Liftech

Rehapoint
Autopedico

Invacare
TotalMobility

Anuncie Aqui

Autor Tópico: A cidade sem raízes  (Lida 141 vezes)

0 Membros e 1 Visitante estão a ver este tópico.

Offline Anibal12

A cidade sem raízes
« em: 01/10/2025, 14:37 »
 
A cidade sem raízes
Marim caminhava pelas ruas da cidade, sentindo o ar particularmente denso. As cores vibravam nos edifícios, espalhando-se pelo pavimento como se um pintor tivesse usado cidade como tela. os tons de azul e ocre refletiam-se nas janelas e nas montras das lojas, criando uma ilusão de calor. Mas não havia calor algum   o frio que ele sentia não vinha do vento nem da estação. Era um frio que se entranhava nos ossos, que se espalhavam pelas ruas limpas silenciosas as fachadas estavam impecáveis, prédios erguiam-se com importância, mas neles nada crescia. A cidade tenha expulsado a natureza. Martim lembrava-se das pequenas árvores que nos seus tempos de infância, ladeavam a praça central. Havia um velo carvalho onde gostava de se sentar da escola a ler ou a observar o mundo. As folhas caiam no outono, formando tapetes dourados e os pássaros aninhavam-se nos ramos durante a primavera agora, no lugar do carvalho, havia apenas um quadrado de pedra cinzento parte de um espaço “modernizando”, onde tudo era pratico eficiente e sem raízes. O som do transito enchia o ar, uma sinfonia constante motores buzinas e travagens bruscas. O barulho parecia entrelaça-se com o eco ritmado dos passos  apressados dos transeuntes, um bater mecânico contra o pavimento. Era um ruído contínuo, impessoal, como se a cidade inteira se movesse numa coreografia ensaiada, sem espaço para hesitações. As pessoas enchiam as ruas, atravessavam passadeiras sem levantar os olhos do telemóvel, chocavam por vezes umas com as outras, sem trocar desculpas. Caminhavam lado a lado, mas não se viam realmente. Rostos voltados para o chão ou para os ecrãs que seguravam, gestos rápidos, olhares ausentes. Havia pressa em cada movimento, mas ninguém parecia saber verdadeiramente para onde ia. Nos escritórios envidraçados, homens e mulheres trabalhavam em frente dos ecrãs brilhantes, sombras recortadas contra a luz artificial. O vidro refletia a cidade lá fora, mas nenhum deles olhava. Digitavam, clicavam, falavam ao telemóvel sem emoção. De vez em quando, alguém levantava a cabeça, apenas para confirmar a hora ou beber um gole do café já morno. Depois, voltava ao que estava a fazer, como se o tempo fosse uma linha reta que não admitia desvios. Os rostos eram fechados, desenhados pela fadiga e pela rotina. Os gestos automáticos: carregar num botão do elevador, validar um bilhete no metro, passar um cartão numa entrada eletrónica. O toque humano resumia-se ao estritamente necessário. Não havia conversas casuais, nem sorrisos trocados sem motivo. Tudo tinha um propósito, uma funcionalidade. E, no entanto, no meio de tanta gente, Martim sentia-se rodeado de ausência. Passou por uma montra onde se mirou por um instante. O seu rosto pareceu-lhe indistinto, quase parte da paisagem. Perguntou-se se todos ali se sentiriam como ele. Se se davam conta do que haviam perdido. Seguiu em frente, sem pressa, desviando-se das pessoas que corriam para o metro. Atravessou um quarteirão de edifícios altos, cujas sombras engoliam a rua. Lembrou-se das histórias que o avô contava, falando-lhe de um tempo em que a cidade era diferente. Os jardins públicos eram espaços de encontro, as crianças brincavam nos pátios entre os prédios, e os vasos floridos vibravam nas varandas. Agora, os jardins eram áreas controladas, delimitadas por regras. As crianças brincavam em parques de borracha sintética, longe da terra verdadeira. E as varandas? Vazias, austeras, sem nada que as tornasse familiares. De súbito, ao virar uma esquina, parou. No alto de um prédio envelhecido, viu algo de inesperado: uma pequena varanda com um vaso de barro. Entre grades de ferro, uma planta teimava em crescer. As folhas eram frágeis, mas verdes, inclinadas na direção do pouco sol que conseguiam alcançar. Martim sorriu, mas foi um sorriso breve, que logo se perdeu no peso do pensamento que lhe veio à mente. Aquela planta seria um acaso ou um sinal de resistência? E, se crescia ali, quem a regava? Ficou um instante a olhar, procurando um sinal de vida naquela varanda. Uma cortina movia-se ao sabor do vento, mas ninguém apareceu. Talvez fosse apenas uma lembrança esquecida, um último gesto de alguém que já partira. Suspirou e retomou a caminhada. A cidade crescia, os prédios multiplicavam-se, as ruas alargavam-se, mas era como se, a cada mudança, algo se perdesse. As pessoas adaptavam-se, seguiam o ritmo do progresso sem questionar. Mas, e ele? Naquela noite, já em casa, Martim deteve-se por instantes junto à janela. A vista era semelhante à de qualquer outro prédio: fachadas alinhadas, luzes artificiais, reflexos frios nos vidros. Mas, num impulso que não conseguiu explicar, procurou um velho vaso esquecido na despensa e colocou-o no parapeito. Ainda não sabia bem porquê. Podia ser um gesto insignificante, uma tentativa de se agarrar a algo. Mas, por estranho que lhe parecesse, aquele gesto fazia sentido. Martim sorriu. No dia seguinte, compraria terra e algumas sementes. Talvez a cidade ainda guardasse raízes, escondidas em locais desconhecidos de muitos. Talvez, um dia, o verde encontrasse o caminho de volta… Talvez…     



Fonte: https://contadoresdestorias.wordpress.com/2025/04/21/a-cidade-sem-raizes/   
« Última modificação: 06/10/2025, 20:41 por Nandito »
anibal ribeiro
 

 



Anuncie Connosco Anuncie Connosco Anuncie Connosco Anuncie Connosco Anuncie Connosco


  •   Política de Privacidade   •   Regras   •   Fale Connosco   •  
     
Voltar ao topo