Os que abandonam os seus animais quando se aproxima agostoPorLuís Osório
28 Julho, 2022 • 22:44

POSTAL DO DIA com Luís Osório
1. Quando se aproxima agosto as associações que recolhem animais não têm
mãos a medir. São centenas de cães e gatos perdidos, aterrorizados,
confusos e em desamparo.
As associações e canis sabem que quando se aproxima agosto têm de
olhar com mais atenção para debaixo dos carros. Têm que estar atentos
ao ladrar tímido, ao pequeno ganido ou miado em casas abandonadas.
Normalmente são cães ou gatos muito jovens, cães que são despejados
quando chega o verão por pessoas que, afinal, não se adaptaram a
tê-los em casa, muito cocó, muito chichi, muita paciência, um incómodo
que não sabiam ser tão chato. Ou abandonados por malta que deseja ir
para férias e não encontrou uma solução: é provável que ao fim de dois
ou três mergulhos em praias apinhadas de gente e esquecimento já não
se recordem do cão ou do gato.
Ou então talvez lhes fique a pesar um bocadinho na consciência. Talvez
até possam começar a criticar a excessiva tendência para humanizarmos
os animais porque um animal é um animal e o mundo está mesmo virado do
avesso. Passam a ter uma opinião e podem prosseguir com tudo
explicadinho na sua cabeça ou então não, ou então não existe
sentimento algum, só amoralidade.
2. Este postal não é sobre os cães e os gatos perdidos e em terror. Não
será sobre os que morrem por não saber o que fazer e onde procurar
comida. Ou atropelados por não se desviarem dos carros que passam.
É sobre o momento em que os olhamos e nos sentimos melhor.
É sobre as manhãs, também de agosto, todas as manhãs sem flutuações de
humor, é sobre a companhia no pequeno-almoço, o primeiro cigarro da
manhã para alguns, a partilha da torrada para outros.
É sobre os que regressam a casa ao almoço para mais um passeio.
É sobre os desvios noturnos que cães e gatos fazem aos quartos para
ter a certeza de que os meninos estão bem.
É sobre quando regressamos e percebemos o que é ser adorado
incondicionalmente.
É sobre a companhia que nos fazem aos pés quando descascamos batatas
ou vemos televisão ou conversamos. Sobre o último passeio da noite que
nos ajuda a desligar do dia, sobre os olhinhos na expetativa de um
paté em dias de festa, é sobre o pedido de mimo que nos sabe tão bem.
3. Quando se aproxima agosto as brigadas procuram o que sabem que vão encontrar.
Mas quando os recolhem não são apenas os cães e os gatos que carregam.
É também todo o amor que aqueles animais não puderam dar, todos os
momentos que não viveram, toda a alegria que (afinal) não
proporcionaram.
Sim, foi mesmo isso que quis dizer: quando eles têm a sorte de ser
recolhidos do seu medo, trazem nos braços também as pessoas que os
abandonaram. O que elas perderam, o que elas (ainda) não são capazes
de ser, o que elas fizeram.
4. Os canis e gatis estão cheios e ainda não chegou agosto.
Neste momento em que te escrevo há pessoas que estão a abandonar os
seus cães ou gatos em lugares ermos.
Alguns com o peso de uma culpa. Outros sem coisa nenhuma, apenas o
peso de um assunto resolvido, de um pequeno incómodo que precisava de
ser resolvido antes da semaninha de férias que lhes vai saber pela vida.
Não me entendam mal.
Este postal não é sobre os cães e os gatos que sofrem sem ter culpa.
É sobre nós, sobre alguns de nós, sobre o que nos falta ou o que
carregamos, sobre o que perdemos.
Porque agosto não traz apenas a possibilidade do sol em nós. Traz
também a infâmia de um longo inverno que não se resolve com uns
mergulhinhos na Costa da Caparica, na praia do Moledo ou em Albufeira.
Fonte: tsf.pt Link:
https://www.tsf.pt/programa/postal-do-dia/os-que-abandonam-os-seus-animais-quando-se-aproxima-agosto-15051388.html