Cadeira de rodas não limita sonhos de jovem escritor 
Queria Brincar de Mudar Meu Destino. À primeira vista, o título deste que foi o primeiro livro do escritor Gilvã Mendes, 29, talvez não chame a merecida atenção. Mas, basta ler a primeira página da Introdução que a "ficha cai" direitinho. Este título traduz um sentimento verdadeiramente visceral.
Nas palavras de Gilvã, "desde criança, tudo conspirou contra mim". Explica-se: ele é um jovem negro e pobre, cuja paralisia cerebral o mantém em cadeira de rodas, com dificuldade de articular as palavras e mover os braços. À parte os lamentos contra o destino, o fato é que este baiano de cérebro em perfeito estado e que aprendeu a ler sozinho não se dá por vencido e prepara o segundo livro.
O Presente do Rei - O Plebeu e a Guerreira Lívia é o próximo. Desta vez não se trata, como na primeira obra, de um rico relato (e poemas) sobre as alegrias e tristezas deste morador do bairro do Nordeste de Amaralina, cuja vontade de escrever tornou-se proporcional aos crescentes desafios que encontrava pela frente.
Neste segundo livro, o autor deixa de lado o relato autobiográfico e mergulha na ficção. Aliás, ressalta que foi a ficção de Jorge Amado (de quem ele é fã incondicional) que povoou sua imaginação no aprendizado da escrita e da leitura, que teve uma ajudinha da mãe. Ela lia muito Jorge Amado para ele.
Tempero da Boa Terra - Gilvã define seu novo livro (que aguarda patrocínio para ser editado) como "uma aventura, um conto de fadas, sobre a estória de um rapaz pobre que, para conhecer a verdadeira felicidade, tem de viver aventuras recheadas de ódio, humilhação, paixões avassaladoras, conspirações tenebrosas e magia, muita magia! Tudo isso com um tempero bem baiano".
Além do apoio que busca para lançar seu segundo trabalho (o primeiro é de 2009, pela Editora Papirus), Gilvã espera conseguir retomar as atividades do projeto Os Desbravadores do Mundo da Leitura, de incentivo a jovens de oito a 12 anos.
O jovem autor só conseguiu entrar para a escola aos 12 anos de idade e concluir o segundo grau aos 25. Durante toda a sua vida escolar ouviu insinuações ou comentários explícitos de que sua presença na sala atrapalhava o desenvolvimento da turma. "Sempre passei direto, nunca entrei em recuperação", orgulha-se, lembrando que hoje cursa o primeiro ano da Faculdade de Letras da FTC.
"Este exemplo meu, de luta, eu quero passar para outras pessoas com dificuldade, e elas são muitas", destaca, completando: "Nesta nossa Bahia, que para muitos é apenas a 'terra do bumbum', sempre surgiu e surgirá mentes brilhantes, é só acreditar e lutar para isso".
Fonte:
http://atarde.uol.com.br/cultura/materias/1458873-cadeira-de-rodas-nao-limita-sonhos-de-jovem-escritor