Se não pusesse as mãos na vedação electrificada, obrigavam-me a pôr a língua", contou, ontem, em tribunal, Rui Manuel Machado, após pedir que saísem da sala os quatro membros da família de Vila Verde que acusa de o terem escravizado. Arguidos negam acusação.
A alegada vítima de escravidão durante 25 anos relatou, no Tribunal Judicial de Vila Verde, vários episódios a que era sujeito numa quinta daquele concelho. "Batiam-me sempre e não sei porquê. Estava sempre a apanhar porrada. Obrigavam-me a baixar as calças e davam-me com chicotes feitos de cabos eléctricos", contou, aos juízes, Rui Manuel Machado.
O homem, que tem uma ligeira deficiência, relatou ainda que trabalhava desde as seis horas até à meia-noite. "Às vezes, ficava a trabalhar até à uma hora da madrugada. Ficava a limpar carpetes, arrumava a cozinha e limpava o chão", continuou a relatar.
Rui Manuel Machado confirmou ainda grande parte dos factos da acusação, muitos deles que o deixaram com sequelas físicas e mentais irreversíveis. "Lavava a vacaria toda. Tinha de utilizar, com as mãos, lixívia, ácidos e água-forte. Para curar? Eles abriam-me as mãos e deitavam tintura de iodo", afirmou.
Rui Manuel Machado lembrou que só foi levado ao médico uma vez, apesar de ter admitido perante os juízes que nunca tinha ficado doente. Portador de uma deficiência moderada, não soube dizer em que dia nasceu nem como iria até à sua actual morada. Quantos aos "primos", era assim que tratava os quatro arguidos, um casal e dois filhos, donos de uma exploração agrícola, afirmou: "Nunca comi na mesma mesa com eles".
Durante esta primeira sessão do julgamento, Rui Machado disse, ainda, que nunca teve roupa nova. "Eram as roupas do Pedro. Apenas na primeira comunhão e na comunhão solene é que tive roupa diferente". Acrescentou que só tinha "um par de galochas para o Inverno e andava descalço no Verão". Também referiu que praticamente nunca tinha andado na escola, e que nunca viu televisão, nem esteve em Braga, nem recebeu dinheiro pelo seu trabalho .
Acusa ainda aquela família de Vila Verde e o ter deixado passar fome. Por isso, fugia para uma vizinha. "A Sameirinha dava-me de comer", referiu.
Os arguidos negaram as acusações. Antes de Rui ter falado, Casimiro Silva, sua mulher e dois filhos, refutaram ter exercido maus tratos ou obrigado Rui a trabalhos forçados. “Ele era tratado como os nossos dois filhos”, disse Casimiro Silva, explicando que tentou pôr o Rui na escola, onde andou “mais de dois anos”.
“Tentei pô-lo no ensino especial mas tive de o tirar, pois os professores diziam que ele prejudicava a aprendizagem das outras crianças”, acrescentou Casimiro Silva, que admitiu que Rui comia numa mesa ao lado da deles, mas negou que dormisse fora da casa.
Explicou que as mazelas que o Rui apresentava eram fruto dos acidentes de trabalho na quinta. E quanto à renumeração disse que Rui era um elemento da família e que ninguém dentro do agregado familiar recebia pelos trabalhos.
Fonte: JN