As características inerentes a quadros de multideficiência limitaram, durante décadas, as visões sobre a educação desta população. As ofertas da escola não se adequavam às necessidades educativas de alunos com multideficiência e as alternativas educativas que adequam os processos educativos às necessidades destes alunos são desconhecidas da maior parte dos
professores de ensino regular que não têm, na sua formação de base, informação suficiente sobre esta problemática.
Por outro lado, a noção de que indivíduos com deficiências severas, nomeadamente com limitações
cognitivas, podem ser educados tem vindo a ser desenvolvida mercê do desenvolvimento de abordagens funcionais que procuram adaptar a pessoa com deficiência ao mundo que a rodeia através do desenvolvimento de capacidades funcionais que facilitem a sua interacção com pessoas e ambientes e que desta forma garantam a qualidade de vida.
No caso dos alunos com multideficiência grave esses conceitos começam agora a ser equacionados.
Se, por um lado, a deficiência mental moderada e severa já tem hoje em dia respostas educativas encorajantes,o mesmo não sucede com a deficiência mental profunda, em particular quando associadas a outras deficiências. Estes alunos foram frequentemente considerados
como não educáveis, daí resultando que, na maior parte das vezes, ou ficavam em casa ou eram
integrados em instituições para deficientes profundos onde os objectivos de intervenção educativa não se enquadravam nas suas necessidades.
As políticas de inclusão que têm vindo a desenvolver-se obrigaram a reequacionar esta situação.
Se a escola é para todos e se todos os alunos têm direito a frequentar a escola, os alunos com multideficiência têm que ser incluídos neste grupo e a escola tem que desenvolver processos de resposta adequada.
A Declaração de Salamanca assinala a importância de se dar atenção especial às necessidades específicas destes alunos já que “têm os mesmos direitos que todos os outros da sua comunidade... e deverão ser educados no sentido de desenvolver as suas potencialidades...”.
Uma breve análise das características destes alunos levanta, no entanto, questões a que a escola teráque responder:
O que aprendem estes alunos na escola?
Que critérios de sucesso para a sua aprendizagem?
Que necessidades educativas têm?
Como responder de forma positiva a essas necessidades?
Para assegurar uma educação de qualidade a estes alunos e independentemente das suas capacidades, dificuldades e limitações, é importante ter em consideração alguns pressupostos e princípios básicos:
1. A intervenção necessita de se orientar para a participação e actividade, isto é, orientar-se por modelos centrados na actividade e não apenas no desenvolvimento.
As suas acções devem ser consideradas numa perspectiva de alargamento do seu envolvimento em ambientes significativos, proporcionando-lhes experiências diversificadas ao longo da vida que os ajudem a:
a) serem amados e aceites pela família e comunidade;
b) sentirem segurança e serem respeitados;
c) terem pessoas significativas com quem interagir;
d) serem o mais autónomos e independentes possível e,
e) aprender.
2. A abordagem educativa tem que ser individualizada, respondendo às necessidades da família e do aluno e organizando-se de forma a dar respostas à situação presente e ao futuro.
3. A frequência de ambientes de aprendizagem organizados e estruturados deve constituir-se como a base de toda a intervenção, proporcionando oportunidades que:
a) possibilitem a interacção com pessoasrelevantes (pares e adultos), através de meios
de comunicação adaptados às suas capacidades;
b)facilitem, apoiem e encorajem a participação de acordocom as suas capacidades e ritmos;
c) desafiem o aluno a aprender, utilizando equipamentos e materiais adequados às suas necessidades e adequando as actividades à sua idade cronológica e,
d) aumentem a independência e a capacidade de decisão no futuro.
É essencial também que se desenvolvam procedimentos e critérios de avaliação adequados às aprendizagens identificadas nos programas educativos individuais, para que se possam estabelecer conclusões sobre o sucesso educativo dos alunos. Estes critérios de avaliação necessitam de ser definidos de acordo com o objectivo final da educação e permitir analisar o progresso dos alunos, garantindo assim que a educação cumpre o seu papel de os preparar
para o futuro.
in revista diversidades