de fazer meus exercícios diariamente. No início tive a ajuda de um profissional que me ajudou muito, orientando os exercícios que deveria realizar, mas chegou um momento que não agüentava mais freqüentar a clinica de fisioterapia. Foi quando eu comecei fazer meus exercícios em casa, com a ajuda da minha adorável irmã, aprimoramos alguns que já conhecíamos e outros foram criados por nós mesmo.
Confesso que acordar todos os dias cedinho e logo as oito da manha já estar em atividade física não é fácil, mas é um preço que pago com muito prazer. São duas horas diárias e por minha vontade eu faria mais e mais e muito mais. Mas, felizmente tenho outras atividades para realizar no meu cotidiano e hoje graças a Deus minha vida tem tomado rumos muito melhores do que eu poderia imaginar quando sofri a lesão. O tempo é mesmo a melhor de todas as soluções para nossos problemas.
Talvez para muitos uma atividade física não tenha tanta importância quanto tem para quem possui uma lesão medular. Simplesmente sentir seu corpo em movimento, mesmo que seja um pouco limitado, é um prazer inexplicável. Sentir a circulação, os músculos trabalhando, o peso de seu corpo, é muito prazeroso, sem falar todos os efeitos favoráveis que produz em nosso organismo. E como tudo na vida gira em torno da causa/efeito, os exercícios ajudam meu corpo a ser saudável e constituído de um funcionamento muito próximo do ideal. Hoje, não faço uso de qualquer medicação e isso se deve aos exercícios que faço.
É evidente que diante a lesão que possuo e mesmo fazendo os exercícios que faço meu corpo não possui a mesma estrutura de antes. Pode ser que até conseguiria, mas teria de me dedicar exclusivamente ao meu corpo, e todos nós sabemos que nossa vida não é só isso, temos trabalho, estudos, família, lazer..e outras atividades também. Hoje, não tenho mais o perfil de uma dançarina do É o Tcham, mas estou feliz com as proximidades de Gisele Bundchen..rs..rs.. Brincadeiras a parte, o que realmente importa é estar bem consigo mesmo, e isso eu busco sempre.
Permitam-me abrir um espaço neste artigo para dizer que, o atletismo foi a base fundamental para eu buscar um condicionamento físico e emocional, uma qualidade de vida melhor. Na verdade, hoje, eu vejo que os exercícios tratam apenas de uma extensão de minha fase de atleta e que me motiva tanto quanto antes em ser cada dia mais perseverante. Não posso mais correr como antes, mas isto não me faz uma pessoa triste. Muitas pessoas que conhecem minha historia, às vezes podem se perguntar como me sinto vendo minha irmã gêmea correndo e eu não, sendo que sempre estivemos juntas. Respondo com toda sinceridade. Sinto-me muito feliz e orgulhosa de vê-la correndo, e participando de corridas e eu indo junto, lógico…rs..rs. Continuamos unidas, porém agora estou nos bastidores e ela continua atuando no palco, mas a parceria, o amor, alegria, a motivação, determinação, isso não mudou e nunca vai mudar. Deus é maravilhoso e todos os dias, nos dá sabedoria para aprendermos com a vida.
Por:Elãine Real.
Fonte: Guia do Deficiente