Mais algumas Personalidades Famosas com Deficiências:

HELEN KELLER
Marco Indelével
No ano de 1880 nascia Helen Keller que, com 19 meses de idade ficou cega e surda. Logo a seguir não conseguiu mais falar. Foi com 7 anos de idade que a menina começou a receber a ajuda de Anne Sullivan, graças a uma sugestão de Alexander Graham Bell, que fora consultado pelos Keller quanto a uma solução para os problemas de Helen. De fato a assistência à menina resultou de uma combinação de esforços de diversas organizações. Com verdadeira efetividade, essa assistência levou Helen a ler, escrever e até a falar com acentuada dificuldade.
Ninguém pode minimizar a importância de Anne Sullivan, a “professora”, na vida de Helen Keller. O drama das semanas iniciais de suas atividades foi marcante, mas ambas venceram todas as barreiras da comunicação, o que levou a menina a empreender todos os estudos requeridos nas escolas daqueles dias.
Em 1900 a jovem Helen entrou no Colégio Radcliffe, graduando-se em 1904 “cum laude”. Desse ponto em diante, em companhia de Anne Sullivan e depois de Polly Thomson, sua vida foi marcada por uma plena dedicação à causa das pessoas vítimas de múltiplas deficiências, colaborando fortemente para a melhor compreensão das potencialidades do ser humano nas tentativas de superação das dificuldades consideradas insuperáveis
LUDWIG VAN BEETHOVEN

Compositor Musical
No ano de 1827 morria Ludwig Van Beethoven. Nascera em 1770, na cidade de Bonn, na Alemanha. Filho de pai alcoólatra e, segundo consta, de mãe infeliz, transformou-se com muito esforço pessoal num dos maiores gênios da música erudita, apesar de ter sofrido imensamente com a gradativa perda da audição, desde seus 27 anos de idade. A surdez isolava-o da sociedade, mas não o impedia de manter sua obra criadora.
A perda do sentido da audição, no caso de Beethoven, aos poucos transformou-se numa dificuldade de natureza bi-lateral para ouvir com precisão os sons de alta freqüência. O grande compositor usava o auxílio de trompas de ouvido e outras adaptações próprias para seu trabalho, principalmente ao piano.
Em algumas de suas cartas a amigos e confidentes, como ao Dr. Franz Gerhard Wegeler, nota-se sua aflição pelo mal que o atingia. Em 1801, com 31anos de idade, escreveu o seguinte: ...”minha faculdade mais nobre, minha audição, tem piorado muito” ... “esse problema causa-me as dificuldades menos significativas ao tocar ou ao compor e as maiores, quando em contado com os outros”... “meus ouvidos assobiam e fazem barulho sempre, dia e noite. Em qualquer outra profissão isso poderia ser mais tolerável, mas na minha, essa condição é verdadeiramente atemorizante. Posso lhe dizer que vivo uma experiência miserável”...
No verão de 1802, Beethoven foi morar na pequena cidade de Heiligenstadt, perto de Viena. No clima bucólico conseguiu pensar melhor sobre sua vida e achou que deveria preparar-se para morrer. O fruto de seus pensamentos é reconhecido como "Testamento de Heiligenstadt". Na verdade, era uma longa carta escrita aos irmãos (nunca enviada e só conhecida após sua morte). Mas, não há dúvida, os destinatários últimos são todos os seres humanos:
"Oh, vós que me considerais e declarais hostil, obstinado ou misântropo, como sois injustos para comigo! Não conheceis as causas secretas que me fazem agir assim(...) E não me era possível dizer às pessoas: ’falem mais alto, gritem, porque estou surdo!’ Ah, como podia eu proclamar a falta de um sentido que deveria possuir num grau mais elevado do que qualquer outro, um sentido que outrora foi em mim mais agudo do que em qualquer dos meus colegas?(...) Estou afastado dos divertimentos da vida em sociedade, dos prazeres da conversação, das efusões da amizade (...) Estas circunstâncias levaram-me à beira do desespero e pensei, mais de uma vez, em pôr fim aos meus dias. Somente minha arte me deteve."
A surdez gradativa evidentemente influenciou o próprio estilo de Beethoven. Com a plena consciência de sua surdez total próxima, tornou-se sempre muito deprimido. E aos 52 anos de idade estava completamente surdo.
Foi na fase inicial de seus problemas que o grande mestre compôs suas obras mais românticas e de melodias da mais alta suavidade, que retratam bem seu estado de espírito: “Apassionata” e “Sonata ao Luar”, em 1804, além das Sinfonias de números 3 até 6, de 1804 até 1808.
Contam seus biógrafos que ele foi o “maestro honorário” na primeira apresentação de sua 9ª Sinfonia, mantendo-se sentado ao lado do maestro regente. Não ouvia nada de toda a execução da magnífica peça musical, mas seguia sua evolução pela partitura em suas mãos. Próximo ao final, estava atrasado alguns compassos e não notou quando a orquestra terminara. Um dos solistas veio imediatamente até ele e virou-o para a platéia que aplaudia delirantemente a obra e seu compositor.
LUÍS DE CAMÕES

Poeta épico português
O “cavaleiro fidalgo” Luís de Camões nasceu em 1524 e morreu em 1580. Quando jovem engajou-se na vida militar e serviu no Marrocos entre os anos de 1545 e 1548. Ali perdeu um dos seus olhos em escaramuças com os marroquinos. Pouco depois voltou para Lisboa e para os ambientes seletos da corte.
Tendo lá chegado, a notória deficiência passou logo a ser motivo de algumas brincadeiras e zombarias por parte de uma jovem por quem Camões sentia forte atração. Segundo amigos mais próximos do grande poeta, ela se referia a ele como “cara sem olhos”.
Ele, então com 25 anos de idade, sentiu fundo a agulhada do comentário. Mas acabou por transformá-lo em um galanteio com o seguinte verso dirigido à mimosa dama:
Sem olhos vi o mal claro
Que dos olhos se seguiu:
Pois cara sem olhos viu
Olhos que lhe custam caro.
De olhos não faço menção,
Pois quereis que olhos não sejam.
Vendo-vos, olhos sobejam,
Não vos vendo, olhos não são...
A deficiência, que poderia ter arruinado completamente a vida de um jovem galante, não prejudicou nem a vida guerreira e aventuresca, nem a vida literária de Luís de Camões, que muitos anos mais tarde, após infindáveis viagens para Goa, Malabar, Meca, Índia, China, Málaca, Malásia, Moçambique e outras terras, escreveu a famosa epopéia portuguesa que intitulou de Os Lusíadas.
TUTANKHAMON

Faraó
No ano de 1922 o arqueólogo Howard Carter descobriu a tumba intacta de um faraó que governou o Egito há mais de 3.000 anos e que morreu misteriosamente jovem: Tutankhamon. O mundo todo ficou sabendo dos riquíssimos e intocados achados e familiarizou-se principalmente com sua máscara mortuária, toda em ouro e de inestimável beleza. Nascido como Tutankhaton, com 10 anos de idade casou-se com Eneckhes-en-pa-Aton, a filha mais nova do faraó Ikhnaton (Amenophis IV) e Nefertiti. Era um adolescente quando assumiu o trono, vivendo sempre sob a tutela de sacerdotes de Tebas, partidários da antiga religião que tinha sido banida por Ikhnaton. Embora tenha começado seu reinado em El Amarna, mudou-se logo para Tebas e reinstalou a antiga capital do império egípcio. Nessa oportunidade alterou significativamente seu nome para Tutankhamon, em homenagem ao deus Amon. Depois de pouco tempo de reinado, faleceu com apenas 18 anos de idade. Foi enterrado no Vale dos Reis, em um túmulo magnífico, nunca violado.
O nome desse faraó, esquecido em seu próprio tempo e enterrado com imensa pompa e num túmulo repleto de tesouros, certamente por mera gratidão dos sacerdotes do deus Amon, volta às notícias com muita força nos dias atuais, não apenas porque foi feita uma reconstrução do seu rosto, com a utilização de alta tecnologia, mas também porque há indícios de que tenha sofrido de um mal raro: A Síndrome de Klippel-Feil.
Um dos maiores especialistas em reconstrução facial, Robin Richards, do London College, utilizou informações das chapas de raios X da múmia do faraó, datadas de 1968 e levou em consideração dados de sexo, de idade e de etnia. Com o auxílio de técnicos neozelandeses, que acrescentaram cor aos olhos, à pele e às sobrancelhas, o modelador facial britânico Alex Fort fez um modelo em fibra, que está no Museu das Ciências de Londres e que foi amplamente reproduzido nos primeiros dias de outubro de 2002 (reprodução publicada pela Internet em inúmeros sites).
No entanto, não é o rosto - totalmente diferente daquele até hoje conhecido - o que mais impressiona. O que realmente chama a atenção na radiografia dos ossos do pescoço do faraó Tutankhamon, é que eles têm uma característica muito próxima daquela identificada hoje como Síndrome de Klippel-Feil, ou seja, são "fundidos" (ver nota abaixo). Esse mal pode causar problemas sérios de deficiências, levando a anomalias musculares, dificuldades neurológicas e outras. Apenas a título de ilustração, segundo o Dr. Todd Grey, que examinou as chapas de Raios X, "Tutankhamon deveria ficar instável em pé e pode ter
andado com uma bengala ou com alguém ajudando". Grey afirma também que "apenas uma pequena queda pode ser fatal para os portadores da Síndrome de Klippel-Feil".
Que problemas incapacitantes poderão ter vitimado o jovem Tutankhamon? Na qualidade de faraó, embora reconhecido na cultura egípcia e nos meios religiosos como um ser intocável e divino, foi ele manipulado pelos sacerdotes de Amon, face aos problemas que apresentava? Foram eles que o fizeram reverter o processo de reforma religiosa, mudando inclusive seu nome para repudiar o deus único (Aton = Sol), defendido por Ikhnaton e aceitar o poderoso deus Amon (de Tutankhaton ele passou para Tutankhamon)? Por que, tendo sido um faraó inexpressivo e com apenas alguns anos de governo igualmente sem expressão, foi enterrado num túmulo com riquezas bem mais suntuosas do que outros que reinaram com maior efetividade em benefício direto do Egito e por dezenas de anos, como Ramsés II, por exemplo? Que tipo de lesão a Síndrome efetivamente causou em Tutankhamon: surdez, deficiência mental, problemas cardíacos, desordens neurológicas, spina bífida?