
Dependendo da região do mundo em que estamos, temos duas reações típicas frente às serpentes: adoração ou ódio. A adoração vem, na maioria das vezes, acompanhada por explicações religiosas. O ódio também vem acompanhado, mas pela falta de informação frente a estes seres.
A imagem que carregamos das cobras é de que são seres perigosos, que só oferecem risco aos seres humanos, e que devem ser mortas. Não é bem assim.
Para começarmos, vamos diferenciar os termos mais comumente utilizados por todos: cobra e serpente. Ambos os termos são aceitos pelo dicionário, mas o termo serpente é o mais correto. O termo "cobra" é utilizado apenas para um tipo de serpente, as Najas da África e Ásia. Da mesma forma que os portugueses, na época do "descobrimento", atribuíram o nome de "índios" aos nativos aqui encontrados, pois acreditavam ter chegado à Índia, também atribuíram o nome de "cobra" às serpentes, acreditando se tratar das verdadeiras cobras (Naja da Índia). Aqui no Brasil não é errado utilizar o termo "cobra", porém, no resto do mundo, é recomendável utilizar o termo "serpente", para evitar qualquer desentendimento.
Classificação geral das serpentes
As serpentes estão assim classificadas:
Reino: Animalia
Filo: Chordata
Classe: Reptilia
Ordem: Squamata
Subordem: Ophidia
Família: várias
Gênero: vários
Espécie: várias
Dentre as principais famílias, podemos citar:
Boidæ: são as pítons, jibóias etc., que estão entre as maiores serpentes do mundo, onde uma espécie, a Piton reticulatus chega a 10m de comprimento (podendo ser maior); a jibóia ( Boa constrictor amarali, por exemplo) chega a 4m de comprimento. São cosmopolitas, só não habitando a Nova Zelândia.
Colubridæ: são as cobras mais comumente conhecidas. Reúnem cerca de 1 500 espécies. Nesta família conhecemos uma grande diversidade de hábitats, modos de reprodução, alimentação etc.. São exemplos: falsa-coral (Oxyrhopus sp.), cobra-cipó, muçurana, caninana etc..
Elapidæ: corais verdadeiras (Micrurus sp.) e Najas são exemplos, algumas com veneno perigoso ao homem. São cosmopolitas, com exceção do norte da América do Norte e da Eurásia.
Viperidæ: Dentro desta família, temos duas subfamílias com representantes importantes. Uma delas, a Viperinæ, são as víboras, das serpentes conhecidas as mais temidas, pois a maioria possui venenos bem potentes. Vivem na Eurásia, África e Índia. Como exemplo, a víbora, Vipera sp. e Cerastes cerastes, a víbora de chifre; a outra subfamília, Crotalinæ, envolve espécies por nós bem conhecidas, como as cascavéis, surucucu etc., também produtoras de potentes venenos.
Biologia geral dos répteis
Vamos dar uma estudada nas características gerais dos répteis para podermos, mais adiante, nos determos especificamente nas serpentes.
Os répteis (lat. reptum, rastejar) incluem as cobras, lagartos, tartarugas, jabutis e tuataras.
O corpo é coberto com pele seca e cornificada, ou seja, com formação de um extrato córneo, duro, resistente, geralmente com escamas ou escudos, e poucas glândulas superficiais. Com exceção de cobras e lagartos ápodos (sem patas), possuem quatro membros, cada um com 5 dedos, adaptados em cada espécie para um determinado hábitat. O esqueleto é completamente ossificado. Respiram por pulmões, sendo que algumas tartarugas têm respiração faríngea e/ou cloacal. São ectotérmicos, ou seja, a temperatura de seu corpo é variável. A fecundação é interna, e podem ser ovíparos ou vivíparos.
Os répteis foram o primeiro grupo de vertebrados a se adaptar à vida em lugares secos e no ambiente terrestre, pois sua pele oferece maior resistência à perda de água para o meio e seus ovos também estão mais protegidos contra a desidratação (casca mais grossa e resistente), dentre vários outros motivos.
As serpentes
Sorrateiramente, a formidável jibóia de 20 metros desliza entre os galhos de uma árvore e, de repente, sem dar à indefesa vítima oportunidade alguma de reação, salta sobre o homem e o devora de uma só vez. Histórias como essa povoam os relatos de alguns dos exploradores que, no século passado, internaram-se na selva amazônica buscando desvendar os mistérios da flora e da fauna da região. Houve até um deles, um missionário europeu, que, iludido por uma observação feita a grande distância, jurou ter visto uma jibóia com nada menos que 50 metros!
Hoje se sabe que as maiores serpentes raramente ultrapassam 10 metros (registros oficiais) e que há pouquíssimos registros de ataques a seres humanos. E sabe-se muito mais sobre os hábitos dos milhares de espécimes de ofídios espalhados por praticamente todo o Planeta. Contudo, a imaginação popular continua envolvendo as serpentes num manto de fantasias: maldosas, astutas, traiçoeiras, elas seriam inimigas naturais do ser humano. Enfim, uma autêntica praga que precisa ser eliminada da face da Terra.
Grave engano. Ao matá-las indiscriminadamente, o homem contribui para alterar importante elo na cadeia ecológica, como veremos adiante.
Perda das extremidades pares e alongamento do corpo ocorreu, como um desenvolvimento paralelo, em diversos grupos de vertebrados, incluindo as enguias e moréias entre os peixes, as cobras-cegas entre os anfíbios, os Amphisbænidæ entre outros lagartos, além de todas as cobras.
O corpo das serpentes é coberto por escamas, sendo que em algumas, há na parte inferior do corpo uma grande fileira de escamas grandes, chamadas placas transversais.
A língua é estreita, flexível, semelhante a uma fita, com extremidade bífida, que serve para captar "cheiros" diversos. A língua oscila no ambiente e capta vários feromônios. Quando ela é retraída, suas pontas entram em duas pequenas cavidades no palato ("céu da boca"), chamadas de "órgão de Jacobson", onde, neste órgão, há terminações nervosas que decodificam esses feromônios.
Todos os órgãos são tubulares, compridos, acompanhando a geometria do corpo. Somente o pulmão direito é funcional.
Em serpentes longas existem de 200 a 400 vértebras. Há uma complexa ligação entre músculos, vértebras, costelas, e pele, arranjo este que tornam possíveis os graciosos movimentos sinuosos de uma serpente.
Há quatro tipos de movimentos nas serpentes: 1 - locomoção ondulatória horizontal: locomoção característica de serpentes rápidas, caracterizada pela formação de um S pelo corpo do animal. Há vários pontos de atrito com o solo, este geralmente irregular; 2 - locomoção retilínea: característica de serpentes lentas. O atrito de todo o ventre do animal com o solo é essencial; 3 - locomoção em sanfona: envolve a extensão e a retração do corpo de um ou mais pontos de atrito com o solo. Pode ser usada em uma superfície achatada, ao rastejar através de um túnel ou trepar; 4 - locomoção por meio de alças laterais: é uma forma de locomoção encontrada em diversas víboras africanas e do oeste da Ásia e na cascavel norte americana (Crotalus cerastes). Este tipo de locomoção é uma adaptação para a movimentação rápida sobre superfícies lisas sem obstáculos, como areia ou terra muito dura. Esta locomoção é uma forma modificada da locomoção ondulatória horizontal. A serpente deixa seu corpo em forma de S, e alterna os pontos de contato com o solo dois a dois, impulsionando-se para o lado. A velocidade atingida por estas serpentes é significativa, principalmente para fugir de predadores.