Cerca de duas dezenas de pessoas portadoras de deficiência mental marcham no domingo, pelas ruas de Cascais, no distrito de Lisboa, para ajudar a combater preconceitos e demonstrar que as marchas populares são para todos.
O tempo está nublado e a chuva ameaça, mas nem isso demove a vontade de um grupo de utentes e de colaboradores das "Casas de Alapraia", no concelho de Cascais, de ensaiar os últimos passos antes da atuação final, no domingo.
Estes utentes, que pertencem à Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental (APPACDM) de Lisboa, participam pelo terceiro ano consecutivo nas Marchas Populares de Cascais, com uma marcha inclusiva.
Os preparativos para a participação deste ano, subordinado ao tema do ambiente e das alterações climáticas, começaram no início do mês de abril, com a escolha da letra, do tema musical, dos adereços, que incluem três arcos com desenhos alusivos a animais marítimos e ao lixo que polui os oceanos, com as idas à costureira e com os ensaios.
São, aliás, os ensaios os momentos que têm sido vividos com maior entusiasmo pelos marchantes, que procuram acompanhar todos os movimentos exemplificados pelo coreógrafo Telmo Santos e pela cantora e intérprete Paula Teixeira, madrinha desta marcha, pelo segundo ano consecutivo.
"São pessoas genuínas e maravilhosas, não há aquelas vaidades. Nós estamos todos para nos divertir e é bom sentir aquele amor verdadeiro. Ninguém consegue ficar indiferente à energia deles", conta, sorridente, à agência Lusa Paula Teixeira.
O entusiasmo e alegria é partilhado por Telmo Santos, que confessa à Lusa ter sido surpreendido pela força de vontade dos marchantes.
"Ao início montei uma coisinha mais complexa, mas, pouco a pouco, senti que tinha necessidade de simplificar e ir ao encontro das limitações deles. Mas, ao mesmo tempo, eles iam mostrando, dia após dia, ensaio após ensaio, que se superavam a eles mesmos", conta, orgulhoso.
O gosto pela música é também destacado pela diretora técnica das "Casas de Alapraia", que tem acompanhado de perto todos os preparativos para o desfile.
"A integração com eles é muito fácil sempre que haja música e som esta população é muito aberta. Participam com o maior entusiasmo. E, de ano para ano, temos notado uma evolução", aponta a responsável.
Catarina Simões admite que a participação este ano chegou a estar comprometida, mas que a vontade dos utentes "foi mais forte".
"É um trabalho que tem um planeamento a longo prazo e este ano o processo estava a atrasar. Por isso, inicialmente, achei que a participação iria sobrecarregar os colaboradores. Ora, tive um vídeo de resposta de manifestação dos utentes a dizer que queriam participar e foi isso que me fez mudar de ideias", confidencia.
Relativamente ao tema escolhido para a marcha, a responsável explicou que "é uma chamada de atenção para que todos tenham um olhar atento às alterações ambientais e possam cuidar do que é de todos".
Já sobre a importância da participação de cidadãos portadores de deficiência mental numa marcha popular, Catarina Simões sublinha que o principal objetivo é "reforçar a construção de uma sociedade cada vez mais inclusiva e igualitária e combater os preconceitos.
As marchas de Cascais saem à rua no domingo, a partir das 20:00, numa festa que termina com uma apresentação pública no mercado da vila.
Este ano participam 14 entidades, 262 pares, 524 marchantes, 112 músicos e 70 ajudantes.
Lusa**