APACI ( Associação de Pais e Amigos das Crianças Inadaptadas) de Barcelos, no decorrer de uma sessão de poesia.
Quando ouço alguém chamar «deficiente» a uma criança ou adulto com Necessidades Educativas Especiais, subo nas tamanquinhas.
Ainda se ouço a expressão: «portador de deficiência», vá que não vá, mas nem essa expressão é actualmente considerada correcta.
A própria designação «criança especial», no que às crianças se refere, foi substituida por criança com «Necessidades Educativas Especiais», cuja sigla é N.E.E.
Trata-se de uma expressão bem mais abrangente, que não transporta consigo uma carga depreciativa, nem promove o preconceito, pressupondo uma abordagem diferente, de âmbito bem mais lato, que tem implícita a necessária adequação de metodologias próprias para cada caso.
E cada caso é um caso.
Enquanto educador, todos os dias tenho esta realidade bem presente na minha profissão, e luto pela inclusão destas crianças no seio das turmas, mesmo que a experiência me mostre que as crianças ditas normais, acolhem com carinho e a necessária compreensão estes seus pares.
A exclusão vem muitas vezes da própria família, incapaz de lidar da melhor maneira com o facto de um dos seus membros necessitar de cuidados específicos, demonstrando em muitas situações que é ela própria promotora de desigualdades.
Um dos casos com que muitas vezes me deparo, é aquele que se refere a uma tendência dos pais em quase imporem ao educador um tratamento especial para estas crianças. Que é uma espécie de preconceito ao contrário, ou seja, não se pede que o educador seja capaz de colocar a sua experiência e métodos ao serviço dos resultados, tantas vezes silenciosos, mas quase se exige um «tratamento especial», pois que a condição daquele ser assim o demanda.
A avaliação de resultados, nomeadamente os escolares, já é uma avaliação especial, menos quantitativa e mais qualitativa, e confundem-se aqui as crianças com dificuldades de aprendizagem, cujos pais muitas vezes querem ver incluídas nas Necessidades Educativas Especiais, como se de verdadeiros «deficientes» se tratassem, pois assim, é quase certo que no final do ano vão ser aprovadas.
Nada de mais perverso, na minha opinião.
A igualdade faz-se fazendo-se, promovendo-se. Faz-se pela eliminação de barreiras: físicas, psicológicas e outras, e não é necessário que a criança seja colocada numa redoma de vidro pela sua condição, mas sim junto dos outros alunos, sendo-lhe possibilitadas o máximo de experiências possíveis.
Faltam técnicos, faltam professores nas escolas, faltam turmas mais reduzidas para que os resultados alcançados sejam bem mais satisfatórios.
No Desporto, área à qual estou ligado, as adaptações são um facto, e conseguem-se resultados extraordinários no aumento da auto-estima e felicidade, e o próprio país tem brilhado internacionalmente nas competições.
Quando se discutiu recentemente se um atleta com uma prótese, um velocista, com excelentes marcas, cuja nacionalidade não tenho agora presente, poderia competir lado a lado com atletas «normais», participando nas olimpíadas, no fundo, estava a discutir-se integração, igualdade.
Falta que os homens sejam fraternos entre si, a igualdade surgirá sem que seja preciso proclamá-la.
Da próxima vez que usar a palavra «deficiente», pense um pouco em si próprio, e sinta se é capaz de ser «eficiente» e mudar dentro de si um pouco dessa, afinal, especial condição.
Por: José Torres