Animais deficientes: os desafios ao adotar um cão especialCachorros com deficiências ficam mais tempo aguardando adoção
João Vitor Brum - joaovitor@diariodepetropolis.com.br

Gabriela, uma filhote surda e albina,
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que há mais de 20 milhões de cães domésticos nas ruas das cidades brasileiras, sofrendo com doenças, maus tratos e reprodução descontrolada. O número representa pouco mais de 38% do total de cachorros do país, que, em 2017, era de aproximadamente 52,2 milhões (também segundo o IBGE). Entre os animais deixados nas ruas, muitos sofrem com deficiências físicas, e possuem maior dificuldade de encontrar uma família, já que muitos têm receio ao adotar um cão com algum tipo de condição especial de saúde.
O Diário conversou com o dermatologista Thiago Caetano, que, neste ano, adotou a pequena Gabriela, uma filhote surda e albina, que foi a última de sua ninhada deixada em uma feira de adoção em Itaipava.
- Não tinha a intenção de adotar nenhum animal novo, já que tenho duas cachorras e duas gatas em casa (uma das cadelas e as gatas também foram adotadas), mas gostava de frequentar feiras de adoção para acompanhar o trabalho e conhecer os animais, e, eventualmente, oferecer alguma ajuda necessária - disse Thiago.
O médico estava em um evento realizado pela Gapa (Grupo de Assistência e Proteção aos Animais e ao Meio Ambiente), em janeiro, quando notou que apenas um filhote tinha "sobrado" no local, justamente por ser surdo e albino.
A Gapa é uma Organização Não Governamental (Ong), que completou 17 anos em 2019 e já resgatou e doou cerca de quatro mil animais, por meio de feiras de adoção e eventos do tipo. O interessado em adotar um filhote passa por uma entrevista e uma avaliação, para garantir a responsabilidade do adotante.
- Naquele dia, fui pra casa com o filhote na cabeça. Não adotei de imediato, mas mantive contato direto com a responsável pelo cão. Fiquei com muito receio daquele cachorro ser adotado por alguém que não entendesse suas limitações e o maltratasse por isso, ou então que não tivessem paciência para amá-la devido às suas dificuldades. Um mês depois de conhecê-la, resolvi adotá-la - contou o médico.
O filhote recebeu o nome de Gabriela e foi levado à casa de Thiago, onde conheceu suas novas "irmãs". Mesmo sem grandes problemas de adaptação, o dono conta que é necessária muita paciência para educar a pequena.
- A adaptação foi boa, não tivemos problemas específicos pela surdez. É claro que, para educá-la, foi preciso ter o triplo de paciência do que foi necessário com minhas outras cadelas, já que, geralmente, os comandos que damos aos animais têm a ver com o tom de voz - explicou.
Como a cachorra não ouve, família e amigos precisam se habituar com "broncas" gestuais, com sinais expressivos, etc. Além da deficiência auditiva, foi preciso se adaptar ao albinismo de Gabriela.
- Ela não pode tomar sol com frequência, por ter uma tendência maior de desenvolver câncer de pele, além das alergias que têm na pele. A protegemos do sol durante os horários de pico e ela tem até um óculos de sol - esclareceu Thiago.
Os principais fatores ligados à surdez em cães são herança genética, infecções crônicas (causadas por fungos ou bactérias), infecções virais (como cinomose), ou devido à idade elevada do animal.
24% dos cães do país são adotados
O estudo do IBGE apontou, também, que 44,3% dos domicílios brasileiros possuem pelo menos um cachorro, enquanto 17,7% têm no mínimo um gato. O número representa aproximadamente de 28,6 milhões de residências com cães e 11,5 milhões com gatos. Deste total, é estimado que 24% tenham sido adotados.
Entretanto, não há uma pesquisa que aponte, de forma específica, quantos destes animais possuem algum tipo de deficiência ou doença crônica, já que não há um órgão que reúna este tipo de informação, impedindo um estudo mais detalhado.
- A melhor parte de ter um animal adotado, deficiente ou não, é a gratidão e o amor que você recebe. Só quem adota sabe. Na minha prática diária, só lembro que ela é surda quando eu a chamo pelo nome e ela não vem. Ela se dá bem com os outros animais da casa e não observo nenhuma diferença na interação entre eles - afirmou Thiago, destacando que é preciso ter responsabilidade ao decidir adotar um cão.
- A adoção responsável é muito gratificante, com o animal saudável ou deficiente. Deve-se pensar, repensar, consultar outras pessoas que morem com você, lembrar que um cão deficiente gera mais gastos, mais idas ao veterinário, pode demandar mais tempo, paciência e amor. É preciso fazer cálculos de orçamento e ter tempo e dedicação, mas vale muito a pena ajudar um animal que precisa - completou o médico.
Fonte:
https://www.diariodepetropolis.com.br/integra/animais-deficientes-os-desafios-ao-adotar-um-cao-especial-175580