Desporto Adaptado: Mundiais IBSA - Cadela guia é sinónimo de relação 'pai-filha'Em 1999 trocou a bengala branca por uma cadela guia, a primeira treinada em Portugal. Aos 60 anos, Augusto Hortas não imagina a sua vida sem a companheira de quatro patas, com quem tem “uma relação de pai e filha”.
Lua, uma pachorrenta e sempre atenta Retrivier Labrador, é já a sua segunda cadela guia, depois de a primeira, Camila, ter morrido aos 11 anos devido a problemas de saúde.
Esta semana, Lua está na Turquia, onde Augusto Hortas chefia a delegação portuguesa aos Mundiais da IBSA, para atletas com deficiência visual.
Há quase 12 anos, na véspera do seu aniversário, soube que ia receber Camila, uma cadela que já tinha experimentado dois donos sem se ter adaptado, e desde aí habituou-se, como diz, “a ter sempre alguém por perto”.
Antes de levar Lua para a casa, em Vila Franca de Xira, Augusto Hortas fez um estágio de uma semana na Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual, em Mortágua, para ouvir do treinador que a ensinou durante mais de dois anos algumas indicações essenciais.
A voz de Augusto Hortas muda de tom quando se dirige a Lua para lhe dar uma das 25 ordens que aprendeu na escola, e que são essenciais para o dia a dia de ambos.
Apenas duas expressões do “léxico” de Lua não são portuguesas: o “stop” que a faz parar de imediato, e o “faz besonha”, um aportuguesamento da palavra francesa “besoin” (necessidade), quando chega a hora das necessidades fisiológicas.
Antes da entrega de Camila e depois de Lua, Augusto Hortas, cego desde os 16 anos, usava uma bengala e ainda hoje recorda o “som frio” das chegadas tardias a casa.
“Estudava filosofia à noite, e ia para casa tarde. Ouvia apenas o eco dos meus passos e o bater da bengala no chão”, conta.
Hoje, em cada um dos seus percursos, ouve “a respiração, e os passos” de Lua e sente a cauda a bater-lhe nas pernas. Por isso, afirma que perder a cadela guia “seria voltar ao princípio, em termos de mobilidade e afetividade&rdquo ;.
Juntos fazem diariamente a viagem de comboio entre Vila Franca de Xira e Alverca. Lua sabe qual a porta do comboio onde deve entrar, e à ordem “busca lugar” coloca o focinho em cima do banco, indicando ao dono o espaço onde se deve sentar.
Depois, passa o dia no gabinete onde o dono trabalha, “pacientemente sentada no seu tapete”. Acompanha-o ao almoço, e regressa a casa ao fim do dia.
Para tentar não perder o hábito do uso da bengala, Augusto Hortas utiliza-a algumas vezes em pequenos percursos. É nessa altura que percebe, ainda mais, a importância da companheira Lua.
“Quando uso bengala acabo por descobrir pontos que desconhecia, como postes ou pilaretes, porque quando a levo ela desvia-me automaticamente desses perigos e nem sequer os sinto”, afirma.
Lua é também considerada pelo dono como “uma forma fácil de aproximação” das pessoas. “Um cão chama as pessoas para nós de uma forma positiva, enquanto a bengala tem, às vezes um efeito negativo”.
A escola, que já ensinou cerca de 100 cães, continua a ser a proprietária de Lua, sendo Augusto Hortas o seu único utilizador, devido ao curso de adaptação que frequentou.
“Isso não a impede de ajudar a minha mulher, também cega, quando vamos os três juntos, tanto no dia a dia, como em viagens”, afirma, lembrando “uma ida à Madeira e outra ao Brasil”.
Lua é tratada e acarinhada como um membro da família e levada para todo o lado, sempre com um pequeno sino ao pescoço, para poder ser localizada. Em casa sabe “exatamente o que pode e não pode fazer”.
As suas entradas em transportes e estabelecimentos comerciais estão previstas na lei, mas Augusto Hortas já se viu obrigado a mover uma ação em tribunal “contra um taxista que se recusou a transportá-la”.
Augusto Hortas hesita quando se lhe pergunta como seria perder Lua 'a quem ralha e acarinha como uma filha'. Afaga-a, chama-lhe Luita, e diz que o melhor “é mesmo não pensar no assunto”.
in correio do minho