Alagoas tem primeiro lutador de Jiu-Jitsu com deficiência visual
Claudevan Firmino ficou cego aos 22 anos, hoje com 28, se tornou o primeiro atleta com a deficiência a participar de um campeonato de Jiu-Jitsu
Gazetaweb - com Roberta Batista

Claudevan não venceu a luta, mas recebeu uma divisa; com mais quatro ele troca de faixa
Jeitinho brasileiro na preparação para etapa do Alagoano de Jiu-jitsu O alagoano Claudevan Firmino dos Santos Costa é o primeiro atleta com deficiência visual a participar de uma competição de Jiu-Jitsu em Alagoas. O competidor estreou, neste domingo (27), na primeira etapa do Campeonato Alagoano de Jiu – Jitsu de Kimono. Aplaudido pela platéia, que ficou de pé, o esportista, de 28 anos, não venceu seu adversário, mas ultrapassou mais uma barreira em sua vida.
Claudevan explicou que quando ainda era bebê contraiu uma infecção nos olhos que, segundo seus pais, o fez ficar uma noite sem abrir sem abri-los. Com quase quatro anos, ele recebeu o diagnóstico de catarata. “Eu enxergava pouco, mas enxergava”, disse o lutador. Próximos aos 14 anos, Claudevan sentiu uma piora no olho direito. Não bastasse a catarata e a dificuldade para enxergar, ele recebeu mais um diagnóstico e o veredicto, tem glaucoma e perdeu a visão por completo aos 22 anos.

O atleta competiu na categoria médio, faixa branca
O atleta teve que reaprender a viver em sociedade. E procurou uma escola preparada para a reabilitação, a Escola de Cegos Ciro Accioly, no Centro de Maceió. Lá ele aprendeu o que é uma atividade de vida autônoma (Ava), já que com a cegueira, perdeu uma parte da orientação, também estudou informática, alfabeto Braille. E além de tudo, estabeleceu o contato com o esporte.
“Conheci deficientes visuais fazendo coisas que eu não imaginaria fazer. Eu não imaginava que uma pessoa deficiente pudesse estudar fazer uma faculdade. A cegueira é apenas um obstáculo que você tem que vencer. Tem professor cego, advogado cego, conheci outro mundo – afirmou o lutador de Jiu-Jitsu.

A platéia, no ginásio do Colégio Marista, apladiu Claudevan de pé
Na Ciro Accioly, Claudevan conheceu duas pessoas indispensáveis para sua participação no campeonato, neste domingo, seu professor Marx Engel Rodrigues Feitosa, de 25 anos, e sua esposa, Gielvana Pereira da Silva.
O professor Marx Engel surgiu na, então escola, para desenvolver o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC): a implantação do Jiu-Jitsu para o deficiente visual na escola Ciro Acioly. Ele conseguiu montar uma turma, mas eles ficaram quase um ano treinando no chão, pois a escola não tinha tatame. Claudevan se destacou entre os alunos, mas a falta de estrutura física fez com que os treinos parassem.

Claudevan faz parte da equipe Gracie Barra
Passado algum tempo, professor e aluno perderam contato. Marx Engel revelou que encontrou Claudevan e a esposa dele num ponto de ônibus, próximo a academia do professor. Ele ofereceu o espaço que possui no segundo andar de sua casa, no bairro do Poço, para que o aluno voltasse a treinar. “É através dele que eu quero que outros deficientes visuais se espelhem, e também as pessoas sedentárias”, disse Marx. Claudevan voltou a treinar e o resultado foi a estreia no campeonato alagoano. Mas eles ainda precisam de um espaço com condições básicas para que os treinos sejam mais bem aproveitados e que outros alunos cheguem.
Esporte
Marx elucidou que o Jiu-Jtisu é uma arte suave que visa à defesa. “É feito para o mais franzino conseguir vencer o mais forte”, disse o atleta. Ele esclareceu que 90% da prática é realizada no solo. Os nomes dos golpes assustam: quedas, alavancas, chaves, estrangulamentos, mas o professor garante que não se trata de nada violento. Claudevan participou da categoria médio, faixa branca, a primeira de uma série. Ele não venceu a luta, mas recebe uma divisa, com quatro já estará habilitado para mudar de faixa.

A equipe Gracie Barra é composta por cerca de 80 atletas, de crianças a adultos
O atleta também participa da mesma preparação física dos outros participantes da equipe composta por cerca de 80 alunos, uma filial, em Alagoas, da Academia Gracie Barra, que tem como representante no estado o professor Diojone Farias. Todos da equipe praticam polichinelo, flexão, alongamento sozinho, abdômen, tudo faz parte do aquecimento.
A primeira luta de Claudevan deixou sua esposa, que estava na arquibancada, nervosa. Ele dedica grande parte de sua vitória à esposa. Ele, que cursa o nono ano na Escola Nenoí Pinto, no bairro do Clima Bom, tem muitos planos, é o único “cego” na escola. Claudevan quer cursar Direito e continuar lutando Jiu-Jitsu.
“Não sou melhor nem pior que ninguém, sou limitado. Depois que eu fiquei cego eu descobri que podia fazer muita coisa. Mais coisa do que eu imaginava. Que não é impossível de se fazer” - disse o alagoano que mora no Jardim Petrópolis.
As coisas para mim só começaram a mudar depois que eu fiquei cego. Enquanto eu enxergava mal eu não tinha coragem. Passei a ter quando me incluí na sociedade, hoje, arranho no violão, faço esporte. São minha esposa e minha equipe que me incentivam, às vezes tenho vontade de desistir, mas ela me ajuda, eles me incentivam, se dispõem a ajudar – revelou Claudevan Firmino.
Para o pequeno lutador, Leony da Silva Batista, de 11 anos, Claudevan se tornou um exemplo a ser seguido. " Ele é um exemplo. Eu não me interessava. Agora que eu vi ele, eu vou até o fim. Ele é ótimo" - disse Leony, que veio da Barra de São Miguel.
http://gazetaweb.globo.com