Jogo de tênis coloca em xeque ideias sobre a cegueira
Watertown, Massachusetts – Dan Guilbeault tinha 3 anos quando os médicos descobriram que havia um tumor chamado glioma óptico comprimindo os seus nervos ópticos. Ele continuou a praticar os esportes dos quais gostava – beisebol, basquete e futebol – até perder quase toda a visão, aos 11 anos.
Agora, ele está com 19 anos e quase completamente cego. O seu esporte favorito é o tênis.
Quando ouviu pela primeira vez a respeito do tênis para deficientes visuais, sua reação foi incrédula. "É impossível!", pensou.
Os membros do corpo docente da Escola Perkins para Cegos, daqui de Watertown, também ficaram incrédulos quando uma aluna sem deficiência visual de Newton, cidade próxima daqui, propôs o esporte, há quase dois anos. Mas a Perkins, conhecida por inovações esportivas como a esgrima adaptada, decidiu oferecer o que se acredita serem as primeiras aulas de tênis para cegos dos Estados Unidos.
Como o tênis praticado pelas pessoas que enxergam, o jogo requer habilidades de cobertura rápida de quadra e tacadas precisas. Os jogadores cegos contam com os ouvidos para acompanhar o movimento de uma bola de espuma preenchida com rolamentos de esferas que chocalham quando ela quica ou é atingida.
"Os ouvidos se transformaram nos olhos deles", disse o Dr. Robert Gotlin, diretor de ortopedia e reabilitação desportiva do Centro Médico Beth Israel, em Nova York.
Sejal Vallabh, de 17 anos, que cursa o segundo ano do ensino médio em Newton, descobriu o esporte durante um estágio de verão em Tóquio e, em seguida, propôs o programa na Perkins. Ela criou uma organização voluntária, a Tennis Serves, que introduziu o esporte no ano passado na organização Lighthouse International, em Nova York, e na Escola para Cegos da Califórnia, em Fremont.
À medida que o tênis para cegos cresce nos Estados Unidos, onde o Censo estima que 1,8 milhões de pessoas de mais de 15 anos têm "dificuldade grave de visão", ele vem colocando em xeque ideias populares sobre as limitações da cegueira.
"Eu quero mostrar que os atletas cegos podem jogar tênis", disse Vallabh. Ninguém acredita, disse ela, "até ver com os próprios olhos".
A adaptação mais importante é a bola, que é maior e feita de espuma, envolta em torno de um reservatório de plástico que contém os rolamentos de esferas.
"O barulho lembra o de um sino", disse Emmanuel Ford, de 10 anos, que tem paralisia cerebral e está aprendendo a dar tacadas na Lighthouse.
Outras adaptações incluem o uso de uma quadra pequena com uma rede de badminton colocada ao nível do chão, cordas adesivadas adequadamente e raquetes infantis com cabeças enormes. Para os jogadores que têm alguma capacidade de visão, as bolas podem quicar duas vezes; para os completamente cegos, podem quicar três. Joga-se apenas um set e um árbitro marca se as bolas caíram dentro ou fora.
A primeira bola de tênis sonora foi projetada em 1984 por Miyoshi Takei, que então cursava o ensino médio no Japão. Hoje, cerca de 300 jogadores competem em torneios no país; o tênis para cegos também é jogado na China, Coreia do Sul, Taiwan, Grã-Bretanha e Rússia.
Durante as partidas, Takei, campeão nacional 16 vezes, que trabalhava como massoterapeuta para idosos, dava principalmente tacadas planas, em ataques agressivos, mas arremessava a bola de modo defensivo, para recuperar a posição na quadra. Às vezes, ele pulava ou mergulhava para rebater. (Ele morreu no ano passado, aos 42 anos, após cair na frente de um trem.)
Sua viúva, Etsuko, que também é cega, disse que ele visualizava "a quadra em pensamento e sabia onde ele próprio estava e onde a bola estava voando e quicando".
Por meio da audição, contou ela, "ele conseguia controlar a bola muito bem".
Especialista em orientação e mobilidade para cegos, William R. Wiener, diretor de estudos de pós-graduação da Universidade da Carolina do Norte, em Greensboro, disse que a localização do som "é extremamente importante para a locomoção das pessoas cegas no mundo", e acrescentou: "Ouvir e identificar a posição da bola, movimentando-se em direção a ela, provavelmente ajuda o praticante com o esporte e também com a mobilidade".
O tênis para cegos é possível, dizem os cientistas, pela adaptabilidade do cérebro humano – que parece redirecionar a sua área visual, o córtex occipital, para processar os sons e toques em resposta à cegueira.
Uma série de estudos revelou como funciona a atividade no córtex visual de participantes cegos durante leituras feitas pelo sistema Braille. Na pesquisa, uma mulher cega não conseguiu mais compreender os pontos em alto relevo depois de sofrer um acidente vascular cerebral na região occipital. Em outro estudo, sobre indivíduos sem deficiência visual que foram vendados, o córtex occipital começou a processar informações auditivas e táteis dentro de cinco dias.
"O funcionamento disso não é um mistério", disse Melvyn A. Goodale, diretor do Instituto do Cérebro e da Mente da Universidade de Western Ontario. "Nós sabemos que é possível localizar sons, e é provável que os cegos façam isso melhor do que as pessoas que enxergam."
Goodale e os seus colegas estão estudando como o processamento do eco funciona no córtex occipital de cegos que são especialistas em ecolocalização, como Daniel Kish, que perdeu a visão por conta de um retinoblastoma quando bebê. Os ecolocalizadores humanos usam cliques palatais ou batem palmas para "ver" os objetos que estão ao seu redor, assim como funciona com o sonar dos morcegos; apenas os morcegos, porém, usam frequências ultrassônicas que podem localizar insetos voadores. Essa habilidade permite que Kish caminhe pela beira de penhascos e ande de mountain bike.
Embora os humanos não tenham poder de resolução auditiva suficiente para ecolocalizar uma bola de tênis em movimento, o tênis para cegos "promove a liberdade de movimento", disse Kish, presidente da World Access for the Blind, um grupo sem fins lucrativos que vem ensinando a ecolocalização e outras habilidades de mobilidade para centenas de pessoas ao redor do mundo.
"No começo, a maioria das crianças cegas não entende a interação com projéteis voadores", contou ele.
Kiran Prasad, de 20 anos, que cursa o terceiro ano da graduação na Universidade Columbia e trabalha como coordenadora da Tennis Serves na Lighthouse, disse: "Essas crianças vivem em um mundo construído para as pessoas que enxergam. Só espero que o tênis dê a elas confiança para sentirem que podem fazer qualquer coisa".
Vallabh, a jovem fundadora da Tennis Serves, espera um dia sediar um torneio nacional e fazer com que o tênis para cegos seja reconhecido como esporte oficial na Paraolimpíada.
Porém, o esporte primeiro tem que pegar, e são necessários alguns anos até que os jogadores totalmente cegos se tornem proficientes o suficiente para jogar uma partida, disse Ayako Matsui, ex-secretária-geral da Federação Japonesa de Tênis para Cegos. Além disso, o esporte ainda é recebido com ceticismo. A Escola Estadual para Cegos de Washington rejeitou a iniciativa de Vallabh, contou Jennifer Butcher, instrutora de condicionamento físico da instituição.
"Porém, se um aluno demonstrar interesse em aprender tênis, poderíamos tentar no futuro", disse ela.
Enquanto isso, Vallabh está trabalhando para melhorar o esporte por meio de uma parceria com uma turma de engenharia da Faculdade Harvey Mudd, a fim de projetar uma bola que emita um som contínuo, de modo que os jogadores possam ouvi-la durante a sua trajetória, antes de ela quicar.
Na Perkins, há uma bola de tênis sonora na mesa do diretor da escola, Steven M. Rothstein, como símbolo de possibilidades.
"Às vezes, não sabemos como algo funciona antes de experimentarmos", disse Matt LaCortiglia, coordenador de educação física adaptada na Perkins. "Agora estamos praticando bem mais tênis".
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