“A exclusão das pessoas com deficiência está cultural e historicamente enraizada” - Inês Sequeira, CEO da Rede Capital SocialSAPO
J.M.A
08 Junho 2026 09:23
Inês Sequeira, cofundadora e CEO da Rede Capital SocialA nova Estratégia Nacional para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026–2030 procura corrigir falhas identificadas na execução do plano anterior e reforçar a inclusão em áreas como o emprego, a educação e a participação cívica. Em entrevista, Inês Sequeira, cofundadora e CEO da Rede Capital Social, defende que a inclusão laboral exige menos intenções e mais execução, num momento em que mais de 15 medidas do plano da organização foram incorporadas na estratégia nacional.
Recentemente foi apresentada a nova Estratégia Nacional para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026–2030, num momento em que também a União Europeia discute novas respostas para combater pobreza e exclusão. O que representa concretamente esta Estratégia e porque pode ela tornar-se decisiva para a inclusão das pessoas com deficiência em Portugal?A nova
Estratégia Nacional para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026–2030 vem reforçar o compromisso do Estado com a promoção dos direitos humanos, da igualdade de oportunidades e da inclusão plena destas pessoas, nomeadamente ao nível da acessibilidade, autonomia, vida independente e participação ativa na sociedade. Particularmente relevante é o facto de esta Estratégia reconhecer as fragilidades na capacidade de execução da anterior estratégia, procurando agora colmatar estas falhas numa lógica de proximidade entre os vários stakeholders: Estado, autarquias, setor social e solidário, organizações representativas das pessoas com deficiência, os grupos de autorrepresentantes e a sociedade civil no seu todo. Ao reconhecer a persistência de desafios estruturais em áreas cruciais como a acessibilidade, o emprego, a educação, a proteção social, a saúde, a habitação e a participação cívica, esta Estratégia pode tornar-se decisiva para conseguir alcançar os progressos de que a inclusão de pessoas com deficiência em Portugal necessita.
O alargamento do Modelo de Apoio à Vida Independente (MAVI) e do conceito de acessibilidade, a revisão de legislação, a atenção dedicada a grupos particularmente vulneráveis, como as mulheres e raparigas com deficiência, a aposta na formação de profissionais da Administração Pública e na promoção de um ensino verdadeiramente inclusivo, e o desenvolvimento de plataformas de dados e o reforço do Observatório da Deficiência e Direitos Humanos (ODDH), que serão fundamentais para contribuir para o acesso a dados que permitam informar o desenho de políticas públicas, são exemplos de medidas com um grande potencial de transformação da vida das pessoas com deficiência.
Caso esta Estratégia seja executada com sucesso, e para que isso aconteça, parece-me que só será possível se houver a capacidade de trabalhar em estreita articulação com todos os stakeholders e desta forma ultrapassar os desafios operacionais da estratégia que lhe antecedeu, só assim poderá vir a contribuir significativamente para a inclusão das pessoas com deficiência no nosso país.
" Em Portugal, persiste a dificuldade de transformar planos de intenções políticas em planos de ação.A nova Estratégia Nacional para os Direitos das Pessoas com Deficiência 2026–2030 reconhece fragilidades importantes na execução da estratégia anterior, sobretudo ao nível da articulação, monitorização e impacto das medidas. Porque continua a ser tão difícil transformar compromisso político em mudança estrutural e mensurável na vida das pessoas com deficiência?
Em Portugal, persiste a dificuldade de transformar planos de intenções políticas em planos de ação, o que está associado a vários fatores, como a cada vez mais curta duração dos ciclos políticos, a falta de celeridade e articulação com os diferentes stakeholders mas também entre as várias áreas governativas, o modelo de governance, e a fraca cultura de dados, que compromete o desenho de políticas públicas informadas e a medição do seu impacto, e de trabalho em rede. A questão da articulação dos vários stakeholders é especialmente importante se considerarmos que a inclusão de pessoas com deficiência exige a mobilização coordenada de diferentes áreas governativas, instituições públicas, organizações sociais, empresas e sociedade civil.
Note-se ainda que a exclusão das pessoas com deficiência está cultural e historicamente enraizada, pelo que é necessário alterar a cultura e as mentalidades, a par de criar e executar políticas públicas eficazes.
Assim, e ainda que Portugal tenha várias e boas políticas públicas e legislação nesta matéria, a dificuldade de execução, coordenação e avaliação das mesmas dificulta frequentemente a tradução do compromisso político na transformação da vida destas pessoas. O caminho assentará necessariamente na articulação institucional, no trabalho em rede, na auscultação e no diálogo com os diferentes stakeholders e na aposta em políticas públicas que também permitam desconstruir preconceitos em relação à deficiência.
A Rede Capital Social é uma organização criada para promover soluções inovadoras para desafios sociais através da filantropia estratégica, do trabalho em rede e da produção de conhecimento. Reúne empresas, fundações, universidades e organizações da sociedade civil com o objetivo de apoiar políticas públicas mais eficazes e sustentáveis.
A empregabilidade das pessoas com deficiência constitui uma das suas principais áreas de intervenção. Em 2026, apresentou um Plano de Ação para a Promoção da Empregabilidade de Pessoas com Deficiência, desenvolvido em parceria com entidades dos setores empresarial, jurídico e social, reunindo propostas destinadas a reforçar a inclusão no mercado de trabalho e a combater a exclusão social.
Em várias intervenções públicas, tem defendido que a inclusão não pode continuar a ser tratada apenas como responsabilidade social ou gesto de boa vontade. O mercado de trabalho português ainda olha para a deficiência sobretudo através de uma lógica assistencialista?
Sim, sem dúvida. O mercado de trabalho, e a sociedade em geral, continuam a olhar para a deficiência não só a partir de uma lógica assistencialista, como capacitista, não reconhecendo o verdadeiro valor, económico, inclusive, de integrar pessoas com deficiência no mercado laboral.
Se a empregabilidade de pessoas com deficiência é também uma questão de responsabilidade social das empresas, por outro lado, é importante que as empresas compreendam que a contratação destas pessoas pode aportar valor para as suas organizações, afastando, assim, a ideia de que um trabalhador com deficiência representa um mero ato de caridade que se traduz num fardo e atraso para a sua produtividade. Com efeito, hoje reconhece-se a relação entre equipas diversas e inclusivas e a sua capacidade de inovação, colaboração e resiliência. Adicionalmente, níveis de motivação mais elevados estão também associados a uma maior produtividade, podendo a inclusão laboral de pessoas com deficiência contribuir positivamente para o desempenho económico das empresas.
Neste sentido, é urgente que as empresas reavaliem as suas estruturas, e considerem e valorizem outras valências tradicionalmente ignoradas pelo mercado de trabalho, questionando normas e paradigmas estabelecidos que não só excluem esta minoria, como privam as empresas dos benefícios associados à contratação de pessoas com deficiência.
" O mercado de trabalho, e a sociedade em geral, continuam a olhar para a deficiência não só a partir de uma lógica assistencialista, como capacitista, não reconhecendo o verdadeiro valor, económico.
Mais de 15 das 20 iniciativas do Plano de Ação da Rede Capital Social para a empregabilidade de pessoas com deficiência estão alinhadas com prioridades agora inscritas na nova Estratégia Nacional. O que significa isso: que a sociedade civil está hoje a antecipar respostas que o Estado demorou demasiado tempo a estruturar?
A Rede Capital Social (RCS) concebe a filantropia como um complemento às políticas públicas, não se substituindo ao Estado, mas funcionando como um laboratório, catalisador, financiador de inovação e acelerador da mudança sistémica. Através do advocacy, pretendemos complementar o Estado através da identificação de alterações legislativas e de políticas públicas necessárias para a resolução dos problemas sociais identificados com os stakeholders.
Neste contexto, a RCS teve a capacidade de auscultar e agregar vários stakeholders relativamente ao tema da inclusão das pessoas com deficiência, com ênfase na questão da empregabilidade, cujo resultado é este Plano de Ação com iniciativas concretas de filantropia e advocacy para melhorar as taxas de emprego de pessoas com deficiência. Neste sentido, acreditamos que a integração de mais de 15 iniciativas do nosso Plano de Ação na Estratégia do Governo é precisamente uma prova da nossa capacidade de antecipação ao Estado relativamente à identificação das necessidades e respostas para o tema da empregabilidade de pessoas com deficiência. O trabalho em rede, como aquele que realizámos no âmbito deste Plano de Ação, permite assim poupar recursos ao Estado, bem como antecipar e apoiá-lo na criação respostas aos problemas sociais.
Defendo sempre que só se conseguem respostas eficazes a problemas complexos através de inteligência coletiva. Precisamos de maior humildade e entendermos de uma vez por todas que é crucial incluir os beneficiários nas respostas sociais pois só assim as mesmas serão eficientes.
Muitas empresas afirmam querer ser mais inclusivas, mas os números de empregabilidade continuam baixos. Onde estão hoje os principais bloqueios: no recrutamento, na formação, na adaptação dos contextos de trabalho ou na própria cultura empresarial?
Os bloqueios são vários, nomeadamente aqueles que referiu. No entanto, diria que o principal fator responsável pela exclusão laboral de pessoas com deficiência são os preconceitos, as falsas crenças e as falácias que persistem sobre a deficiência, em geral, e que são simultaneamente o resultado e o motor de uma fraca cultura de inclusão ativa e sustentável, verificada desde logo em ambiente escolar. Estes preconceitos são ampliados por culturas empresariais pouco flexíveis e inclusivas. Logo, é importante convencer as empresas do valor que a contratação de pessoas com deficiência pode aportar à sua organização, urgindo desconstruir mitos em torno da deficiência.
" Defendo sempre que só se conseguem respostas eficazes a problemas complexos através de inteligência coletiva.
Muitas empresas referem não haver uma bolsa de candidatos suficiente, mas isto não significa que não existam pessoas com deficiência que queiram trabalhar. Significa que o sistema está a falhar, uma vez que muitas destas pessoas não chegam a candidatar-se a vagas de emprego, por falta de confiança ou qualificações, o que remete para a necessidade de promover um sistema de ensino inclusivo que fomente a autonomia, a confiança e o desenvolvimento das competências de pessoas com deficiência. De facto, a evidência comprova que o sucesso na inserção profissional não depende exclusivamente de competências técnicas, mas também de fatores como autoestima, confiança, competências sociais e redes de apoio, pelo que a promoção da autonomia e da confiança é um pilar essencial para a empregabilidade sustentável das pessoas com deficiência. O foco no fomento de um sistema de educação inclusivo em idade precoce permitirá que mais jovens com deficiência optem pelo prosseguimento de estudos no ensino superior e pela procura ativa de emprego, contornando assim profecias autorrealizáveis.
Adicionalmente, é também necessário que as empresas repensem os seus processos de recrutamento, de forma a torná-los mais inclusivos, concedendo uma verdadeira oportunidade às pessoas com deficiência de concorrer a vagas em condições de igualdade face aos candidatos sem deficiência. Mais, a formação e a adaptação dos contextos de trabalho são fulcrais para uma verdadeira inclusão laboral de trabalhadores com deficiência, os quais, mais do que integrados nas empresas, devem ser incluídos nas mesmas.
A discussão sobre deficiência continua frequentemente limitada à acessibilidade física. Mas a exclusão também acontece de forma invisível: na progressão de carreira, na autonomia financeira ou na ausência de representação. Ainda olhamos demasiado pouco para a dimensão estrutural da exclusão?
Sim, basta pensarmos que o símbolo internacional da deficiência é uma cadeira de rodas, tendo a ONU proposto um novo símbolo, que reflete os vários tipos de deficiência, apenas em 2015. Trata-se de uma característica muito humana: a análise redutora e simplista de problemas que são, na sua natureza, complexos e sistémicos. Mas é precisamente por a exclusão acontecer também – ou sobretudo – de forma invisível que o nosso Plano de Ação não inclui apenas iniciativas relacionadas com a acessibilidade física de pessoas com deficiência, como a promoção da acessibilidade total nos transportes públicos, mas também medidas que vão desde a promoção de um sistema de ensino mais inclusivo e da autoconfiança de pessoas com deficiência ao seu acompanhamento na transição da escola para o trabalho.
De facto, a exclusão das pessoas com deficiência é estrutural, começando desde logo nas escolas, que ainda são pouco inclusivas, afetando, a jusante, o mercado de trabalho e todas as áreas necessárias à sua plena inserção na sociedade. A falta de autonomia financeira, associada a baixos níveis de empregabilidade, de progressão na carreira e de inclusão no local de trabalho, mesmo quando ultrapassada a questão da colocação no posto de trabalho, bem como a falta de representatividade nas várias esferas da sociedade, funcionam como entraves ao pleno gozo dos seus direitos, sendo tão ou mais excludentes do que as barreiras à acessibilidade física.
" A exclusão das pessoas com deficiência é estrutural, começando desde logo nas escolas, que ainda são pouco inclusivas, afetando, a jusante, o mercado de trabalho e todas as áreas necessárias à sua plena inserção na sociedade.
O Plano de Ação da Rede Capital Social envolve empresas, consultoras e sociedades de advogados num esforço conjunto para criar soluções mais eficazes. A inclusão profissional das pessoas com deficiência exige hoje menos discursos e mais compromisso operacional e mensurável?
A inclusão profissional de pessoas com deficiência, assim como vários outros problemas sociais em Portugal, exige trabalho em rede para a procura e criação de soluções. Neste sentido, um Plano de Ação capaz de apresentar iniciativas concretas, acionáveis e mensuráveis, coconstruído com o apoio de consultoras e sociedades de advogados de renome (Deloitte, CCA, Morais Leitão, PLMJ e With Company), a partir das auscultações realizadas junto de vários stakeholders (pessoas com deficiência e seus familiares, ONG, responsáveis por políticas públicas, órgãos de comunicação social e empresas), como o que propomos, parece ser a estratégia mais eficaz para promover a inclusão profissional destas pessoas.
Com efeito, o grande fator diferenciador deste Plano é ser o culminar deste esforço conjunto de auscultação de diferentes entidades e de trabalho em rede com as entidades supramencionadas, assim como o facto de procurar o compromisso das empresas e fundações com objetivos acionáveis e mensuráveis. É, portanto, importante priorizar o compromisso em detrimento do discurso, ainda que acreditemos na importância deste último para a sensibilização sobre o tema.
A Rede Capital Social está ainda a desenvolver um modelo de avaliação de impacto com o apoio da Equator Company, que permitirá medir o impacto do Plano, o que é fundamental para os investidores e para a própria organização.
" A exclusão das pessoas com deficiência do mercado de trabalho implica uma perda de talento, de diversidade e de capacidade de adaptação, inovação, resiliência e construção de soluções inclusivas.
Em entrevistas anteriores, tem insistido na importância de medir impacto social e criar respostas sustentáveis. No caso concreto da deficiência, que indicadores deveriam realmente preocupar-nos quando avaliamos o sucesso, ou o fracasso, das políticas públicas?
Estamos, neste momento, a trabalhar com a Equator Company, empresa de consultoria em sustentabilidade, para concluir o modelo de avaliação de impacto do Plano de Ação até ao final de junho. Este modelo incluirá os indicadores e critérios de sucesso da execução do Plano.
Em todo o caso, alguns dos indicadores habitualmente utilizados para avaliar o sucesso das políticas públicas na promoção dos direitos das pessoas com deficiência são a taxa de abandono escolar, a taxa de conclusão do ensino superior, a taxa de risco de pobreza desta população e as taxas de emprego e desemprego de pessoas com deficiência, bem como a sua evolução.
Importa igualmente analisar indicadores complementares, como a disparidade destas taxas entre pessoas com e sem deficiência, a taxa de emprego e desemprego de pessoas com deficiência grave, a situação de desemprego de longa duração, a distribuição do emprego por faixa etária e sexo e a evolução do número de trabalhadores com deficiência no setor privado.
Quando uma pessoa com deficiência fica sistematicamente afastada do mercado de trabalho, o que é que a sociedade perde realmente, para além dos números e das estatísticas?
A sociedade perde grande parte do contacto com esta minoria, caracterizada pela diversidade dos seus perfis e, consequentemente, pela pluralidade de contributos que pode proporcionar. A exclusão das pessoas com deficiência do mercado de trabalho implica uma perda de talento, de diversidade e de capacidade de adaptação, inovação, resiliência e construção de soluções inclusivas, que tanto enriquecem a sociedade como as organizações.
Por outro lado, o afastamento sistemático das pessoas com deficiência do mercado de trabalho limita as suas oportunidades de desenvolver competências interpessoais, entre outras, bem como a sua autoconfiança, aspetos fundamentais para uma participação mais plena e para interações mais enriquecedoras em sociedade. Neste sentido, a exclusão laboral de pessoas com deficiência enfraquece a coesão social, além de perpetuar preconceitos.
Mais, a inclusão laboral de pessoas com deficiência afeta positivamente o bem-estar dos colaboradores e de todos aqueles que com elas interagem, contribuindo para uma cultura organizacional mais inclusiva e saudável. Fonte: sapo.pt Link:
https://sapo.pt/artigo/a-exclusao-das-pessoas-com-deficiencia-esta-cultural-e-historicamente-enraizada-ines-sequeira-ceo-da-rede-capital-social-6a267b6bbc2bfc709ff3eff5