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“Ainda persistem leituras excessivamente infantilizadas do autismo” - Pedro Rodrigues, psicólogo clínico e da saúde

SAPO
J.M.A
02 Abril 2026 08:33



Ainda persistem leituras excessivamente infantilizadas do autismo - Pedro Rodrigues, psicólogo clínico e da saúdeCréditos:Divulgação

Importa olhar para uma realidade ainda pouco visível: a experiência do autismo na idade adulta. Em entrevista, Pedro Rodrigues, psicólogo com especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde, defende a necessidade de ultrapassar leituras simplificadoras e sublinha que o reconhecimento desta condição ao longo da vida exige respostas mais ajustadas, tanto na clínica como na sociedade. Hoje, 2 de abril, assinala-se o Dia Mundial da Consciencialização do Autismo.

O seu trabalho tem-se centrado na experiência do autismo na idade adulta, uma realidade que terá permanecido pouco visível durante muito tempo.
O que é que ainda estamos a compreender mal quando falamos de autismo em adultos?


Ainda persistem leituras excessivamente infantilizadas do autismo, ignorando a diversidade de trajetórias na vida adulta. Confunde-se, frequentemente, adaptação com ausência de dificuldades, desvalorizando o esforço de camuflagem. Há também uma tendência para patologizar diferenças sensoriais e comunicacionais sem compreender o seu significado funcional. Além disso, continua a existir uma visão homogénea do espectro, que não integra adequadamente género, cultura e contexto. O erro central talvez seja não reconhecer o autismo como uma forma legítima de experiência humana, e não apenas como um défice a corrigir.

Temos assistido a um aumento significativo no número de diagnósticos. Este crescimento reflete sobretudo maior capacidade de identificação ou uma mudança mais profunda na forma como entendemos o autismo?

O aumento de diagnósticos reflete, em grande medida, uma maior literacia clínica e social, com instrumentos mais sensíveis e profissionais mais atentos. No entanto, não se trata apenas de identificar melhor o que sempre existiu. Há também uma mudança paradigmática, com a emergência do modelo da neurodiversidade a desafiar leituras estritamente biomédicas. Este duplo movimento permite reconhecer perfis antes invisíveis, sobretudo em mulheres e pessoas com estratégias de compensação elevadas. Assim, estamos, simultaneamente, a ver mais e a ver de forma diferente.

"Continua a existir uma visão homogénea do espectro, que não integra adequadamente género, cultura e contexto.

Muitas pessoas chegam ao diagnóstico apenas na idade adulta, depois de anos a interpretar os seus traços de outra forma. O que representa esse momento de reconhecimento na vida de uma pessoa autista?

O diagnóstico em idade adulta é frequentemente vivido como um momento de reorganização identitária. Para muitas pessoas, traz alívio, validação e uma narrativa coerente para experiências passadas. Ao mesmo tempo, pode emergir um luto pelas dificuldades não compreendidas ou pelos apoios não recebidos. Este reconhecimento abre espaço para uma relação mais autêntica consigo próprio e com os outros. Clinicamente, é um ponto de viragem que pode facilitar intervenções mais ajustadas e respeitadoras da singularidade.

Prepara-se para lançar um livro que sublinha a importância de envolver as pessoas autistas nas decisões sobre a sua avaliação e intervenção. O que muda quando esse princípio é efetivamente aplicado na prática clínica?

Quando as pessoas autistas participam ativamente nas decisões, a prática clínica torna-se mais ética, precisa e eficaz. Deixa de ser um processo centrado no especialista para se tornar uma construção colaborativa. Isto implica adaptar linguagem, objetivos e métodos às preferências e necessidades da pessoa. No livro Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas, a publicar pela PACTOR Editora, defendo que esta participação não é opcional, é estrutural para uma intervenção de qualidade. O resultado é uma maior adesão, sentido de agência e relevância terapêutica.

"Quando as pessoas autistas participam ativamente nas decisões, a prática clínica torna-se mais ética, precisa e eficaz.

Refere-se frequentemente à necessidade de escutar as experiências neurodivergentes. O que significa, na prática, essa escuta e de que forma pode transformar a relação terapêutica?

Escutar experiências neurodivergentes implica ir além da interpretação normativa do comportamento. Significa validar perceções sensoriais, estilos comunicacionais e formas de atribuir significado ao mundo. Na prática, exige tempo, curiosidade genuína e suspensão de pressupostos clínicos rígidos. Esta escuta transforma a relação terapêutica, deslocando-a de um modelo corretivo para um modelo de compreensão mútua. A aliança terapêutica fortalece-se porque a pessoa se sente reconhecida e não apenas avaliada.

A integração profissional continua a ser um desafio relevante. Que condições são necessárias para que o mercado de trabalho se torne mais inclusivo e não apenas mais adaptativo?

Um mercado de trabalho inclusivo exige mais do que adaptações pontuais, requer transformação estrutural. É necessário flexibilizar processos de recrutamento, valorizar competências diversas e repensar ambientes sensoriais. A formação de equipas e líderes é crucial para reduzir preconceitos implícitos. Importa também criar espaços onde a comunicação direta e clara seja a norma e não a exceção. Inclusão verdadeira significa permitir diferentes formas de desempenho e participação, não apenas tolerá-las.

"Um mercado de trabalho inclusivo exige mais do que adaptações pontuais, requer transformação estrutural.

Quando se fala de saúde mental, raramente se aborda de forma aprofundada a forma como o trauma, a ansiedade ou o luto são vividos por pessoas autistas. O que sabemos hoje sobre essas experiências?

Sabemos hoje que pessoas autistas podem experienciar níveis elevados de stresse crónico, muitas vezes associados à camuflagem e à incompreensão social. O trauma pode assumir formas cumulativas e subtis, nem sempre reconhecidas pelos modelos tradicionais. Ansiedade e luto tendem a manifestar-se com particularidades na expressão emocional e corporal. Há também uma maior vulnerabilidade a experiências de exclusão e invalidação. A investigação recente aponta para a necessidade de abordagens terapêuticas sensíveis ao perfil sensorial e comunicacional.

O Sistema Nacional de Saúde está preparado para responder às necessidades específicas de adultos autistas, nomeadamente ao nível do diagnóstico e do acompanhamento?

O Sistema Nacional de Saúde tem vindo a evoluir, mas ainda apresenta lacunas significativas na resposta a adultos autistas. O diagnóstico em idade adulta continua pouco acessível e desigual geograficamente. Falta formação especializada e modelos de intervenção adaptados a esta população. Muitas respostas ainda estão ancoradas em paradigmas pediátricos. É necessário investir em equipas multidisciplinares e em continuidade de cuidados ao longo da vida.

"Sabemos hoje que pessoas autistas podem experienciar níveis elevados de stresse crónico, muitas vezes associados à camuflagem e à incompreensão social.

Num contexto em que a consciencialização para o autismo vem a ganhar visibilidade, que diferenças reais essa maior atenção pública tem produzido na vida das pessoas autistas?

A maior visibilidade tem contribuído para reduzir algum estigma e aumentar o reconhecimento social do autismo. No entanto, essa visibilidade nem sempre se traduz em mudanças concretas nas condições de vida. Persistem barreiras no acesso a serviços, emprego e apoio adequado. Por outro lado, a exposição mediática pode simplificar excessivamente a diversidade do espectro. Ainda assim, abriu-se espaço para que mais pessoas se reconheçam e procurem apoio.

Se tivesse de apontar uma mudança essencial, capaz de transformar de forma concreta a forma como a sociedade olha e responde ao autismo, qual seria?

A mudança essencial seria passar de uma lógica de normalização para uma lógica de adaptação mútua entre pessoa e contexto. Isto implica reconhecer o valor da diferença e reorganizar sistemas sociais em função dessa diversidade. No livro Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas, proponho que esta mudança comece na prática clínica, mas se estenda à educação, trabalho e políticas públicas. Não se trata de integrar pessoas autistas num mundo inalterado, mas de transformar esse mundo para que seja habitável por todos.


Pedro Rodrigues,
Psicólogo com especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde e autor do livro Intervenção Psicológica em Pessoas Adultas com Autismo (PACTOR Editora)






Fonte: sapo.pt                      Link: https://sapo.pt/artigo/ainda-persistem-leituras-excessivamente-infantilizadas-do-autismo-pedro-rodrigues-psicologo-clinico-e-da-saude-69ce1b3fb234134819d8d2d0
"A justiça é o freio da humanidade."
 
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