Trajetória de Daniela Caburro inspira livro da jornalista Hebe Rios
Biografia narra a história da artista plástica tetraplégica de São Carlos

A palavra superação está associada ao ato de obter vitória sobre algo, tornando a pessoa, neste caso, superior aos obstáculos. Em especial, nenhuma outra definição se encaixaria tão bem a ponto de descrever a vida da artista plástica sãocarlense Daniela Caburro.
Daniela nasceu em junho de 1971, filha de Maria de Lourdes Zambon Caburro e Florisvaldo Caburro (hoje, já falecido). Aos oito meses de vida, ficou tetraplégica, vítima da poliomielite. O episódio foi determinante em sua história e responsável por traçar um novo rumo na vida da pequena Daniela. Agora, esta trajetória está nas páginas do livro “Menina de Arte”, contada pela jornalista da EPTV, Hebe Rios.
Em seu primeiro livro, Hebe encarou um desafio: expor a vida de Daniela sem que toda a história despertasse apenas compaixão nos leitores. “Tive uma preocupação muito grande, porque eu não queria rotular a história. Tentei me ater aos fatos para que as pessoas tirassem suas próprias conclusões. Por isso, o livro é uma autêntica reprodução da trajetória de dor e conquista dessa mulher. Se o livro emite esperança é porque passou a ser uma mensagem. Mas não cabe a mim avaliar se os fatos são heróicos”, afirma Hebe.

Hebe começou a se interessar pela história de Daniela em 2007, por meio da filha Clara, que havia começado a fazer aulas de pintura no Ateliê Mara Toledo, em São Carlos. “A Clara comentou comigo sobre a Daniela, que mesmo sem os movimentos dos pés e das mãos conseguia pintar usando apenas a boca, mas eu já tinha conhecimento do trabalho da Dani. Foi aí que o Bráulio, marido da Mara Toledo, ficou amigo da minha filha e propôs a ela que eu contasse a história da Dani em um livro. Eu havia acabado de sair de um grande e importante projeto, mas topei o desafio”, diz Hebe.
Ao longo de quatro anos, Hebe se reuniu todas as quintas-feiras com Daniela a fim de colher os relatos da artista. “A minha primeira impressão sobre a Dani está contada na abertura do livro. Logo de início aconteceu uma empatia muito grande e então marcamos a data do próximo encontro”, afirma Hebe.
Trechos
Em sua narrativa pelo livro, Hebe considera que exista uma passagem na vida de Daniela Caburro que seja umas das mais marcantes. “Foi quando ela se submeteu a uma cirurgia espiritual, em Palmelo (GO). Pelos relatos da Dani, a situação era de total precariedade, não havia higiene alguma. Este para mim é o episódio do desespero, do vale-tudo na tentativa de encontrar uma solução para aliviar o sofrimento. A mãe dela acompanhou a cirurgia e afirma que só acreditava na situação porque estava lá vendo tudo”, conta.
As limitações impostas pela doença trouxeram sérias consequências à vida de Daniela. Aos 12 anos, gozando de plena desenvoltura e sedenta por conhecimento, Daniela era analfabeta. O fato chamou a atenção do professor Rui Toledo Gonçalves, da Universidade Federal de São Carlos. Ele a levou para o campus onde conseguiu a ajuda das professoras Maria da Piedade Resende da Costa, responsável por sua alfabetização, e Rosangela Costa, para a fisioterapia. Lendo e escrevendo, Daniela pode se matricular na série em que os irmãos estudavam e acompanhá-los na escola.
Diante da evolução da menina, um dia em uma visita à Daniela, o professor Rui ao observar um quadro na parede da casa da tia dela disse: “Aprendendo a ler e a escrever, quem sabe um dia você não se tornará uma artista?”. Estava ligado o botão que faria com que Daniela se tornasse uma renomada artista plástica.

A paixão
Em 1995, após um intervalo nos estudos devido às fortes dores que sentia, Daniela deu início à realização do sonho das artes. “Eu comecei a estudar com a Mara Toledo, mas eu só conseguia fazer desenhos muito miúdos usando a mão que ainda possui pouquíssimo movimento. Mas a Mara acreditou no meu sonho. Ela sempre foi muito natural comigo e me ensinou a corrigir os meus próprios erros. Ao invés de passar a mão na minha cabeça, ela me ensinava a contornar as situações. Um dia ela me disse: ‘Vai chegar um tempo em que a pintura para você deixará de ser um hobby’. Foi o que aconteceu e o passatempo se tornou a minha profissão. Toda a minha história agora está até contada num livro, uma biografia, que eu nunca pensei que pudesse acontecer”, afirma Daniela.
Há oito anos, Daniela é bolsista da Associação dos Pintores com a Boca e os Pés, com sede na Suíça, e já teve seus trabalhos reproduzidos e expostos em mais de 100 países. “A associação é uma segurança para artistas como eu. Como entende nossas dificuldades, o trabalho dessa instituição é essencial para que consigamos ter acesso a materiais de custo muito alto, como uma cadeira de rodas, por exemplo. Eles realmente acreditam no nosso trabalho”, diz a artista.
Entre as pinturas de Daniela estão reproduzidas paisagens, animais, pessoas. Várias delas estampam as páginas da biografia. “Foram inseridos os trabalhos premiados no livro. O quadro Menina Colhendo Flores ilustra a capa e é uma obra muito bonita. Ainda existem fotos de vários períodos da vida dela desde a infância, amigos e pessoas importantes nesta trajetória”, diz Hebe.
Vida em arte
Daniela adere a sua arte ao fato de ter feito com que ela conquistasse uma verdadeira “corrente de amigos”. “O meu trabalho me abriu muitas portas e fez com que eu conhecesse verdadeiros anjos da guarda. São eles os responsáveis pela minha perseverança e pelo meu otimismo. Eu costumo brincar que sou uma sonhadora incorrigível e essas pessoas acreditam na minha vida, na minha luta. Eu sou uma pessoa de muita fé e deixo Deus maluco com os meus sonhos”, afirma Daniela aos risos.

A artista também conta com a presença fundamental da mãe, dona Maria de Lourdes, em suas conquistas. “Ela nunca me disse não, mesmo nos episódios mais difíceis. A minha família é tudo na minha vida. Como eu poderia não ser feliz? Isso tudo não tem preço”.
Quanto à arte, Daniela se entrega. “O colorir é o meu dia a dia. A arte é a forma onde eu encontro o meu movimento. Quando eu desenho um animal como um cavalo, eu sinto o seu galope; quando pinto uma paisagem eu me insiro naquela visão. É assim que eu sinto a agitação das coisas. Eu batalhei muito por esse sonho e a arte é a minha vida”.
Para Hebe, a vida de decepções reais trouxe o surgimento de acontecimentos milagrosos. “Acredito que está inserido no famoso ‘conspirar a favor’. Os fatos na vida da Daniela não são uma coincidência. Ela nunca desistiu e não é uma pessoa acomodada. Ela já sofreu muito, mas a fé que ela tem nas pessoas e em Deus a tornam capaz de superar as limitações. O nosso relacionamento é marcado pela alegria. A felicidade está muito próxima da gente. Devemos ter um olhar de pureza sobre a arte que é a vida”, ressalta Hebe.
Troca
Diante da união da jornalista e da artista plástica, Hebe agora está tomando aulas de pintura com Daniela. “O projeto do livro terminou, mas não a vontade de continuarmos a nos ver. Hebe começou a pintar e já fez um trabalho lindo”, conta Daniela. “É como se eu chegasse aqui e me esvaziasse, mas ao mesmo tempo conseguisse me desprender um pouco para valorizar mais a vida. É tudo tão milagroso. Perdemos muito tempo com coisas supérfluas e devemos ter mais consciência do nosso papel no mundo. Os problemas existem, mas devemos ser felizes inclusive na infelicidade”, finaliza Hebe.
Fonte:
http://eptv.globo.com