O Filipe, os seus heróis e os seus esqueletos
Filipe Cerqueira na apresentação das obras em exposição | JORGE AMARAL/GLOBAL IMAGENS
Autista, Filipe Cerqueira, de 27 anos, vai já na sua terceira exposição em que mostra os retratos de atores e personagens do cinema e da animação. E as suas selfies, em que é só ele e os seus esqueletos
"Eu gosto de ser simplesmente o Filipe com os meus ossos e a minha caveira no corpo." A frase está inscrita num autorretrato de Filipe Cerqueira, mas o artista faz questão de a ler enquanto conduz meia dúzia de amigos numa visita guiada à exposição que até dia 28 de outubro tem, em nome próprio, na Galeria Abysmo, em Lisboa. Partilham o dia-a-dia na Cercica do Livramento, perto do Estoril, e esta foi uma manhã diferente. Com diferentes graus de autismo, o interesse e reação às explicações que Filipe dá junto a cada um dos quadros variam. Nada que altere a concentração de Filipe Cerqueira que desde 2013 dedica grande parte do seu tempo, em casa e na Cercica, ao desenho, pintura e, mais recentemente, às montagens de imagens em computador.
Em jeito de gigantes vinhetas de banda desenhada, desfilam pelas duas salas da galeria diferentes referências cinematográficas e de banda desenhada de Filipe Cerqueira. Mas, como nota João Paulo Cotrim, da Abysmo, "o interesse dele é centrado em aspetos pouco óbvios, como produtores, realizadores e atores que faziam as vozes dos desenhos animados".

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É precisamente por aí que começa a visita: um retrato de Arnold Stang, ator cómico norte-americano "que ficou conhecido sobretudo pelo filme O Mundo Maluco [It"s a Mad, Mad, Mad, Mad World], de 1963, e também por fazer a voz de Top Cat [série de televisão da Hanna-Barbera]. E ainda por ser a voz do [anúncio aos cereais] Cheerios. Morreu em 2009".
Durante quase uma hora, junto a cada um dos quadros, sem precisar de ler as falas das suas "vinhetas", Filipe Cerqueira, vestindo uma t-shirt branca na qual se encontram representados os atores que deram vida aos Três Estarolas (Curly Howrd, Larry Fine e Moe Howard), vai desfiando de memória nomes e datas, interpelando os amigos e acrescentando informação à que já consta dos seus quadros e, aqui e ali, imitando vozes. Como a de barítono de Bing Crosby ou dando vida a alguns personagens, como o Popey, arrancando risos aqui e ali.
Visivelmente agradado mas impassível na missão de apresentar a sua exposição, vai apresentando as personagens que retrata, quase todos eles já distantes da memória do grande público: ou porque há muito faleceram ou porque, quase todos, faziam vozes ou produziam séries de desenhos animados.
E porquê este interesse? "Porque sei muito sobre desenhos animados e atores dos anos 1930 a 1960. E isto é para os mais novos de Portugal conhecerem os artistas dessa época", explica. Os trabalhos de Filipe, de 27 anos, são, por isso, uma batalha contra esse esquecimento e, ao mesmo tempo, uma atividade criativa que o autismo não o impede de fazer de forma única e plena de originalidade. Algo que faz de forma mais sistemática desde 2013, diz, apesar em 2007 ter tido a sua primeira exposição, de banda desenhada, no Restelo. Em 2015, através da exposição O Sr. Cerqueira and the Heart Breakers, mostrou os seus quadros na galeria Cruzes Canhoto, no Porto.
E chega à Abysmo através de um acaso. "Um amigo ofereceu-me uma pintura do Filipe e eu depois fui à procura dele, para conhecer o trabalho", conta João Paulo Cotrim. Dando-se a coincidência de o livro de Valério Romão, autor editado pela Abysmo, ter o seu romance Autismo entre os seis finalistas do prémio de literatura francesa Fémina, na categoria romance estrangeiro. O vencedor é conhecido no dia 25 de outubro, sendo que Gonçalo M. Tavares, com Matteo perdeu o seu emprego, também faz parte do lote dos finalistas.

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Para além das incursões no mundo cinematográfico e televisivo, as "selfies", como Filipe Cerqueira chama aos seus autorretratos, formam um núcleo deste universo criado por Filipe Cerqueira. "Mostram a relação dele com a sua consciência. É muito curioso e é sempre difícil ter acesso a esse mundo", salienta João Paulo Cotrim, vincando o aspeto único destes trabalhos. São autorretratos em que Filipe se representa junta a algumas das personagens que admira - como o Bucha e o Estica, o Tom Cat ou os Três Estarolas -, a dançar com o esqueleto - "é para eu resolver as ideias", explica - ou a "ouvir a voz da minha consciência a falar, o que faço só quando estou sozinho porque se não as pessoas pensam que estou a falar sozinho", conta.
Na segunda sala surgem variantes: retratos de amigos, noras e algumas figuras portuguesas (Aníbal Cavaco Silva, Herman José e António Branco, o homem por trás do palhaço Batatinha). Há outros quadros ou montagens com personalidades nacionais, como o João Baião. Mas esses "estão no meu blogue, senhorcerqueira.blogspot.pt, vou sempre lá pondo coisas." E atualizando informação, como quando um dos seus retratados morre, por exemplo. Informação atualizada, algo que se percebe ser importante para Filipe Cerqueira e que agora pode fazer através do seu blogue. Mais um contributo "para arrumar as ideias".
Frames
Filipe Cerqueira
Galeria Abysmo, Rua da Horta Seca, n.º 40, R/C, Lisboa
De segunda a sexta, das 10.00 às 13.00 e das 14.30 às 19.00
Fonte: DN