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Autor Tópico: “Os 5.ª Punkada tocam alguma coisa de jeito?”  (Lida 777 vezes)

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“Os 5.ª Punkada tocam alguma coisa de jeito?”

Graça Barbosa Ribeiro

06/07/2015 - 08:10

Como é que se passa de um workshop de música para uma conversa sobre os limites de um corpo que é tão diferente do nosso? Com naturalidade. É isto que se aprende com os elementos da 5.ª Punkada, uma banda a sério, da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra.
Adriano Miranda

   

Na sala de música da Quinta da Conraria, nos arredores de Coimbra, dez crianças batem com os pés no chão, ao ritmo que o baterista da banda da 5.ª Punkada impõe, cada vez mais intenso.

O workshop, que faz parte das actividades do campo de férias, está a terminar, e duas das meninas mal podem esperar para correr para o único elemento feminino da banda. Uma é Raquel, de 9 anos, que, assim que a música se cala avança com os olhos sorridentes presos nas tranças finas de Fátima: “Tens um estilo muito giro!” Maria Inês, mais nova, e também mais baixinha, tem uma pergunta a fazer sobre aquilo que está ao nível do seu olhar: “Por que é tens o braço amarrado à cadeira?”

Fátima Pinho, de 50 anos, nem pestaneja. Agradece o elogio a Raquel e mostra que, de facto, não pode mexer o braço direito até que alguém lho liberte: “Não controlo os movimentos e podia atirar o teclado pelos ares, entendes?” Inês faz que sim com a cabeça. Depois, franze os olhos, a observar o vocalista, que também está numa cadeira de rodas e igualmente rodeado de crianças: “Mas o Fausto também não controla os movimentos e não tem os braços presos…”

Como é que se passou de um tradicional workshop de música – em que as crianças aprendem a letra de uma canção, exploram as vozes, ensaiam ritmos e experimentam instrumentos – para esta sessão de perguntas e respostas sobre os limites de um corpo que é diferente de outros? “Com a naturalidade própria das crianças”, responde Fátima.

“Já nasceste assim?” “Gostas de outras bandas de música?” “Dormes na cadeira?” “Preferes carne ou peixe?” “Como é que passas para a cama?” “Quantos anos tens?” – depois de Ana, é  a vez de Fausto ser bombardeado com perguntas.

Ele ri-se, brinca. Diz dele próprio que tem uma grande "punkada". Fátima afirma que não lhe doem os olhares nem as perguntas dos outros, ali, na Quinta da Conraria. Está em casa, numa zona rural onde se concentram uma residência e vários centros de apoio e de actividades pedagógicas da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC). “Duro é lá fora. É ouvir adultos a dizerem “coitadinha…”, como se eu fosse surda. Ou a comentarem que não me deviam deixar sair de casa”.

Paulo Jacob, o musicoterapeuta, nem incentiva nem trava a conversa entre as crianças e os músicos. Diz que também não costuma intervir no início das sessões, quando grupos maiores, de alunos de escolas do país, se deslocam à Quinta da Conraria para os ateliers de música, uma das muitas actividades pedagógicas oferecidas pela APCC durante o ano lectivo.

Espanto ou susto
“Vejo-os entrar descontraídos e depois estancar. Há sempre uns segundos de silêncio. Olho para as caras deles, de espanto ou mesmo de susto. Às vezes de gozo. Mas a única alusão às características diferentes da banda está numa pergunta, que faço a abrir e que repito no fim da sessão. Inclino-me, assim, para a frente, e pergunto, como se estivesse a segredar: “Vocês acham que os 5.ª Punkada tocam alguma coisa de jeito?”. Diz que no início a resposta é, invariavelmente, um não.

No fim, quando as crianças respondem que sim, Paulo Jacob sente que "a missão está cumprida”: “Mais tarde, numa qualquer situação em que se cruzem ou tenham de lidar com uma pessoa com deficiência, há-de dar-se um clique. Estes miúdos hão-de lembrar-se destas pessoas e do que elas são capazes de fazer. Nesse momento, saberão como agir”, diz o professor. 

Paulo Jacob sabe do que fala. Se inventasse a história não seria mais incrível, para quem hoje ampara crianças no embate com a diferença. Ainda andava a estudar “para ser professor de música”, quando debaixo de chuva intensa entrou por engano no autocarro que normalmente é usado pelos utentes da Quinta da Conraria. “Foi uma experiência aterradora. De repente vi-me rodeado de pessoas estranhas, muito estranhas. Tive um sentimento de rejeição daquilo. Saí na paragem seguinte e perguntei a mim mesmo como seria se viesse a trabalhar com deficientes. A resposta foi que isso não iria acontecer nunca. Nunca”.

Calcula que seja parecido, o choque que as crianças sentem quando entram na sala de música da APCC. Ele, Paulo Jacob, anda por lá, de guitarra eléctrica, sorridente, falador, acolhedor. Mas é o corpo de Fausto que primeiro prende os olhares. Quase deitado na cadeira de rodas, aquele corpo move-se permanentemente e de forma descoordenada, com esticões involuntários. Num primeiro momento também não é fácil entender o que Fausto diz, mesmo que seja uma simples saudação. As palavras soam como se fossem arrancadas, uma a uma, com esforço, e se soltassem de repente para se juntarem ao resto da frase.

Fonte: Publico
 

 



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