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..:: Deficiente-Forum - Temas da Actualidade ::.. Responsável: Nandito => Bem - Estar, Saude e Qualidade de Vida => Primeiros Socorros & Banco de Sangue => Tópico iniciado por: migel em 26/03/2010, 19:10

Título: Dador de Sangue dia Nacional -27 de Março
Enviado por: migel em 26/03/2010, 19:10
Dia Nacional do Dador de Sangue-27 de Março

(http://www.anossavoz.com/fotos/sangue.jpg)
A solução corre nas nossas veias

Após uma fase um pouco conturbada que afectou o sistema de abastecimento de sangue nos hospitais portugueses e com o aproximar do Dia Nacional do Dador de Sangue, comemorado no dia 27 de Março, a revista País Positivo entrevistou Gabriel de Olim, presidente do Instituto Português do Sangue (IPS), que falou sobre ambos os acontecimentos e a importância da doação.

Apesar da realidade ser francamente positiva no que concerne ao sistema nacional de abastecimento de sangue, importa relembrar que tanto o Instituto Português do Sangue, como os hospitais portugueses dependem das dádivas das pessoas. Segundo a óptica de Gabriel de Olim seria descabido importar sangue, pois constituiria uma grande humilhação solicitar sangue a outros países, uma vez que este também corre nas veias dos portugueses e depende inteiramente deles evitar a ruptura das reservas nacionais de sangue. “O sangue é algo que corre nas veias de todos nós e assim sendo devemos partilhá-lo em prol do bem-estar da comunidade. Esta é uma noção presente em todos os portugueses, no entanto nem sempre é suficiente para que todas as pessoas doem sangue e, por conseguinte, é exigido um grande esforço de promoção à dádiva e um combate contra alguns receios, como o das agulhas, e preconceitos relativamente à doação. Nesse sentido, importa realçar que estes objectivos são atingidos através de acções de formação e de uma forte ligação com os promotores da dádiva e as diversas associações de dadores de sangue, que constituem um movimento de solidariedade bem implementado no país e que tem prestado um importante contributo na divulgação da relevância vital da doação de sangue”, reitera o presidente do IPS.
Assim, partindo do pressuposto que as pessoas vão doar sangue, compete ao Ministério da Saúde, ao IPS e hospitais terem as estruturas preparadas para receber essas dádivas. De uma forma geral este sistema baseia-se no facto do governo garantir os meios de colheita, de processamento e da qualidade dos componentes, dos dadores garantirem as doações e, por último, dos doentes terem acesso aos componentes com confiança na sua eficácia e segurança. Actualmente temos vindo a assistir a um crescente aumento do consumo de sangue, que resulta da conjugação de diversos factores, nomeadamente a maior produtividade dos serviços de saúde através da recuperação das listas de cirurgias, do maior envelhecimento da população, do aumento do número de doentes, de uma crescente tecnologia e à realização de mais transplantes de órgãos. “Portugal está a desenvolver melhores sistemas de intervenção o que se traduz em melhores cuidados de saúde para os portugueses, contudo esta nova realidade precisa de ser suportada por um aumento de dádivas de sangue. Aliás, cerca de 700 pacientes recebem diariamente transfusões de sangue e por isso mesmo esta situação tem de estar acautelada. Sublinhe-se que este universo de doentes corresponde praticamente a situações de cirurgia programada. Assim, o nosso sistema tem de estar preparado para responder diariamente ao consumo dos hospitais e ter uma reserva que permita que a resposta à procura possa aumentar até quatro vezes, sem que haja ruptura”, indica Gabriel de Olim.
Relembre-se que há dois anos atrás o IPS desenvolveu uma ferramenta de monitorização do consumo de sangue a nível nacional, que permite analisar, hora a hora, o consumo médio diário de sangue nos hospitais e a quantidade de cada tipo de sangue existente em reserva. “Desta forma, o IPS tem a noção do perfil de cada hospital relativamente ao consumo de sangue. Suponhamos que um hospital tem 280 sacos de sangue e utiliza, em média, 70 sacos diariamente, isto significa que a procura pode aumentar até quatro vezes que o mesmo tem capacidade de resposta para qualquer situação inesperada. Por isso mesmo, a nossa preocupação é garantir uma reserva mínima suficiente para quatro dias de consumo nos hospitais”, esclarece o nosso interlocutor.
Presentemente, o IPS é responsável pela colheita de 60 por cento do sangue, a nível nacional, estando os restantes 40 por cento a cargo de alguns hospitais. Atendendo a este facto, o IPS garante o reabastecimento das reservas de sangue dos hospitais e, por conseguinte, tem de possuir uma reserva própria para manter em funcionamento o sistema de reabastecimento. “Portanto, desde há dois anos, altura em que o País conseguiu níveis de doação de sangue de nível europeu (40 doações/por mil habitantes) que o esforço do IPS se tem concentrado em evitar que a reserva de quatro dias dos hospitais diminua e que se mantenha uma reserva no IPS suficiente para, pelo menos, três dias, de forma a garantir o reabastecimento dos hospitais”, indica Gabriel de Olim.

Ruptura nas reservas de sangue?
Atendendo ao actual sistema implementado, o que aconteceu no passado mês de Fevereiro foi uma situação excepcional que resultou da conjugação de uma série de factores. Em primeiro lugar, os meses de Janeiro e Fevereiro correspondem ao período do ano em que o número de colheitas é o mais baixo. Isto acontece por diversos motivos: - porque no mês de Dezembro existe uma forte campanha de promoção à dádiva e, consequentemente, nos meses seguintes os dadores regulares diminuem; os estudantes universitários são bons dadores contudo Janeiro e Fevereiro coincidem com a época de exames e, por conseguinte, existe uma menor mobilização de dadores. De igual forma, temos vindo a assistir ao encerramento ou à diminuição do pessoal em várias empresas, o que provoca uma diminuição de locais e do número de dadores disponíveis. A par destes factores, Portugal enfrentou uma sucessão de fins-de-semana marcados por condições meteorológicas desfavoráveis, o que pode ter contribuído para que as pessoas não se deslocassem até aos locais de colheita. “Contudo, é importante referir que comparativamente a meses homólogos não houve diminuição das colheitas, mas mesmo assim estas não foram suficientes para fazer face ao crescente consumo”, revela Gabriel de Olim.
Curiosamente, a par da estagnação no número de doações neste princípio do ano , houve um aumento do consumo, mais concretamente em cerca de 200 sacos por dia. Havendo uma estagnação da oferta e um aumento da procura, isto resulta num desequilíbrio. Importa, no entanto, explicar que em momento nenhum existiu ruptura nas reservas de sangue, o que aconteceu é que as reservas desceram a níveis que colocavam em risco o reabastecimento dos hospitais. “Perante a análise dos números, e utilizando o sistema permanente de monitorização das reservas de sangue, que é um dos sistemas mais sofisticados do mundo, foi possível evitar que atingíssemos uma situação de ruptura lançando, atempadamente, um apelo em que se alertava para a falta de sangue e para a necessidade de doação urgente de modo a que fossem repostas as reservas nacionais. Este é um pedido extremamente difícil de fazer ao país, por isso mesmo foi necessário termos a noção do momento exacto para fazermos. Após lançarmos este apelo, aumentámos a capacidade de colheita, mantendo os centros regionais abertos aos fins-de-semana e no dia de Carnaval, algo apenas possível devido à dedicação dos colaboradores do IPS. O esforço resultou num aumento de 50 por cento de colheitas, a nível nacional, desde o dia 12 de Fevereiro. Assim, entre os dias 1 e 11 de Fevereiro registámos 1001 colheitas por dia e, após o apelo no dia 12 de Fevereiro, aumentámos para 1528 colheitas diárias”, afirma o nosso entrevistado.

Um novo desafio
Após este episódio, Gabriel de Olim reforça o apelo à generosidade dos portugueses para que seja possível ultrapassar este novo desafio resultante do aumento do consumo. “Nos últimos dois anos, atingimos o patamar da auto-suficiência sustentável, aliás estamos acima da média europeia de colheitas. Porém, apresentamos a maior taxa de reprovação de dadores a nível europeu, mais precisamente estarmos a perder 27 por cento das pessoas que se apresentam para doar sangue, pois apesar da sua generosidade, nem sempre reúnem todas as condições para fazê-lo. Por outro lado, nos últimos anos, temos vindo a assistir ao aumento da população idosa e diminuição da população jovem, o que pode vir a dificultar o recrutamento de novos dadores. Assim, a campanha do IPS vai no sentido de captar novos dadores e fidelizá-los, para que se tornem dadores regulares. É necessário que as pessoas estejam conscientes da importância vital do seu contributo”, alerta.
Em jeito de término, Gabriel de Olim realça, que apesar dos novos desafios, este continua a ser o maior movimento de solidariedade a nível nacional, constituído por cerca de 1500 dadores diários, 180 associações de dadores de sangue e duas federações que congregam a maior parte dessas associações. “É minha luta pessoal que este enorme movimento venha a ser reconhecido como instituição nacional e para assinalarmos e reconhecermos o altruísmo das pessoas envolvidas neste movimento, no próximo dia 27 de Março, Dia Nacional do Dador de Sangue, iremos uma vez mais homenagear os promotores da dádiva, tendo escolhido como tema a ligação entre o IPS e os promotores da dádiva de sangue”, conclui.

Fonte:País Positivo