Projecto «Judo Total»: Neste dojo somos «indomáveis»
São cegos, surdos, mudos, sofrem de paralisia infantil e deficiências motoras, mas todas as adversidades parecem dissipar-se quando chegam ao Pavilhão da Lapa, em Lisboa. Os mais autónomos vêm sozinhos, pelos seus próprios meios, de autocarro ou noutro transporte. Os restantes chegam em carrinhas, uma delas é da Casa Pia, ou acompanhados por familiares ou amigos. Neste espaço, que já viu melhores dias (as instalações estão degradadas), acontece todas as terças e quintas-feiras, a partir das 19:00 horas, uma prática de judo especial. O projecto «Judo Total» foi fundado em 2006 por Manuel Costa e Oliveira, secretário-geral da Federação Portuguesa de Judo (FPJ) e membro do Comité Paralímpico de Portugal (CPP).

Os judocas têm várias idades. O mais velho, Olavi Suomalainen («Osku» para os amigos), finlandês de 68 anos, sofreu um acidente de viação na Rússia há sete anos e perdeu a memória. Com ela desapareceu também a faculdade de visão. Agora fala inglês. Em tempos começou a aprender a língua portuguesa, mas esqueceu. Quem o relatou foi a sua mulher, Sofia Munhá, que o acompanha incansavelmente em todas as práticas e orgulhosamente vai relatando os seus progressos. Olavi é cinturão preto.

Não há acessibilidades no Pavilhão da Lapa, nem balneários adaptados. Mas a perseverança vence os obstáculos. Todos ajudam. Neste dia estavam presentes os treinadores Jerónimo Ferreira e Fernando Seabra, os únicos em Portugal com habilitações para o efeito. Os mestres levam a sua família, e a eles juntam-se voluntários e familiares. Todos são bem-vindos.

Trocada a roupa do dia-a-dia pelo judogi (nome oficial do fato de judo) os atletas deixam a bengala e a cadeira de rodas e aproximam-se do dojo («sítio do caminho») - o local onde se treinam artes marciais japonesas. Depois, são ajudados a subir ao tatame ou tatami (shiai-jô), o piso tradicional japonês onde se praticam as lutas marciais.
Um dos judocas, o Sérgio, 3º kyu, de 25 anos, tem um lindo sorriso estampado. Está a fazer a tese de mestrado e soube da iniciativa pela ACAPO (Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal). O seu cinto é verde e revela um optimismo estonteante na conversa. Entre gargalhadas, confessa que quer experimentar tudo, isto enquanto ouve uma das monitoras a falar de uma modalidade que se chama kitesurfing. Ri. Diz que já perdeu muito tempo da sua vida e que agora quer compensar. Kitesurfing parece-lhe uma grande ideia.
Enquanto uns ainda estão nos preparativos, há um adolescente cego, o Filipe, que já se sente confortável para começar a correr sozinho no tatami. E não se desorienta. Está a aquecer.

O último a chegar é Marcelo, de 16 anos. Sofre de paralisia infantil. Vem acompanhado pela mãe, a Ana, de 36, que o ajuda a sair da cadeira de rodas. Marcelo não anda mas tem uma força inesgotável. É um verdadeiro herói. Com muito orgulho, a mãe fala dos progressos de Marcelo. Diz que agora frequenta um terapeuta cubano e que tem revelado uma evolução notável. Marcelo é notoriamente um jovem muito feliz.
Neste dojo, à excepção dos mestres, a cor do cinto não importa, embora variem do branco, passando pelo amarelo, laranja, verde, ao castanho e preto. Alinhados, começa-se com a saudação e uma vénia. Depois, formam-se grupos para a corrida, que se faz em redor do tatami. Aos pares, seguem-se vários exercícios de aquecimento. O ambiente é de festa, farra mesmo. Contagiante.
Como o Marcelo não anda, a mãe fica ao centro a ajudá-lo a fazer alguns exercícios para ir aquecendo as articulações. São momentos únicos entre mãe e filho.
Deixamos o dojo por breves instantes - enquanto o treino não começa - para explorar as salas adjacentes do pavilhão. Estão visivelmente degradadas e silenciosas. O único ruído que se ouve vem da sala que deixamos para trás. Nada se passa ali, lamentavelmente, o que dita rapidamente o regresso à sala do tatami.

O espaço onde se pratica o «judo total» é despojado, embora o piso seja colorido, muito colorido, a contrastar com os fatos brancos dos judocas. Na parede, apenas se vê um relógio e o símbolo do judo, composto por um círculo vermelho dentro de um octógono branco. Embora parecido com uma flor, não é. A explicação não é consensual (há várias interpretações), mas a mais comum defende que o octógono representa o Yata-no-Kagami (o espelho mágico), uma das três relíquias passadas pelos deuses ao primeiro imperador japonês e que significa sabedoria ou honestidade. A sua cor branca representa um espírito puro, com a pureza a ser representada pelo algodão macio ou pelo tecido delicado que envolve um coração em brasa (o círculo vermelho). Esse círculo vermelho representa o espírito, e passa a ideia de um coração ardente, «o espírito que queima como ferro em brasa», cheio de fidelidade, paixão e bravura. Esse é o verdadeiro símbolo do «espírito indomável».

Assistimos ao treino e ficamos boquiabertos com a confiança e coragem de quem não vê, fala ou ouve de se atirar ao chão. Praticam quedas para trás e para os lados. São destemidos. Ali, durante uma hora e meia, sentem-se invencíveis e capazes de ultrapassar todos os limites. No Pavilhão da Lapa são todos iguais. Surdos ajudam cegos, que por sua vez ajudam mudos. Surrealmente exemplar.
Depois, vêm uns exercícios mais complexos, que consistem em tentar virar o adversário ao contrário no tapete, o que implica muito contacto físico. Os parceiros vão trocando enquanto experimentam as várias formas de ganhar a luta: derrubar o parceiro, estrangulá-lo, provocar a luxação do cotovelo e, por fim, controlar o parceiro mantendo-o de costas no chão durante 25 segundos. Há uma humildade e respeito mútuo quase que transcendente ali. O contacto físico é vigoroso, sem complacência quanto às diferentes deficiências.

O mestre Jerónimo Ferreira puxa pelos judocas. Diz-lhes que «chegou a hora de começar a trabalhar». Uns atrás dos outros, agarrados pelos dedos, a fazer pressão, percorrem o espaço. Depois, as mãos passam para as omoplatas e correm, oferecendo resistência ao parceiro. Simulam ainda carrinhos-de-mão humanos, tudo intercalado com muita brincadeira. «O que vale é que eu deixo-te fazer batota», diz um dos judocas para Ulisses, que ostenta uma barriga generosa. O cinturão verde, cujo nome vem emprestado da mitologia grega, parece mesmo um guerreiro, mas muito brincalhão. Mete-se com todos e torna aquele momento numa festa.
A próxima prática, depois de formarem uma roda, é fazerem a pega por altura do cotovelo. A alegria é evidente na cara de todos. Até quando as quedas são violentas ouve-se «oh yeah!». O relógio já marca as 20:15 horas. O treino está quase a terminar.
Olavi, o finlandês, está a sentir-se mais cansado do que habitualmente, e deixa o tatami. A mulher ajuda-o a vestir-se. Voltará na quinta-feira com força redobrada. Mas ainda faltam uns minutos para uns exercícios de resistência. Ninguém facilita. O objectivo é esquivarem-se uns dos outros, atacarem-se, puxarem-se e aproveitar o desequilíbrio do parceiro para o fazer cair. «Cair não faz mal», diz o mestre Fernando Seabra. E a verdade é que os judocas até parecem gostar. Tombar assim, desamparado, não é para todos.
Passa-se à técnica da ponte, com todos colocados em fila e de «gatas». Gritam uns pelos outros, dando-lhes alento. Parece muito divertido. Naquele dia, durante uma hora e meia, foram superados tantos limites, Os corpos estão suados, a respiração faz-se a esforço, mas valeu. O treino termina com a saudação e com a lembrança de que na próxima quinta-feira há mais.
Aquele dojo é inquestionavelmente o sítio do espírito indomável.
Manuel Costa e Oliveira, ex-deputado e antigo secretário de Estado da Agricultura de Cavaco Silva, é hoje o secretário-geral da Federação Portuguesa de Judo (FPJ) e acumula várias outras funções. É também membro do Comité Paralímpico de Portugal (CPP) e foi quem decidiu fundar, em Julho de 2006, a iniciativa «judo total».
Em entrevista, explicou que se deparou com «uma realidade inadmissível». A modalidade contemplava todas as suas vertentes, excepto o judo paralímpico. Denota-se o seu empreendedorismo e decidiu arregaçar as mangas. Lembrou-se de realizar em Portugal um estágio internacional, mas para isso teve que começar do zero. Na altura, quando presidia ao Judo Clube de Sintra, uniu esforços com a Federação Portuguesa de Desporto para Pessoas com Deficiência (FPDD), com a Associação Internacional de Desporto para Cegos (IBSA) e com o mestre Jean-Claude Prieur.
Por ser um projecto totalmente inovador em Portugal, explica que foi necessário formar dirigentes, árbitros, treinadores e oftalmologistas especializados. Os obstáculos «foram sendo ultrapassados» e o que começou por ser intitulado «Judo para Cegos» passou a «Judo Total», que abrange outras áreas de deficiência.
Além dos judocas com deficiência, há ainda um grupo de alunos surdos/cegos que são internos do Centro António Aurélio da Costa Ferreira, da Casa Pia de Lisboa. Frequentam o Pavilhão da Lapa sob a orientação do professor Ângelo Caetano.
Manuel Costa e Oliveira é pragmático a falar de projectos. Os treinos das quintas-feiras já têm uma vertente direccionada para a competição, mas ainda é prematuro antecipar o que aí virá. No entanto, avançou que está a ser ponderada uma competição em 2012 com colegas do Porto que, segundo o fundador da iniciativa, estão «ainda um pouco atrás» no projecto. Antecipa também que há planos para um estágio em conjunto com a Selecção Nacional de Judo. Os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro de 2016 não estão descartados, até porque «há alguns judocas interessados» em participar e «gente jovem com muito potencial». Mas, é como diz, o judo adaptado português ainda está numa fase embrionária.
Quanto a instalações adaptadas para a prática, o que acontece no Pavilhão da Lapa reflecte uma realidade muito presente. Há falta de fundos, de apoios e equipamentos adaptados. O fundador do «judo total» conta que há uns tapetes especiais e ainda umas bolas com guizos que a federação não tem, «mas o espírito é sempre de alento». «Há muita adaptação e assim vamos ultrapassando as dificuldades», desabafa.
Sempre com optimismo ao longo da conversa, admite, no entanto, «que há ainda um longo caminho a percorrer».
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