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Autor Tópico: Iraque-Quando há um centro ortopédico assim, o corpo é que ganha  (Lida 1252 vezes)

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Offline Eduardo Jorge

 
Aberta pela Cruz Vermelha em 1996, esta casa faz tudo por um amputado. Fabrica próteses e órteses, pedaços de amparo. Ampara até ser preciso.

Uma perna é uma perna desde que o resto do corpo a aceite. Um pé também. Um braço. Uma mão. Um tornozelo.

O corpo de Omar Alih quer aceitar a perna nova, ele já percebeu e isso fá-lo sorrir. Anuar Iunan perdeu metade de uma perna e o corpo já aceitou a prótese, só que está calor e ela veio para a limpar e ajustar. Akram Ibrahim perdeu as pernas quando tinha 20 anos e já tem 41. Quando o corpo se zanga, ele volta: "Há outros centros, mas aqui sinto que estou em casa. O pessoal não me faz sentir que tenho uma deficiência."

No Centro Ortopédico da Cruz Vermelha em Erbil fazem-se pernas, mãos, pés e joelhos. Com os restos, ainda se fazem punhos de muletas e o que mais for preciso para pôr pernas a andar e braços a mexer. Basta haver um molde e o molde também se faz aqui. Aqui se aplicam e se adaptam próteses e aqui se treina o corpo até o trazer de volta, em salas de exercícios, com barras paralelas, ou em pequenos percursos com rampas, chão de terra e de pedrinhas, degraus e corrimões.

Os amputados que enchem o centro nesta manhã de terça-feira são de Erbil, mas também de Suleimaniyah, Mossul e de outros lugares. Alguns vivem em cidades onde há centros ortopédicos, mas preferem viajar até ao de Erbil quando precisam.

Omar está a exercitar-se nas barras. A sala, ampla, tem espelhos e paredes pintadas de verde claro. Cá fora, os tons são castanhos suaves, lá dentro há verdes nas paredes, azuis nas cadeiras. Há muita luz. As salas são frescas. Os quartos - um para homens, um para mulheres - também. Para se passar da zona do gabinete do director e das salas onde se fazem próteses e órteses e se montam cadeiras de três rodas e se aplicam pedaços de corpo e se ajustam esses pedaços ao corpo para a zona da fisioterapia é preciso cruzar o jardim e a área dos exercícios no exterior. Está tanto calor em Erbil, mas aqui não.

Omar ficou sem perna em Setembro de 2009. "Havia uma mina na cidade, ao pé de um quartel. Eu ia trabalhar e a mina explodiu. Comigo houve três pessoas que ficaram feridas. Levaram-me para o Hospital El Salam, em Mossul, e operaram-me. Esta prótese é nova", diz, sorridente, túnica clara e cara magrinha.

"Sou casado e tenho cinco filhos. Trabalhava com o meu irmão, temos um pequeno supermercado. Agora, dependo do meu irmão. Agora, estou no dormitório", conta, sempre a sorrir, com um sorriso aberto e doce, de 40 anos. "Ontem foi o meu primeiro dia e foi muito difícil. Hoje está a ser muito mais fácil. Já me estou a habituar", continua. "Vi muitas pessoas com próteses, mas até uma pessoa ser afectada, até me acontecer a mim, ninguém compreende o que é."

Omar sorri porque já se está a habituar. Em Mossul, talvez a cidade mais violenta destes dias no Iraque, ficaram a mulher e os filhos e o irmão. Eles precisam dele e ele vai-se habituar. "Tenho de voltar a trabalhar."

Recuperar a vida

Anuar, 43 anos, também perdeu um pedaço do corpo em Mossul. Metade da perna. Foi amputada abaixo do joelho, mas ninguém diria de a ver, cabelo frisado, maquilhada, calças pretas, camisa larga com bolinhas. "Estava em casa, na garagem, e houve uma explosão, um atentado contra uma coluna do Exército. Com a explosão, fui lançada no ar. Perdi metade da perna. Fui levada pelos norte-americanos e operada por eles. Há dois centros da Cruz Vermelha em Mossul. Fiz uma primeira prótese lá e depois fui enviada para aqui", diz Anuar.

Solteira e empregada no Banco Rafidain, de Mossul, Anuar perdeu metade da perna em Fevereiro de 2008. Veio a Erbil de carro: "Conduzo com a minha prótese. Estou de férias." Anuar e o resto do corpo dela aceitaram o novo pedaço, não o primeiro, mas o segundo, feito aqui: "Nunca me senti bem com a prótese feita no outro centro. Com esta estou mais confortável e ando normalmente. O cuidado com os pacientes aqui é diferente."

"Já recuperei a vida. Trabalho normalmente, faço o trabalho da casa, tudo sozinha", diz com um sorriso que é mesmo de orgulho. "O calor é desagradável. Quando sinto que não estou confortável venho cá limpar a prótese, mudar alguma coisa que seja preciso, fazer ajustes." Foi isso que Anuar veio fazer agora, de carro, durante as suas férias.Recuperar o respeito

Como Omar, Akran foi vítima de uma mina, mas num tempo em que isso era mais comum. Houve uma guerra civil no Curdistão iraquiano. Akran tinha 20 anos e estava a conduzir. Parou o carro por uma razão qualquer e começou a andar ao longo da estrada. "Não sabia que havia ali um campo de minas."

Akran tinha 20 anos e vivia em Darbandikhan, perto de Suleimanyah, a segunda maior cidade do Curdistão iraquiano. Akran não tem pernas, de carne e osso, desde 1989, mas tem mulher e dois filhos.

"Quando alguém é sujeito a um acidente com uma mina, sente que falta alguma coisa no corpo. Não se fica normal, fica-se fraco. Muito afectado psicologicamente. O nosso país não é muito bom para pessoas com deficiências. Não se dá valor e não nos dão meios de sobrevivência", diz Akran, olhos verdes e as pernas ali ao lado, deitadas nas cadeiras azuis. "Recebo uma pensão pequena do Ministério dos Direitos Humanos e não tenho trabalho."

Akran veio pela primeira vez ao Centro de Erbil há dez anos. "Foi muito benéfico e continuei a vir. Para além de me terem feito as próteses também me dão muito apoio psicológico", conta. Ora, nas contas de Akran, isso vale bem a viagem de três horas e meia desde Darbandikhan.

Até estarem prontas

Strud é o responsável do Centro Ortopédico de Erbil desde o início. Foi ele que encontrou esta casa, que precisava de ser reconstruída. Depois, o centro abriu, em Setembro de 1996, e nunca mais fechou.

"Começámos com próteses para amputações abaixo do joelho. Em 1997, fizemos as primeiras acima do joelho." E por aí fora, em 2002 vieram as órteses, "que servem para apoiar uma parte do corpo que está fraca", e agora "fazemos próteses para amputações de membros superiores e inferiores e muitos tipos de órteses, de tornozelos, por exemplo", diz o director.

E por aí fora, em 2008 começaram a distribuir cadeiras de três rodas a amputados bilaterais de membros inferiores, úteis para "actividades exteriores, especialmente em áreas rurais". Este é o único centro no Iraque que as distribui. As cadeiras "chegam num kit que é preciso montar e talhar à medida do paciente".

Aqui, todos os pacientes recebem tudo o que precisam. "Sapatos para treinarem, apoio para o transporte. Depende, é avaliado caso a caso. Temos um dormitório com capacidade para 20 camas. Damos três refeições por dia e as pessoas ficam o tempo que nós precisarmos que elas estejam aqui. Até estarem prontas", explica.

Aqui trabalham 25 pessoas, entre técnicos de ortopedia, fisioterapeutas, técnicos das oficinas. Como se não bastasse, o centro está a treinar gente de outros centros no país. "Estamos também a tentar ligar todos os centros através de uma base de dados. No fim, vai permitir a cada centro ver o que os outros estão a fazer, não duplicar esforços", diz Strud

O plástico que se aquece

A média de aplicações de próteses no Centro de Erbil é de 80 por mês. "Recebemos 300 pacientes por semana. Todos os dias, 40 a 60." A sala de espera está cheia.

Não faltam vítimas, da guerra. "Hoje, metade é vítima de minas, 25 a 30 por cento de outras acções de guerra. Quando começámos a distribuição não era esta, quase 80 por cento eram vítimas de minas. Depois, aumentaram as explosões. Isso também afecta o tipo de amputações. Havia umas minas italianas, as valmara, que cortavam o pé. Agora, recebemos amputados de perna e amputados bilaterais, que perderam as duas pernas", descreve Strud.

Para dar pernas e tornozelos a tanta gente, o Centro de Erbil teve de desenvolver uma tecnologia simples e barata. A solução chama-se plástico, um tipo de plástico que na verdade é um termoplástico, porque pode ser moldado só de ser aquecido, chama-se polipropeno. Serve para fazer de tudo, aqui serve para fazer pernas e mãos. Começa por existir em placas que depois vão ao forno e se injectam nos moldes. "Pode ser reciclado", diz Strud, enquanto aponta a mesa onde um técnico faz punhos de muletas a partir de restos das placas. "Ao reciclarmos diminuímos o custo e não temos desperdício. As nossas próteses custam quase nada, quando comparadas com outras. Qualquer coisa de que precisemos, fazemos o molde, injectamo-lo com o material e começamos a produzir", diz Strud.

Na sala em que estamos há gente a polir próteses e há polipropeno no forno. Há um armário cheio de moldes, pequenas peças que servem para unir pedaços maiores ao corpo que sobrou e pedaços novos a outros pedaços novos. Aqui, faz-se de tudo, repete o director. "Isto é um joelho."

Fonte: Público
 

 



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