Quis ser piloto da Polícia Aérea, mas as vertigens que tomavam conta dele em grandes alturas impediram-no de passar nos testes. Anos depois, voltou a sentir a sensação. Fora chamado a um homicídio ocorrido no alto de uma torre de vigia. Subiu sem problemas a escada de ferro, era ainda noite. O pior foi quando o dia amanheceu e percebeu que não conseguia descer dali.
A sua fotografia do alto da torre é uma das que guarda entre tantas que revelam corpos estropiados, familiares de vítimas mortas em lágrimas, pormenores de crimes que desvendou. Foram mais de 35 anos ao serviço da Brigada de Homicídios da Polícia Judiciária. Mas chegou o dia do ponto final. Aos 57 anos o inspector-chefe António Teixeira reformou-se e já tem planos para concretizar a partir de Novembro: vai ser voluntário na Cercica, uma instituição que trabalha com crianças deficientes no concelho de Cascais procurando autonomizá-las através de várias actividades.
"A maior parte do meu trabalho aconteceu em bairros degradados. Lutas de gangues, jovens desestruturados", recorda ao DN. O contacto com meios mais desfavorecidos abriu-lhe o caminho. "Inscrevi-me na câmara e escolhi a Cercica. Também devo ir para o Banco Alimentar, que se tem deparado com um grande problema de falta de recursos humanos para distribuir os alimentos", refere.
Na Cercica, onde na sua primeira visita foi abraçado por uma menina com trissomia 21, despertou--lhe o interesse pelo serviço de jardinagem. "Há uma terapia ocupacional e uma tentativa de prepará--los para desenvolver alguma actividade e dar-lhes autonomia. Têm uma empresa com protocolos com as câmaras e tratam dos jardins. Eles têm várias áreas, produzem plantas e, como gosto muito de jardinagem…" A prova é o jardim da casa que recuperou nos arredores da Lourinhã. Foi ali que recebeu o DN. "Está a ver o meu jardim?" diz, orgulhoso, mal abre o portão da casa onde espera passar grande parte do tempo, depois dos anos dedicados à investigação.
António Teixeira não recorda o primeiro homicídio a que foi chamado. Mas guarda na memória vários casos marcantes. Mesmo que tente esquecer, há quem não deixe. É o caso da mulher que viu a filha ser assassinada há mais de vinte anos. Todos os anos, por altura do Natal, telefona a Teixeira a desejar--lhe um "Feliz Natal". Não diz mais nada e desliga.
O investigador sabe porque o faz. "Parece uma estaca no coração", confessa. Na altura ele e os colegas detiveram o suspeito do homicídio, mas não conseguiram recolher prova suficiente para que ele fosse condenado em tribunal por isso. O homem cumpriu pena por um crime menor e foi libertado.
Na altura os meios não eram os que estão hoje à disposição. Tinha 23 anos quando entrou na Polícia Judiciária. No primeiro ano, o de estágio, passou por todas as Secções mas acabou por ficar na Brigada de Homicídios, até ao fim. Sempre que saía em serviço, levava um lofoscopista e um fotógrafo. Recolhia o máximo de vestígios possível, mas o resultado não era mais do que o tipo de sangue do suspeito.
"Houve uma grande evolução com a identificação de perfis de ADN de vestígios deixados no local", revela. No entanto, "criaram uma lei que é de uma incongruência", critica. "Antes era um sistema de identificação como outro qualquer. A pessoa perguntava se aceitava a recolha de uma zaragatoa e pronto." Com a nova lei, a pessoa só pode ser identificada se for arguida no processo e se ele o autorizar.
"Uma base de dados deste género na investigação criminal também serve para mostrar a inocência das pessoas e para outros fins, como na identificação em casos de catástrofes", explica. E lembra um caso recente de um suspeito preso preventivamente por violação e libertado mal chegaram os resultados dos exames do Laboratório de Polícia Científica: o ADN não era o seu. Mas há outros exemplos.
O inspector-chefe lembra um homicídio que investigou. O cenário: numa casa perto de Lisboa é encontrada uma jovem assassinada. A porta está fechada, nada foi roubado e o autor do crime ter-se--á cortado por causa dos vestígios de sangue deixados numa parede até à porta. Era frequente a rapariga ter vários relacionamentos. No local de crime havia vestígios de pessoas diferentes, mas a PJ sabia que só podia ser alguém próximo e que pudesse ter a chave de casa.
Foram chamados 20 suspeitos à PJ e a todos foi perguntado se podiam fazer uma zaragatoa para recolha de vestígios. "Neste momento isto seria impossível, tinha que os constituir a todos arguidos e, mesmo arguidos, tinha que ser a autoridade judiciária a determinar. Ou então o próprio manifestar que queria ser submetido aquilo. Acha que faz algum sentido?", interroga.
Outras mudanças ocorreram. "Há uma maior profissionalização nos recursos", diz. No local do crime há uma equipa com funções definidas. O próprio acesso à PJ é exigente: além de uma licenciatura, é exigido o curso na Escola da PJ, que corresponde a uma pós-graduação e depois o ano de estágio. "Mas noto falta de experiência de vida nestas pessoas e isso também é fundamental neste trabalho", diz.
O inspector-chefe recorda que logo após a Revolução do 25 de Abril chegaram a entrar na PJ pessoas com "um passado criminal duvidoso". "Umas saíram, outras revelaram-se extraordinárias no trabalho", diz. É desta época que guarda as memórias anteriores à sua entrada na PJ.
Quando entrou para a Faculdade de Letras para estudar Românicas tinha o sonho de ser professor. Acabou por ser chamado para o serviço militar e ser colocado numa unidade no aeroporto da Portela. Ainda recorda o dia em que era o oficial de serviço e que a Unidade foi invadida por militantes do MRPP - na tentativa de impedir a partida de mais um contingente para o Ultramar. "Tive que tomar providências, chamei a unidade de pára-quedistas com cães e consegui controlar a situação", recorda.
O pior foi quando um dos opositores o reconheceu: "És de Letras", gritou-lhe. A partir daí teve que fazer todos os exames fardado e escoltado por colegas. Ainda não tinha terminado o curso quando tentou ser piloto, sem sucesso. Nesta altura já tinha conhecido a mulher, com quem ainda hoje está casado. Dá-se a Revolução de Abril e Teixeira chega à PJ "por acaso". Seguiu a recomendação de uma amiga. E foi ali que ficou até agora, a hora da reforma e o tempo para se dedicar ao voluntariado.
Fonte: DN