Fátima Lopes in "Noesis"
Podem não aprender tudo o que desejaríamos, nem ao ritmo que consideramos ideal, mas é certo que o seu processo de desenvolvimento e aprendizagem não pára.
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Quase todos podem aprender a ler! Perguntar-me-ão: E porque não todos?
Não podemos esquecer que existe um grande número de crianças ou indivíduos cujas limitações a nível intelectual, motor, visual e/ou outras são de tal gravidade que lhes torna impossível o acesso ou domínio da Linguagem Escrita.
Falamos de crianças com Necessidades Educativas Especiais (NEE) e gostaríamos de partilhar a nossa experiência e entusiasmo por este processo de Aprendizagem da Linguagem Escrita.
Acreditamos que quase todos podem aprender a ler e até a escrever, embora muitos considerem o "ler" e o "escrever" actividades demasiado complexas para estas crianças. Não será também complexa a actividade de andar, falar, desenhar e tantas outras? No entanto, já Freinet (1977) nos refere que "Aprender a ler e a escrever processar-se-á tão simplesmente como aprender a andar, a falar, a desenhar, a ouvir, a exprimir-se e a criar... Aprender a viver". Também Kenett Goodman, in "Nuevas Perspectivas sobre Los Procesos de Lectura y Escritura", de Ferreiro et al, nos diz que "não é mais difícil aprender a ler e a escrever do que aprender a linguagem oral".
Assim sendo, teremos de nos questionar porque é que muitas das nossas crianças que andam, correm, saltam e falam ainda não aprenderam a ler e a escrever.
Afinal, como é que elas podem aprender a Linguagem Escrita "tão simplesmente"?
Não sei se é assim tão simples ou fácil para alguns professores/educadores, mas sabemos que estas crianças com NEE podem sempre aprender mais e mais como qualquer um de nós. Podem não aprender tudo o que desejaríamos, nem ao ritmo que consideramos ideal, mas é certo que o seu processo de desenvolvimento e aprendizagem não pára.
Todas as crianças, mesmo as mais pequenas, querem e podem aprender a ler e escrever. Todas as crianças querem escrever (ainda que sejam garatujas) à mãe, à professora, ao Pai Natal, ao seu ursinho. Qualquer uma quer saber o que se "lê" na história; elas até pedem "anda, lê ... mais depressa... e depois?...". E o que dizer do interesse que mostram pelo seu nome, pelo nome dos amigos, familiares e outros entes queridos, como o seu cão ou a sua cantora preferida.
•Sistematizar os conhecimentos e descobertas feitas, para permitir à criança a aquisição e generalização de conhecimentos básicos, até poder fazer uma aprendizagem mais formal. Muitas vezes, os Professores/Educadores desistem de animar este processo, dizendo: "Ah! Já experimentei e não resultou, ela não aprendeu.. . ela troca tudo... ela ora sabe, ora não sabe." Toda esta dinâmica de aprendizagem da linguagem escrita se insere numa perspectiva que envolve também o conceito de Alfabetização Emergente (Sulzby,1987). Este conceito apaga a ideia de que "as crianças ainda não estão prontas" (maduras) para fazer estas aprendizagens. Caroline Musselwhite (1992), na apresentação do seu programa "Comunicação Alternativa Aumentativa", refere a linguagem escrita como uma "Linguagem Total" e sugere que ela é mais facilmente aprendida quando é total, funcional e significativa.
Também nós acreditamos não ser necessário esperar pela "maturidade" e, muito pelo contrário, devemos estimular todo este processo de aprendizagem, desde muito cedo, proporcionando o Desenvolvimento Cognitivo e da Consciência Metalinguística da criança ainda em idade pré-escolar. E se este pressuposto é válido para qualquer criança, ele torna-se ainda mais pertinente com as crianças com NEE, uma vez que elas demoram mais tempo a desenvolver o seu processo de aprendizagem e, por isso, é urgente começar mais cedo. Claro que não será através do tradicional ensino formal.
Gostava de apresentar a Mária como um exemplo de criança com NEE cujo êxito escolar e pessoal passou pelo êxito nas diversas etapas da aprendizagem da Linguagem Escrita.
A Mária é agora uma menina de 12 anos, tem síndroma de Down, problemas motores e visuais. Talvez por isso e também pela sua personalidade (era muito apática, muito temerosa), quando entrou para a escola havia poucas expectativas quanto à sua aprendizagem por parte dos pais e até de outros educadores que com ela trabalhavam.
Ao fim do 1° ano de frequência na escola, reconhecia cerca de 100 palavras familiares, nomeava as letras maiúsculas e minúsculas, já tentava descodificar palavras novas, escrevia os seus dois primeiros nomes (ainda que com algumas incorrecções), ordenava palavras e frases com modelo. Ela andava feliz, alegre e prazenteira e até já ensinava as palavras aos idosos no Centro de Dia, o que a promovia e levava a ser admirada por todos e em especial pelos colegas.
Nessa altura, não sabíamos até onde a sua capacidade de leitura e escrita a poderiam levar. Agora, ao fim de 5 anos de escolaridade, poderemos dizer que lê livros de histórias, textos dos manuais escolares, títulos nas revistas, recados e cartas. Responde por escrito a perguntas, escreve longas cartas nem sempre legíveis pelos outros, passa textos no computador. Dá gosto ouvi-Ia ler, ainda que cometa incorrecções. Lê, procurando o sentido do que lê, lê por prazer, lê para "investigar" seja a vida da Ágata ou os ingredientes de uma receita.
O acesso à linguagem escrita veio mudar a vida da Mária, permitindo-lhe uma vida escolar e social mais inclusiva.
Como é que a Mária fez estas aprendizagens?
Vários foram os factores que contribuíram para este sucesso, no entanto, gostaria de salientar uma forte motivação, centrada:
• no prazer e bem estar
• na interacção com os colegas
• no êxito de cada pequena tarefa
• na variedade de actividades propostas
• no prazer de manusear o material de leitura
• no seu envolvimento pessoal com os textos produzidos e dos quais partem, muitas vezes, as actividades de estruturação da linguagem escrita.
A Maria é um bom exemplo e é um caso gratificante para quem, de alguma forma, se empenha neste processo de aprendizagem.
Para todos aqueles que não podem ler e escrever, a Linguagem Escrita tem também uma enorme importância como forma de comunicação. Senão vejamos: Quando entramos numa sala de crianças ou jovens conhecidos como "profundos", portanto, com graves dificuldades de aprendizagem, e lemos no placard "Hoje o João está muito feliz porque tem uma camisola nova" ou "Amanhã, dia 8, vamos passear", nós partilhamos as notícias com essas crianças ou jovens que sabem o que lá está escrito e sentem prazer em comunicar.
Para concluir, gostaria ainda de abordar algumas questões que nos levantam quando apresentamos estas perspectivas de aprendizagem. Uma das questões é "Afinal a partir de que idade é que devemos ensinar as crianças a ler e escrever?", a outra "Isto são métodos para crianças deficientes?"
Poderemos responder que não há uma idade exacta para começar. Nunca é cedo demais: Quando uma mãe pega no seu bebé ao colo e lhe lê ou conta uma história, ela já está a desenvolver todo este processo. Nunca é tarde demais quando conhecemos o Sr. Francisco que, aos 80 anos, aprendeu a ler e a escrever a partir das letras do seu nome e dos títulos de 2 jornais, pelo mesmo processo que as crianças pequenas fazem as suas descobertas da Linguagem Escrita.
Quanto aos "métodos para deficientes", esclarecemos que não se trata de um método de ensino, mas, como diria Sulzby (1987), "de uma nova forma de olhar o processo de aprendizagem das crianças". Trata-se de um processo natural e as estratégias utilizadas são válidas para qualquer outra criança. No entanto, as crianças com NEE dificilmente farão uma aprendizagem significativa se não recorrermos a estas estratégias, enquanto as outras poderão aprender, apesar de tudo.
Resta-nos desejar que todos os Educadores (pais e professores) tentem compreender melhor o processo de Alfabetização das nossas crianças, porque a educação de uma é o trabalho de muitos e estará mais apto a ajudar quem melhor compreender o Processo de Aprendizagem.
(http://www.malhatlantica.pt/ecae-cm/images/Ler2.jpg)
Sugestões para aprender a ler com prazer:
* Organize um dossier com fotografias e gravuras, faça a legenda com marcadores grossos ou no computador com letras de tamanho grande e "bold".
* Proteja as figuras com capas-catálogo de plástico para melhor as manusear.
* Todos os dias vamos "ler" o "livro". E a lição é, por exemplo: "Quem é? " "Como se chama a mana?" "Onde está a palavra CARRO?" " Onde está o "Pê" de PAULO?"
* Organize uma colecção de cartões (12 x 8) com palavra na frente e imagem por trás.
* As palavras devem ser escritas em letra maiúscula de imprensa ou script (letra grande).
* Podemos começar a colecção pelos nomes dos mais familiares e amigos.
* Comece com 3 ou 4 nomes e vá introduzindo mais um de cada vez à medida do interesse e êxito da criança.
* Podemos jogar as cartas com os cartões e ver quem "adivinha" mais palavras.
* Quem precisar pode fazer "batota" e espreitar por trás do cartão.
* Quem quiser pode copiar as palavras à mão ou no computador.