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..:: Deficiente-Forum - Inclusão Social ::.. Responsável Ana-S => Preconceito e Descriminação, Exclusão Social => Tópico iniciado por: Eduardo Jorge em 01/10/2010, 23:37

Título: População de Pereira prepara-se para celebrar “missa do silêncio”
Enviado por: Eduardo Jorge em 01/10/2010, 23:37
Domingo a comunidade recebe os dois novos sacerdotes, nomeados pela Diocese de Coimbra e promete “respeito”, mas, sobretudo, silêncio

É mais um sinal de protesto contra a Igreja e em especial contra o bispo de Coimbra pelo facto de impedir que o João, um jovem da freguesia de Pereira, dê rumo à sua vocação, percorrendo os caminhos do seminário. A “manifestação” promete ser pacífica, e está marcada para domingo, coincidindo com a celebração da missa, na qual vão ser apresentados os novos sacerdotes, nomeados pela Diocese de Coimbra – cónego Aurélio de Campos e padre Manuel António Pereira Ferrão -  que assumem, de ora em diante, o acompanhamento religioso daquela paróquia.

O ambiente que se vive na vila é confrangedor e a verdade é que ninguém quer, para já, “dar a cara”. Certo é que há um “movimento organizado”, que já esteve por detrás do protesto realizado na semana passada e pretende dar-lhe continuidade. Há, todavia, sentimentos mais radicais, que defendem, inclusive, o encerramento da igreja a cadeado, mas acabaram por não ter a necessária consistência e, em nome do bom senso,  a ideia foi colocada de lado, tanto mais que se trata de receber os novos párocos. «Vamos recebê--los, com respeito... mas em silêncio», garantiu-nos uma fonte próxima do “movimento”, inteiramente solidária com o jovem e revoltada com a decisão, tomada pelo bispo de Coimbra, que só tem uma justificação: «a deficiência motora do João».
Houve ainda quem aventasse um “boicote” presencial, ou seja, admitiu-se a possibilidade de, domingo, haver uma abstenção geral à eucaristia, mas também essa hipótese foi, «por respeito» posta de lado. E a solução encontrada foi a do silêncio. «Domingo vamos celebrar a missa do silêncio. Este vai ser o nosso protesto», garantiram ao Diário de Coimbra, sublinhando que «não há catequese» e o coro, que habitualmente acompanha as cerimónias religiosas de Pereira, desta vez «não vai cantar», da mesma forma que os paroquianos, que prometem encher a igreja matriz na missa das 11h00, vão manter os lábios bem cerrados, escusando-se a uma participação activa e interventiva na cerimónia litúrgica. «Ninguém fala, o silêncio vai ser a nossa forma de protesto contra esta situação» e, garantem-nos, vai manter-se «enquanto o senhor bispo mantiver a sua decisão».

Sinais de luto
Ao silêncio do protesto, vai juntar-se o negro, símbolo do luto e do pesar que Pereira está a viver. Assim, segundo conseguimos apurar, uma faixa preta vai emoldurar a Cruz de Cristo. Preta  será, também, a cor da opa que os irmãos da Misericórdia vão usar na missa de domingo.
«Há uma grande revolta em Pereira», garantem-nos, sublinhando a «enorme injustiça que a Igreja está cometer, ao discriminar um dos seus filhos só porque tem uma deficiência». «E não se trata de uma deficiência profunda», acrescentam, sublinhando que o jovem João, apesar de algumas dificuldades, «consegue andar sozinho».
A população não tem dúvidas que a deficiência física do João esteve na base da decisão, tomada por D. Albino Cleto. Aliás, foi essa a única explicação que o responsável máximo da Diocese avançou, numa reunião com uma “delegação” de Pereira. Um encontro que, segundo apurámos, se realizou na semana passada e que tornou mais veemente a animosidade que se fez sentir a partir do momento em que se soube que o João tinha sido “expulso” do Seminário de Leiria, depois de ter cumprido o ano propedêutico.
As reacções são de amargura e  revolta. «Esta não é a minha Igreja! Acredito em Deus, mas esta não é a minha Igreja!», dizem-nos. E foi este estado de espírito que levou, como oportunamente noticiámos, a população a transformar a missa do domingo passado numa manifestação de protesto. Era suposto que o coro não cantasse, mas alguns dos elementos que o integram tinham familiares que celebraram o crisma e acabaram por fazer a sua voz. Mas aos cânticos sobrepuseram-se os protestos de vários devotos, que acabaram por abandonar a igreja. Agora prometem silêncio.

Curso de Teologia
na Católica do Porto
Em silêncio mantém-se, desde a primeira hora, o jovem João, que se escusa a tecer quaisquer considerações sobre o que se está a passar consigo. Silêncio, também, relativamente às manifestações de solidariedade e indignação que a população já cumpriu ou pretende levar a cabo. E também a família afina pelo mesmo “diapasão”. A mãe continua, incansável, noite e dia, a confeccionar as afamadas queijadas, que vende para ajudar a sustentar a família. E agora os gastos aumentaram, uma vez que o João deixou o seminário. Segundo apurámos, está no Porto, na Universidade Católica, a frequentar o curso de Teologia. De uma forma ou de outra, o jovem continua a seguir os caminhos da fé...

Fonte: Diário de Coimbra