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REPORTAGEM: Kastelo de Matosinhos já recebeu mais de 100 crianças com doenças paliativas

Matosinhos, Porto, 22 jun 2019 (Lusa) -- As portas do Kastelo, em Matosinhos, abriram-se há três anos para acolher crianças com doenças paliativas que, mesmo acamadas, ligadas a ventiladores ou em cadeiras de rodas, não conhecem quaisquer limites.


Lusa
22 Junho 2019 — 10:06

Numa rua estreita e de sentido único em Matosinhos, no distrito do Porto, nascia a 24 de junho de 2016 aquela que seria a primeira unidade de cuidados continuados e paliativos da Península Ibérica que já teve, até então, o "reinado" de 141 "príncipes" e "princesas", termo pelo qual são apelidadas as crianças que por lá passam.


Desde a sua abertura, a unidade de internamento acolheu 77 crianças e a de ambulatório 64. Portadores de doenças paliativas, ou seja, doenças que não têm cura, estas crianças podem viver muito tempo e chegar à idade adulta embora com limitações graves, disse hoje à Lusa a diretora do Kastelo, Teresa Fraga.

Por isso, as crianças têm como missão diária serem felizes, agindo sob o lema "Dar Vida Aos Dias", não conhecendo fronteiras.


"Aqui não há limites para nada. Estas crianças fazem tudo como qualquer criança sem limitações, desde ir à praia, cinema, parque aquático, andar a cavalo ou passear, mesmo ligadas a um ventilador ou cadeira de rodas", referiu.

Sabendo qual o limite da medicina, a enfermeira, que trabalha nos cuidados intensivos do Centro Materno Infantil do Norte, explicou que, dentro desse limite, é possível fazer a diferença e dar qualidade de vida às crianças.

As crianças acordam por volta das 07:00 e só regressam aos quartos, que são amplos, pintados de branco e verde e virados para o jardim, apenas para dormir.

O dia é longo, passado no exterior e preenchido com terapias e atividades, desde expressão plástica, música, pintura, doutores palhaços ou hipoterapia.

Se as temperaturas ajudarem nem as refeições fazem no interior, tendo montada uma tenda gigante no exterior com todas as condições e com vista para a horta e o jardim.

Para complementar, as crianças têm uma quinta com porcos, sendo "Bacon" o mais recente membro, patos e ovelhas porque a interação com os animais é fundamental, contou Teresa Fraga.

Logo à entrada do Kastelo lê-se "Bem-vindo a este reino encantado", mensagem acompanhada das fotografias dos seus habitantes e onde impera o sorriso.

Aberto todos os dias a todas as horas, o Kastelo não tem horas de visitas e recebe, de manhã, à tarde ou à noite, os familiares e amigos das crianças.

"Quem estiver longe e quiser ligar para saber do filho ou filha pode ligar a qualquer hora, sem problema algum", frisou a diretora.

Além disso, os pais que estiverem longe e venham visitar os filhos ao fim de semana ou à semana têm disponíveis camas no Kastelo ou um apartamento no Porto.

Os pais, à semelhança dos filhos, são uns guerreiros e, à força, tiveram de aprender a cuidar de maneira diferente, por isso, o Kastelo trabalha com eles as suas emoções, realçou Teresa Fraga, lembrando tratar-se de pessoas "fragilizadas".

"Eles são bons cuidadores, falta-lhes é competências para cuidar porque não nascemos todos a gostar da área da saúde e eles, fruto das circunstâncias, foram obrigados a tirarem um em meses", contou.

Os profissionais, desde fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e da fala, médicos, enfermeiros, farmacêuticos, pediatrias, psicólogos, professores, fisiatras, educadores e auxiliares, vão "aprendendo e formando-se" diariamente, adiantou Teresa Fraga.

À pergunta de como os profissionais lidam diariamente com a iminência da morte, Teresa respondeu imediatamente "gostando-se muito do que se faz, mas muito, muito, muito".

A diretora recordou que o que os move é manter as crianças sem dor, confortáveis e, sobretudo, felizes.

Uma criança, a única no Kastelo que atualmente fala, disse à Lusa, quando questionado sobre se estava bem, que "claro que sim porque o Benfica ganhou o campeonato".

Por entre dor e felicidade, os irmãos dos "príncipes" e "princesas" ficam muitas vezes esquecidos e, na realidade, são os que mais sofrem, considerou Teresa Fraga.

"Para apoiar os irmãos, temos um grupo de apoio onde um deles me disse um dia que tinha crescido na sombra do irmão porque estava sempre internado e com os pais ao lado, tendo mesmo desejado estar doente", referiu.

E tal como uma frase afixada numa das paredes do Kastelo, Teresa Fraga frisou que a alegria está na luta, na tentativa, no sofrimento e não na vitória propriamente dita.



Fonte: DN
 

 



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