Benigna Brito, ex-proprietária da fábrica de confecções Montanha – actual Davion –, em Oliveira do Hospital, foi uma das vítimas mortais do acidente de ontem. Tinha celebrado o 71º aniversário no dia anterior e, à semelhança do que fizera o ano passado, escolheu o mesmo destino e percurso para celebrar. A viagem acabou de forma trágica. "A última vez que falei com ela foi no domingo e estava muito feliz com o passeio", disse ao CM Paula Brito, nora da vítima.
As notícias do acidente chegaram a Oliveira do Hospital pela televisão. Um dos quatro filhos, Mário Brito, responsável pela Davion, tentou contactar a mãe ao longo do dia, sem sucesso. A meio da tarde, recebeu um telefonema do Ministério dos Negócios Estrangeiros a informar que a mãe tinha sido uma das vítimas mortais do despiste.
"Era uma pessoa que gostava de viajar, de aventura, e não tinha problemas em ir sozinha. Que eu saiba, desta vez também foi sem ninguém", adiantou a nora.
Benigna estava divorciada e após a separação mudou-se para Lisboa, onde vivia há 20 anos. "Era muito divertida, com espírito positivo e os 11 netos adoravam-na", contou, com a voz embargada, Paula Brito.
LISTA DE ÓBITOS ENVIADA PARA PORTUGAL A MEIO DA TARDE
Na unidade hospitalar de Ceuta foram assistidos 21 portugueses, sendo que 16 tiveram alta ontem à tarde e seguiram viagem no paquete ‘Funchal' de regresso a Lisboa. Só cinco continuam internados. Uma sexta pessoa decidiu ficar a acompanhar um familiar. Os feridos graves estavam em dois hospitais de Marrocos: os mais graves no Hospital Civil de Tétuan e Hospital de M'Diq, entre Ceuta e Tétouan. Uma das vítimas que inspiravam cuidados, uma mulher, foi transferida para Rabat.
A embaixada de Portugal em Marrocos recebeu dezenas de chamadas de pessoas que queriam saber se na lista de óbitos constava o nome dos seus familiares. As autoridades marroquinas tiveram dificuldade em elaborar a lista de mortos, uma vez que no momento do acidente a identificação das pessoas se misturou. Só a meio da tarde conseguiram enviar a lista definitiva para a Secretaria de Estado das Comunidades, para que fossem avisadas as famílias em Portugal.
JOVEM COM TRISSOMIA 21 PERDE A MÃE
Uma das situações mais dramáticas testemunhadas pelos sobreviventes diz respeito a um jovem passageiro, portador de trissomia 21, que viajava no navio acompanhado pela mãe e algumas amigas. A progenitora do jovem, ao que o CM apurou, natural do Porto, faleceu no acidente. O filho sobreviveu e regressou ao navio sem saber o que tinha acontecido à mãe. Durante a tarde de ontem, depois da partida do paquete ‘Funchal' de Ceuta em direcção a Lisboa, a tripulação tentava arranjar uma forma de comunicar a notícia trágica ao jovem, com a ajuda do médico a bordo do navio. Ao que foi possível ontem apurar, a maioria das vítimas são naturais do Norte, uma vez que existiam dois grandes grupos, um de Lisboa e outro do Porto.
AVÓ DE ACTOR SOCORRE FERIDOS NO PAQUETE
Muitos passageiros não foram na excursão até Marrocos, optando por passear em Ceuta ou ficar no paquete. Judite Dias, 84 anos, mãe do cronista social Abel Dias e avó do actor Miguel Dias, ficou em Ceuta, mas viveu de perto a tragédia. "O que mais me impressionou foi um deficiente mental, já homem, que viu a mãe morrer. Ele não parava de gritar o nome dela. Foi uma tragédia", disse Judite Dias ao CM. "Os feridos começaram a chegar ao pé do barco e fomos nós os primeiros a assisti-los. Demos-lhes água, fomos buscar toalhas à piscina para os limpar, aquecemo-los com cobertores. Fizemos o que podíamos. Havia pessoas cobertas de sangue, a gritar com dores, a chorar. Outras procuravam familiares sem saber nada deles. Foi uma tragédia".
Fonte: Correio da Manhã