As “epidemias ocultas” da China: doenças evitáveis que podem remodelar uma naçãoPor Francisco Laranjeira em 13:29, 21 Set 2022
Fonte de imagem: multinews.sapo.ptA China enfrenta uma emergência de saúde devido a “epidemais ocultas”: doenças como cancro, problemas cardíacos e diabetes são alguns dos maiores desafios para a nação mais populosa do mundo, alertaram os especialistas, que sublinharam as consequências sociais, económicas e demográficas. Embora as autoridades sanitárias chinesas tenham imposto os bloqueios mais rígidos a nível mundial para proteger da pandemia da Covid-19, o impacto mortal das doenças não transmissíveis é muito menos compreendido e ameaça matar dezenas de milhões de chineses nas próximas décadas sem políticas de saúde pública mais duras.
Wang Feng, professor de sociologia da Universidade da Califórnia, sublinhou, em declarações ao jornal britânico ‘The Guardian’, “estas são epidemais ocultas e duradouras. Há uma explosão de uma nova dieta e ingestão nutricional num curto perído de tempo. Combinado com o envelhecimento imprevisto e sem precedentes, será uma dos maiores desafios que a China vai enfrentar – não apenas para famílias individuais mas representa um desafio político para a liderança.”
Mais de um terço dos 1,1 mil milhões de fumadores do mundo vivem na China, onde cerca de metade da população masculina é viciada em tabaco. As doenças relacionadas ao tabagismo – que incluem cancro de pulmão, doenças respiratórias e cardíacas – vão matar um em cada três jovens chineses até 2050, segundo as projeções atuais.
Esta é uma estatística sombria num país que já enfrenta uma crise demográfica devido à queda da taxa de natalidade e ao rápido envelhecimento da população. A ONU previu que a população pode cair do seu nível atual de cerca de 1,4 mil milhões para cerca de mil milhões até 2100.
Bernard Stewart, professor da Universidade de Nova Gales do Sul, em Sydney, frisou que as evidências são categóricas e a China precisa de tomar medidas para evitar o que considerou “um desastre”. “Não há sentido em qualificar o desastre que a China enfrenta em relação às mortes por tabagismo”, disse. “Há uma grande diferença nas taxas entre as províncias mas as cidades altamente industrializadas são áreas de desastre.”
A maior causa de morte na China são os derrames, seguidos por doenças cardíacas, doenças pulmonares crónicas e cancro de pulmão, de acordo com o estudo de carga global de doenças produzido pelo Instituto de Métricas e Avaliação de Saúde dos EUA.
A China tem mais pessoas com diabetes do que qualquer outro país – mais de 110 milhões –, no que a Organização Mundial da Saúde (OMS) descreveu como um problema “explosivo”, um número que poderá subir para 150 milhões em meados do século.
As pessoas na China têm 14,1% de hipótese de morte prematura por uma doença não transmissível, o que coloca o país na 76ª posição no ranking mundial de saúde. A Coreia do Sul está no topo com 4,7%. Os resultados são piores para os homens chineses, com 19,8% de chance de morrer prematuramente.
A crise da saúde pode, de muitas maneiras, ser rastreada até o crescimento económico estratosférico da China desde o final da década de 1970, quando as pessoas começaram a consumir uma dieta e hábitos de estilo ocidental. Em 1978, a maioria dos chineses seguia uma dieta de subsistência. “Isso foi há quase 30 anos. Mas está a voltar como um problema para as pessoas, que estão a consumir bebidas alcoólicas, açúcar e tabaco mais rápido do que comida. Não havia consciência da nova desnutrição, pessoas com excesso de peso e a rapidez como isso aconteceu.”
Esses problemas crescentes são reconhecidos pela liderança do Partido Comunista e estão entre as razões pelas quais o Governo manteve a rígida estratégia de ‘Covid zero’ enquanto o resto do mundo voltou à vida normal. Pequim sabe que a população – especialmente os idosos que vivem em áreas rurais – não tem acesso a bons cuidados de saúde e, com problemas de saúde subjacentes, como doenças cardíacas e problemas respiratórios, já tão comuns, estariam em alto risco de propagação da Covid-19. Estima-se que a política chinesa tenha salvo um milhão de vidas.
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