Apoio à vida independente: "Somos os braços, as pernas ou os olhos de um beneficiário"04 mai, 2026 - 06:30 • Isabel Pacheco
O direito à vida independente das pessoas com deficiência está esta segunda-feira em debate na Póvoa de Lanhoso. O fórum reúne políticos, académicos e técnicos para abordar temas como a autonomia, a dignidade e as respostas inclusivas.
Numa das salas da Associação de Apoio aos Deficientes Visuais do Distrito de Braga (AADSDB), na Póvoa de Lanhoso, há uma rádio. É a Rádio União que transmite online. O projeto nasceu da paixão do Domingos Silva, invisual, pela rádio e pelo futebol.
"É o bichinho da rádio, do futebol e o bichinho da vida independente que também cá está”, atira Domingos Silva, também, presidente da associação.
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Domingos recorda como iniciou sua participação na rádio Voz do Neiva a comentar jogos de futebol. “Como é que um cego consegue fazer comentários? É muito fácil”, diz, de pronto. E prossegue: “A pessoa estava ao meu lado a fazer o relato e eu ia-me apercebendo daquilo que a pessoa ia dizendo. E a minha análise também era feita."
A independência chegou à vida de Domingos com o apoio de um assistente pessoal, em 2019, e o seu dia-a-dia tornou-se mais simples. “Às vezes, queria ir ao café e não conseguia ir porque não tinha quem me levasse”, exemplifica, destacando o benefício do apoio também para a saúde mental: “Quando começou o Centro de Apoio à Vida Independente (CAVI), o meu psicológico melhorou 50 a 60%."
Vítor Esteves foi, durante anos, os olhos de Domingos. É um dos 27 assistentes pessoais do CAVI sediado na Póvoa de Lanhoso – um dos três do distrito de Braga.
“Ser assistente pessoal é, basicamente, ser os braços ou as pernas ou os olhos de um beneficiário”, diz Vítor Esteves.
“Aquilo que eles mais pretendam fazer, nós teremos que arranjar maneira de o concretizar, por assim dizer”, acrescenta.
“Para mim, não é trabalhar, é estarmos lá para os ajudar a serem independentes”, destaca.
CAVI ajuda a mudar vidas
Entre os 60 beneficiários do CAVI da Póvoa de Lanhoso, há os mais variados casos e graus de dificuldade com diferentes limitações. A diretora do CAVI, Joana Branco, dá conta dessa realidade referindo o exemplo um beneficiário tetraplégico.
“Fizemos um plano, um plano bastante ousado, diria até, neste caso. Tem mais do que um assistente pessoal. Ele conseguiu arranjar uma casa adaptada. Conseguiu algo ainda maior que foi ficar com a guarda do filho menor. Em conjunto com o assistente pessoal, fazem todas as rotinas que um pai normal faria”, conta Joana Branco, reconhecendo que é uma das situações “felizes” de apoio do CAVI.
Mas, se há 60 pessoas a beneficiar deste apoio, outras tantas constam da lista de espera que parece “infindável”.
“Neste momento, temos cerca de 60 pessoas. Mas temos conhecimento de que existem listas de espera de 400 pessoas noutros centros de apoio”, diz a dirigente do CAVI.
O apoio à vida independente a pessoas com deficiência é gratuito para os beneficiários. Tem financiamento assegurado por fundos europeus até ao próximo ano. O receio, admite a Joana Branco, é o pós-2027 e a possibilidade de aplicação de uma condição de recurso no acesso à assistência.
“No fundo, é termos de pedir aos nossos beneficiários tudo o que ganham e as despesas para calcular uma mensalidade. Isso é um bocado, na minha opinião, ridículo”, lamenta a responsável.
"Estamos a falar de um direito da pessoa com deficiência que está na convenção e que o Estado tem que assegurar esta resposta, tem que assegurar a assistência pessoal”, sublinha.
No país, há 35 centros de apoio à vida independente. Leiria e Castelo Branco são os únicos distritos que continuam fora da rede de apoio.
Fonte:
https://rr.pt/noticia/amp/pais/2026/05/04/apoio-a-vida-independente-somos-os-bracos-as-pernas-ou-os-olhos-de-um-beneficiario/469023/