Pai de aluno diabético passa os dias na escola Hercílio Pacheco tem 40 anos e mora em Mouriz, Paredes. Mas mais importante que os dados biográficos é a rotina diária que, de há dois anos a esta parte, cumpre religiosamente: chega à escola às 9h00, volta a casa por volta do meio-dia e regressa ao estabelecimento de ensino para só sair às 17h30.
Durante estas mais de oito horas, o ex-administrativo de uma empresa de construção civil só tem uma preocupação. Controlar a diabetes do filho de oito anos que, em Dezembro de 2009, colocou uma bomba infusora de insulina. "De 1h30 em 1h30, tenho de medir a glicemia do meu filho. Por isso, tenho de passar o dia na escola e fui obrigado a deixar o emprego", explica.
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Atrofia muscular obrigou a mudar tratamentoO drama da diabetes atingiu a família de Mouriz tinha o Daniel 4 anos e frequentava o jardim-de-infância. Pouco depois, o menino transitou para a escola primária e a situação agravou-se. "O Daniel tomava insulina através de uma caneta, mas começou a ficar com atrofia muscular nos locais onde se injectava, nomeadamente nos braços, coxas e nádegas", refere o pai.
O ano de 2009 estava a chegar ao fim quando os médicos decidiram trocar a caneta por uma bomba infusora, aparelho que é transportado a todo o momento pelo doente e que vai libertando continuamente pequenas quantidades de insulina. "Ele foi dos primeiros doentes a receber a comparticipação do Estado para a aquisição da bomba", recorda Hercílio Pacheco.
No entanto, a ajuda do Ministério da Educação trazia consigo uma exigência impossível de contornar: um dos pais teria de acompanhar o Daniel 24 horas por dia. "É um equipamento muito complexo e o Daniel não tem autonomia para lhe mexer. Mesmo para nós é complicado", refere.
Assim, e depois de comparar o valor do ordenado com o da esposa, Hercílio Pacheco demitiu-se de uma empresa de construção civil na qual desempenhava funções administrativas e passou, desde Dezembro de 2009, a acompanhar permanentemente o filho. Primeiro na escola primária de Soutelo e, desde o início deste ano lectivo, no Centro Escolar de Mouriz.
Hercílio chega, juntamente com o Daniel, ao estabelecimento de ensino às 9h00 e às 10h00 dá-lhe o lanche. Antes de regressar a casa para almoçar, mede os níveis de glicemia às 11h30, o que volta a fazer já às 14h30. Meia hora depois é tempo para comer novo lanche e, às 16h30, controla, mais uma vez, os valores da glicemia. Às 17h30, pai e filho regressam a casa. "De 1h30 em 1h30 tenho de medir a glicemia do meu filho. Se os valores estiverem normais posso ficar descansado, senão tenho de me manter por perto, pois poderei ter de suspender a bomba ou aumentar a dose de insulina", esclarece.
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[/float]Às quartas e sextas-feiras, Hercílio Pacheco tem ainda de retirar a bomba infusora para permitir que o pequeno Daniel faça a aula de educação física de forma mais confortável. "Às vezes, ainda tento sair, mas telefonam-me logo a dizer que o Daniel está mal disposto e com dores de cabeça. Tenho de me manter sempre por perto", diz.
Com Daniel na sala de aula, Hercílio vai deambulando pelos corredores do Centro Escolar ou permanece sentado no banco junto à entrada do estabelecimento de ensino. "De vez em quando vou lá fora fumar um cigarro, mas volto", descreve conformado com uma rotina diária que se deverá prolongar pelos próximos dois, três anos. "Nessa altura, pode ser que o Daniel já consiga controlar a bomba infusora", antevê.
Hercílio Pacheco procura emprego na escola do filhoHercílio Pacheco tem um desejo: ter um emprego na escola frequentada pelo Daniel. "Assim, conseguia estar perto do meu filho, manter-me ocupado durante o dia e ainda ganhar algum dinheiro", justifica.
O pai do aluno diabético já falou com o vereador da Educação da Câmara Municipal de Paredes, Pedro Mendes, e enviou um e-mail para o gabinte do presidente da autarquia, Celso Ferreira. "O vereador disse-me que ia ver o que podia fazer, mas até agora não houve nenhum desenvolvimento", refere.
Até Dezembro de 2009, Hercílio Pacheco era administrativo numa empresa de construção civil de Paredes, mas a necessidade de se ausentar várias vezes ao dia, obrigou-o a pedir a demissão. "Ainda consegui trabalhar algum tempo, mas depois começou a ficar complicado. Tinha de sair muitas vezes e os próprios colegas de trabalho já não viam a situação com bons olhos", afirma.
Novo tratamento trouxe mais dificuldades financeirasA colocação de uma bomba infusora de insulina não mudou, apenas, a vida do Daniel. Toda a família foi obrigada a mudar o seu estilo de vida, com evidentes consequências a nível financeiro. Sobretudo porque o orçamento familiar levou um grande rombo com o despedimento de Hercílio Pacheco.
Apesar da bomba infusora ter sido comparticipada pelo Estado na sua totalidade, o que evitou o pagamento de uma verba entre os quatro e os quatro mil e quinhentos euros, a nova solução terapêutica implica um gasto mensal na ordem dos 250 euros. "Para além de ter comparticipado a aquisição da bomba infusora, o Estado dá, todos os meses, 12 caixas de consumíveis como catéteres, tubos ou reservatórios. Mas são insuficientes e temos de comprar mais material", realça Hercílio Pacheco.
O pai do Daniel teme, ainda, que o cenário piore. "Estes consumíveis já foram comparticipados na totalidade, mas o apoio tem vindo a diminuir. O mais certo é que, devido à crise, deixem de ser comparticipados", refere.
Doença descoberta a caminho de jantar de amigosA doença do único filho de Hercílio Pacheco e Luísa Alves foi diagnosticada num dia em que a família se preparava para jantar na casa de uns amigos. "Sentíamos que o Daniel andava a beber mais água e que também urinava mais. Mas como ainda era Verão pensávamos que era do calor. No entanto, num dia ele bebeu, em dois minutos, duas garrafas de 33 cl e uma senhora disse-nos que ele era diabético ou tinha o vício da sede", conta a mãe.
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Nessa mesma noite, a caminho da casa dos amigos, Luísa e Hercílio pararam na farmácia e fizeram o teste da diabetes ao Daniel. Após uma segunda análise para confirmar os valores da primeira, o drama chegou sob forma de ordem da farmacêutica. "'Vão já para o hospital', disse-nos. O Daniel acusou o máximo que o aparelho permitia", recorda o pai.
Nessa mesma noite, Daniel ficou internado no Hospital Padre Américo, em Penafiel. Testes complementares provaram que o pâncreas do menino de, então, quatro anos não produzia insulina, o que o tornava numa das poucas dezenas de crianças da região com diabetes de tipo I.
Ficou internado por 11 dias, tempo suficiente para os pais terem (in)formação sobre a diabetes e o que fazer a quem foi diagnosticada a doença. "No caso do Daniel a situação é ainda mais complicada porque ele é pequeno e não dá conta dos sintomas", afirma Luísa Alves.
A solução passa, assim, por uma vigilância e monitorização constante dos níveis da glicemia. "Fazemos a medição da glicemia (a pica no dedo) do Daniel entre sete a dez vezes por dia. Até durante a noite o fazemos. Por exemplo, esta noite, às 4h00 da manhã os níveis dele estavam a 42 e ele já não chegaria sem problemas às 7h00 se não tivéssemos dado conta", declarou Hercílio Pacheco.
Luísa Alves sustenta que esta disciplina tem de ser seguida ainda nas refeições, facto que mudou os hábitos alimentares de toda a família. "Comemos todos em função da dieta do Daniel", refere.
in VerdadeiroOlhar.pt