Apesar de nos últimos anos se terem registado progressos sensíveis, na problemática do cidadão portador de deficiência, os problemas persistem e continuam a ser responsáveis pela diminuta participação das pessoas deficientes na sociedade.
Um cidadão em cada dez na Comunidade Europeia sofre de uma deficiência.
O número total de pessoas com pelo menos uma incapacidade encontrada em todo o território português é de 905.488 o que corresponde à percentagem de 9,16% da população. Este valor está próximo do que foi apurado através de estudo realizado em outros países da União Europeia (Secretariado Nacional de Reabilitação, 1996).
Os problemas dos deficientes foram bem descritos e comprovados, num relatório intitulado "Os cidadãos invisíveis" publicado por diversas organizações não governamentais para assinalar o dia Europeu das Pessoas Deficientes, em Dezembro de 1995. O próprio Parlamento Europeu evocou por diversas ocasiões a difícil situação das pessoas deficientes e a discriminação a que podem ser sujeitas em toda a União (Comissão das Comunidades Europeias,1996)
Segundo Ferreira e Branco (1995) é necessário que se mudem as atitudes para que os deficientes desenvolvam as suas capacidades e "cresçam" enquanto pessoas. Crescer na relação é partilhar lugares comuns, isto é, frequentar os mesmos espaços físicos e desenvolver as mesmas actividades.
Mas ... quanto tempo passam essas pessoas em locais segregados? Será que incrementamos, apoiamos ou facilitamos essa partilha de lugares?
Por outro lado a pessoa deficiente tem direito a fazer escolhas.
Todos tem direito a optar.
Mas ... será que optamos com elas ou por elas?
Os problemas sociais que os deficientes encontram, são extremamente visíveis. De facto, existe uma opinião generalizada de que os grupos minoritários revelam falhas no que se refere à integração social. Como todos sabemos as diferenças entre as pessoas, quer sejam de raça, religião ou por deficiência, têm o seu impacto social (Lowenfeld,1964).
*Professor Associado da Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física - Universidade do Porto
Consequentemente os indivíduos deficientes geralmente mostram relações sociais muito pobres e uma integração muito limitada.
Segundo Hunt (1966) e Aufsesser (1982) citados por Shephard (1990), a estigmatização surge das dificuldades sociais que o deficiente encontra, devido à deficiência criar um estigma visível que tende a ser socialmente desacreditado.
Assim, uma vez que faz parte da natureza humana evitar estímulos negativos, as pessoas podem ter tendência para evitar relações mais próximas com a pessoa deficiente.
Como já foi referido muito se avançou no atendimento à pessoa com necessidades especiais, no entanto, façamos uma análise reflexiva comparando o processo educativo da pessoa deficiente e da sua prática desportiva, pois julgamos que existem fases semelhantes.
A educação começou por um atendimento segregado em serviços especifícos para transbordar para a integração atingindo nos nossos dias a inclusão (ainda em debate).
O conceito de inclusão vai obrigar, não a deixar os alunos deficientes estarem nas classes regulares (integração) mas a repensar todo o sistema de ensino (Correia,1997).
A integração permite o convívio e igualdade de oportunidades em serviços para todos. Mas o que é verdade é que a pessoa com necessidades educativas especiais vive no meio dos outros isolada. Isto é, há um sistema no meio de outro sistema.
No Desporto para a pessoa deficiente também é a mesma coisa.
O desporto para deficientes começou por uma orientação segregada, passando gradualmente para um sistema mais ou menos integrado. No entanto, continua a viver num isolamento principalmente em relação à comunicação social, grande público etc.. É um desporto no meio de outro desporto. Será que deverá continuar assim ?
Em Barcelona foi realizado o Iº Congresso Paralímpico Barcelona'92 com o objectivo de integrar o desporto Paralímpico no marco olímpico, na tentativa de evitar a marginalização social (COOB´92, 1992).
Assim, através do lema "Desporto sem limites" foi expressa a universalidade dos acontecimentos e o valor do desporto competitivo como elemento integrador.
Neste contexto, foi reafirmado o papel fundamental da comunicação social nesta aproximação e em nosso entender deve fazê-lo segundo o pensamento de Nietzsche (s.d.) "é necessário criar condições para poder reter o sublime".
Também as instalações foram estudadas assim como os sistemas de informação para que todos pudessem utilizá-los sem barreiras.
Mas apesar de tudo os atletas deficientes e os atletas "normais" não coabitaram no mesmo espaço na mesma altura.
Sendo o desporto por todos apontado como um meio primordial de integração, importa saber, se tem sido utilizado de maneira a alcançar correctamente tal objectivo.