Autor de «O homem que confundiu a mulher com um chapéu» conta a própria história no novo livro Vinte e cinco anos após a publicação do livro «O homem que confundiu a mulher com um chapéu», Oliver Sacks lança a 26 de Outubro «The Mind’s Eye». Um livro que volta às histórias de pessoas que em que a mente lhes pregou uma partida e tentam adaptar-se à realidade, como a grande parte de nós assim a entende.
Na obra de 1985, o físico e professor de neurologia e psiquiatria na Columbia University Medical Center era surpreendido pelas vidas de personagens com características excepcionais, a fazer lembrar personagens de ficção, como o Dr.P., o tal que confundiu a cabeça da mulher com o próprio chapéu, com dificuldades de percepção que cantarolava e usava a música para conseguir realizar as tarefas do quotidiano. Ou Ray, com tantos tiques que já não sabia viver sem eles e ainda a Sr.ª O’C que quase surda ouvia música dentro da própria cabeça.
Não são apenas retratos de ficção escritos por um autor que vive do outro lado do oceano. Quase todos conhecemos histórias de alguém que se perdeu na própria rua ou que só de quando a quando reconhece a família. O Alzheimer, caracterizado pela morte neuronal das células do hipocampo, onde estão armazenadas as memórias mais recentes, é uma das doenças neurológicas mais conhecida na sociedade portuguesa.
Mas há outros casos, Tiago Fleming Outeiro, investigador neurociências do Instituto de Medicina Molecular e subdirector de Ciência Hoje lembra a história de um senhor vítima de uma lesão cerebral que não conseguia armazenar as memórias mais recentes. Resultado: Durante a mesma conversa apresentava-se inúmeras vezes.
Na obra, a ser lançada no próximo mês, Oliver Sacks volta a destacar quem teve de se adaptar a viver sem as capacidades que consideramos indispensáveis, e pelas quais o mundo se rege, como poder de discursar, a capacidade de reconhecer rostos, o sentido tridimensional do espaço a capacidade de leitura ou a visão.
Desta vez, são outros nomes que vivem nas páginas de Sacks. Há Lilian, uma pianista que não consegue ler música nem reconhecer os objectos do dia-a-dia; Sue, uma neurobióloga que nunca viu a três dimensões. Entre as personagens move-se também Howard, um escritor que continua a sua carreira mesmo depois de sofrer um ataque que lhe destruiu a capacidade para ler.
Sacks torna-se personagemO mais surpreendente em «The Mind’s Eye», lançado em Portugal pela Relógio d’Água no início do próximo ano, é que Sacks salta do divã para ser ele próprio uma figura da obra, ao partilhar com os leitores a própria história sobre o cancro que sofreu no olho e os efeitos bizarros de perder a visão de um dos lados.
No mais recente livro, o autor de best-sellers, explora questões fundamentais: “Como vemos? Como pensamos? Quão importante é a nossa imaginação?”, escreve na sua página on-line.
Hoje em dia, sabe-se que diferentes zonas do cérebro controlam funções distintas. A imagiologia funcional, uma técnica usa a ressonância magnética e imagens para perceber os estímulos no cérebro, junta-se aos “estudos acumulados e às cirurgias para nos dar mais informação de como o cérebro funciona”, explica o investigador português, também subdirector do jornal.
Capa de «The Mind's Eye» Alguns estudos mostram ainda o modo como os tumores alteraram a personalidade ou a criatividade de quem por eles foi afectado. Noutra perspectiva, Tiago Fleming Outeiro afirma que “os músicos profissionais ou pessoas que ligadas à música desde muito cedo têm diferenças anatómicas no cérebro”, assunto este também tratado por Sacks em «Musicofilia».
O autor de «Despertares», livro adaptado ao cinema em 1990 e protagonizado por Robert De Niro e Robin Williams, adianta ainda que em «The Mind’s Eye» vamos ter novas perspectivas para imaginar o que é ver através dos olhos ou da mente de outra pessoa.
Tiago Fleming Outeiro recorda que o trabalho de Sacks é “importantíssimo para trazer a ciência para o mundo real, desmistificando os problemas” e acrescenta: “Precisamos de mais gente, nas diversas áreas, que torne os temas atractivos. É um serviço à sociedade”.
in cienciahoje