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Autor Tópico: Sem família, sem afecto: a vida num orfanato para rapazes com deficiência, na Moldova  (Lida 2308 vezes)

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Offline Sininho

 
Sem família, sem afecto: a vida num orfanato para rapazes com deficiência, na Moldova


No interior de um grande e velho edifício, em Orhei, na Moldova, reside um grupo de 200 rapazes com deficiência física e/ou cognitiva que cresceram sem pais, sem afecto e em exclusão social. The Neglected, do fotógrafo dinamarquês Mikkel Hørlyck, existe para lhes dar uma voz e uma cara. "Como nunca vemos estes rapazes, enquanto sociedade é como se não existissem. Mas existem." As imagens que captou na instituição, que será encerrada em 2026, podem impressionar.

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Não há um dia na vida do jovem fotógrafo dinamarquês Mikkel Hørlyck em que não se recorde dos 200 rapazes que conheceu, em 2016, numa instituição de acolhimento para rapazes, na Moldova. “Todos eles têm deficiência, física ou cognitiva”, relembra, em entrevista por videoconferência ao P3, a partir do Arhus, na Dinamarca. “Nunca hei-de esquecer a forma como comuniquei com eles só com o olhar e com gestos, sem partilhar uma só palavra.” Ou a dor “quase palpável” que pressentiu habitar o coração de cada um. “The Neglected é mais do um retrato do quotidiano na instituição; este trabalho é sobre a ausência de afecto, de amor, de atenção, que são tão necessários ao desenvolvimento humano", diz. Sobre a ausência de pais, de família, de raízes e sobre a marca profunda que essa ausência grava nos corações de quem foi deixado ao cuidado de estranhos. E sobre a falta de inclusão.

Os internos, que têm até 40 anos e cujos nomes foram alterados pelo fotógrafo para preservação da sua identidade, vivem num grande e velho edifício na periferia da cidade de Orhei, num dos países mais pobres da Europa, a Moldova. “A pobreza é a principal razão para o abandono destas crianças”, explica, bem como “o preconceito” relativamente à deficiência, transtornos e doenças. Entre as crianças, há rapazes autistas, com síndrome de Down ou epilepsia. Praticamente nenhum tem qualquer contacto com o exterior. “As visitas são muito raras. Um dos momentos mais emotivos que vivi foi quando uma criança autista de 12 anos, o Marius, recebeu a visita do pai. Não foi o abraço entre eles que mais me tocou, mas sim a presença curiosa e triste de todos os outros rapazes, que nunca receberam ou receberão visitas.” O pai de Marius, Grigore, tem esclerose múltipla e a mãe sustenta toda a família, composta pelo marido e três filhos. “Foi por carência económica que entregaram o Marius à instituição. Não por falta de amor.” O fotógrafo conta que, no final dessa visita, muitos rapazes se dirigiram às assistentes perguntando quando iriam, também, receber os pais.

O fotógrafo de 29 anos passou três semanas no país e, ao todo, 18 dias no interior da instituição. O dia, descreve, começa com as assistentes – uma para cada um dos 18 grupos de 12 a 18 internos – a preparar o início do dia. Os grupos dirigem-se para a cantina, onde tomam a primeira refeição. “Pequeno-almoço, almoço, jantar. Por vezes, não sempre, lancham pão e leite.” A impressão que teve foi que os rapazes eram bem tratados pelas assistentes sociais. “A instituição tem poucos recursos humanos e financeiros. As assistentes, que são exclusivamente mulheres, são dedicadas e muito trabalhadoras. Dão muito de si aos rapazes e à instituição. O trabalho delas é muito duro e a falta de tempo faz com que não possam dedicar muita atenção a cada interno.”

Por esse motivo, a atenção que os rapazes receberam de Mikkel foi muito significante. “Reagiram muito à presença da câmara. Tornavam-se muito expressivos. Eu pertencia ao mundo exterior e eles queriam, claramente, mostrar-me coisas. Pareceu-me instintivo.” A carência afectiva era bem patente. “O Andrei é uma criança cega. Mas ele não parece cego. Estava sentado na sua cadeira de rodas e agarrou a minha mão. Com muita força.”

Crescer num grande edifício isolado dos centros urbanos e com grande concentração de internos não é o ambiente ideal. "As pessoas são influenciadas pelo ambiente onde vivem", explica o fotógrafo. "E eles vivem num ambiente de exclusão. Por esse motivo, o governo da Moldova tenciona encerrar a instituição em 2026. Os rapazes serão distribuídos por casas mais pequenas, no interior das vilas e aldeias do país."

Foi difícil para Mikkel fotografar aquele lugar, retratar aqueles rapazes. “O que mostrar? Como mostrar?” The Neglected não enfoca nas condições de vida dos internos, que o fotógrafo garante ter encontrado bem nutridos e asseados, mas sim na sua qualidade de vida, no que se passa no seu mundo interior. Nas fotografias que seleccionou, privilegiou aquelas que levantavam o véu sobre as suas mentes e emoções. Daí ser importante, para o dinamarquês, revelar as suas expressões, desvelar as miradas que dirigiam à câmara fotográfica – neste contexto, um símbolo do exterior que os rapazes olhavam com curiosidade, entusiasmo. “Procurei retratar uma camada mais psicológica porque a verdade, no fundo, está aí.”

Apesar de ter feito este projecto em 2016, só recentemente divulgou as imagens no jornal dinamarquês Politiken. “Tive um acidente que me causou problemas físicos, motores, e tive uma recuperação muito lenta. Só recentemente recuperei a 100%, momento em que pude, finalmente, organizar o trabalho e publicar.” Sentiu que tinha de o fazer, mesmo que já tivesse passado muito tempo. "Como nunca vemos estes rapazes, enquanto sociedade, é como se não existissem. Mas existem. É importante dar-lhes visibilidade porque eles não têm voz. É preciso que as pessoas compreendam estes lugares e que não os estigmatizem." O impacto, na Dinamarca, foi positivo, refere. "Gerou muita discussão, muitas mensagens. Creio que tocou os seus corações.”

in Público
Queira o bem, plante o bem e o resto vem...
 
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