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Autor Tópico: Combate na escuridão  (Lida 1479 vezes)

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Offline Eduardo Jorge

Combate na escuridão
« em: 21/09/2011, 22:55 »
 
É bem possível ver-se dentro da escuridão. Carlos Dinis é cego. Só tem percepção da luz. Quis ser o primeiro português cego total a fazer o exame de cinto negro de judo, mas hesitou. "Estive para desistir porque o kata – conjunto de movimentos de ataque e de defesa – é muito exigente nos passos. Não nos podemos enganar neles nem na sua sequência. É como se percorrêssemos um corredor", conta Carlos, de 54 anos.
                                                               
Puseram-se coladas no tapete, com fita adesiva, umas cordas para o guiar no percurso. E para que se mantivesse à distância regulamentar, a seis metros, do seu parceiro. Tem de haver vontade, determinação para fazer um exame como se os olhos enfrentassem o olhar do júri, como se visse o parceiro deslizar simetricamente pelo tapete, como se pudesse ver o entusiasmos dos amigos – e o sorriso deles –, como se olhasse para os seus próprios movimentos com o mesmo olhar fascinado da assistência. Exemplar. E de seguida, respondendo à ordem do júri, demonstrou confiante as técnicas que lhe pediam. É o que todo o praticante de judo ambiciona. Chegar ao cinto negro.

EXEMPLO VEM DE FORA

Manuel Oliveira e Costa, ex-deputado e antigo secretário de Estado da Agricultura de Cavaco Silva, descobriu em 2006 que os cegos também praticavam judo. Mas não em Portugal, não no país onde ele próprio tinha responsabilidades na Federação Portuguesa de Judo. Só que não tardou a organizar cá um estágio com franceses, ingleses, suecos e alemães dispostos a formar dirigentes, mestres e árbitros portugueses de judo para cegos.
Vieram também oftalmologistas para formarem os especialistas portugueses. A partir daqui, nasceu o projecto ‘Judo Total’ e puderam receber os primeiros alunos no Judo Clube de Sintra. "Tem sido positivo. O pai de um atleta nosso, de 19 anos, veio agradecer-me. O miúdo era introvertido e estaria com dificuldades em aguentar tantos problemas – cegueira, diabetes, a universidade. Desde que começou a praticar judo, é uma pessoa diferente", conta Manuel Oliveira e Costa, 62 anos e também ele judoca.

Carlos Dinis não nasceu cego. Tinha visão reduzida. E gradualmente cegou. Aos 17 anos, já com uns óculos de lentes bem grossas, começou a praticar judo, na Académica da Amadora. Chegou ao cinto azul quando, em 1980, emigrou para a Venezuela. Nunca deixou de praticar judo. Mas ao longo dos anos foi perdendo gradualmente a vista até cegar. Em 2007 entrou no projecto ‘Judo Total’.
"Fui-me habituando à cegueira e arranjando defesas para me desenvencilhar. E percebi que o judo era totalmente adaptado à minha falta de visão porque é um desporto de contacto, tem de se estar sempre agarrado ao adversário", explica.
"Nós avançamos o pé esquerdo à frente, para que este se posicione ao lado do pé direito do parceiro. Avançamos depois a nossa perna direita e varremos a perna direita do parceiro". É desta forma que Carlos Dinis aprende as técnicas – e faz o parceiro cair para trás.
Foi desta forma que o finlandês Olavi Suomalainen, 68 anos (‘Osku’ para os amigos), se habituou a praticar judo. Aos 17, para vencer uma timidez quase doentia, os pais inscreveram-no. Foi várias vezes campeão do seu país. Formou-se em Engenharia Naval e correu vários portos do Mundo, carregando consigo sempre o saco de desporto.
Em Novembro de 2004, ‘Osku’ atravessava uma rua de Astrakhan, na Rússia, quando foi colhido por um carro. Voou 33 metros. E as consequências foram devastadoras: sofreu um traumatismo craniano grave; ficou duas semanas em coma induzido; perdeu a memória; e ficou cego. Sofia Munhá, a sua mulher, conta que ele nunca perdeu o sorriso. "Não se sente nada revoltado".

No início do ano, Sofia descobriu a classe do ‘Judo Total’ e inscreveu o marido. "Ele está sempre pronto. E realmente noto que está muito mais atento, mais concentrado. A memória melhorou". ‘Osku’ não precisa de ver para saber que está de volta à vida, puxado pelo cinturão negro que tanto lhe ensinou.

Fonte: CM
 

 



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