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Autor Tópico: Cegueira e bullying:o professor se percebe como autor?  (Lida 820 vezes)

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Offline Sininho

 

Em casa, no que chamamos socialização primária, os pais nos repassam valores que mais tarde comporão nossa lógica de mundo. Na escola, que faz parte de nossa socialização secundária, eles são legitimados ou refutados de acordo com o meio em que estamos imersos.

Sabemos que a escola não escapa à propagação e afirmação de modelos. É nesse ambiente, no contato com os outros, que as noções de diferença vão se formando em cada criança. [...]

Eis a narrativa do fato: Quando nossa equipe entrou na escola, encontrou imediatamente um aluno deficiente visual total — aluno este que era o motivo para estarmos lá — sentado em uma espécie de mureta, sozinho, enquanto que no pátio da escola, próximo dali, acontecia um show de capoeira com participação dos demais alunos. Todos estavam bastante entusiasmados com a apresentação, assim como os estudantes que desejavam entrar na roda para ensaiar alguns movimentos, orientados pelo mestre de capoeira.

Recebidas que fomos pela pedagoga e coordenadora da escola, entramos na sala para conversar sobre o aluno. Meu primeiro movimento foi questionar o motivo pelo qual ele não participava, assim como os demais, da roda de capoeira. Para meu total espanto, a justificativa era a cegueira do educando e a crença de que um aluno cego é alheio a alguns acontecimentos externos, ou mesmo que, em se tratando de atividades físicas ou jogo corporal, ele não está apto a participar. Obviamente a participação dele se dará de maneira diferente da dos demais, porém não será pior ou mesmo impossível.

A escola, então, acreditava que ele não poderia participar, já que a capoeira exigia uma certa destreza corporal maior e mais dinamismo na locomoção. Ainda assim, perguntei se, por acaso, outro aluno ou mesmo o professor de Educação Física não poderiam ser facilitadores para o aluno no sentido de inseri-lo no grupo que assistia e até mesmo na roda, mediante a descrição espacial e a “montagem” corporal do movimento, sem contar com o efeito elucidativo e inclusivo que a linguagem poderia ter neste momento, descrevendo o ambiente e orientando o aluno espacialmente. Novamente, a resposta foi negativa. Pior ainda: tratava-se de uma prática comum nos momentos em que os alunos mantinham atividades fora de sala de aula.

Não foi difícil perceber que a cegueira havia transformado este aluno, do ponto de vista da escola, em alguém inapto e que o preço seria o distanciamento das brincadeiras de criança e da inserção na escola e na vida social.

Essa atitude denota justamente o tipo de movimento pelo qual as pessoas que trabalham em prol da inclusão vêm lutando: inclusão escolar também é inclusão social.

É interessante notar também que colocar o aluno cego à parte constitui uma forma de bullying, termo em expansão hoje em dia, porém atribuído somente às relações discentes.

Podemos imaginar que o bullying só pode ser caracterizado como tal se houver intencionalidade, relações entre crianças e jovens e dano físico à vítima. Porém, esse tipo de assédio guarda uma característica muito mais devastadora, que são os prejuízos psicológicos no desenvolvimento da autoimagem da vítima.

Dentre as características do bullying, estão depreciar a vítima sem qualquer motivo e/ou provocar seu isolamento social. Mas e quando o bullying é praticado (mesmo que sem total consciência) por atitudes advindas da equipe que forma o corpo escolar?

Vamos fazer um esforço de abstração e tentar imaginar como um aluno (a exemplo daquele que citei) que vem sendo excluído de algumas atividades dentro da escola em razão de sua cegueira, vai construir seu entendimento sobre o que seja ser cego? Uma vez percebendo a cegueira como elemento de diferença negativa, como será construída a autoimagem do indivíduo? E mais: o que ensinamos aos demais alunos a partir da história que narrei?

Prezados, o processo de inclusão é mais do que a admissão de um aluno especial em sala de aula. O processo de inclusão está no entendimento de que a cegueira não é fator limitante e de que o cego é um indivíduo de potencialidades. Que nos fique como alerta: a recusa e/ou dificuldade em buscar as potencialidades de alguém pode indicar, muitas vezes, que devemos problematizar o processo de entendimento.

Fonte: blog Cegueira
Queira o bem, plante o bem e o resto vem...
 

 



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