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Autor Tópico: Maria João foi uma surpresa, Paulo foi uma confirmação  (Lida 1952 vezes)

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Offline Eduardo Jorge

 
                                                             
Ela nunca tinha feito desporto na vida e agora é campeã mundial. Ele sonhava ser campeão e cumpriu, com dois recordes do mundo. Ambos têm síndrome de Down e paixão pelo atletismo.

Quando, há 16 anos, Paulo Henriques foi viver com o irmão José Manuel, era um rapaz franzino, frágil. Hoje, já com 29 anos, essa imagem não é mais que uma recordação. Para essa mudança pesou o desporto, e particularmente o exemplo do irmão - que praticou atletismo, correu a maratona e já fez Lisboa-Casablanca de bicicleta.

Aos poucos, Paulo começou a fazer corrida. "Foi um bocadinho difícil para ele. Fazia exercícios mais leves", recorda José Manuel. Mas a semente estava lançada. "Nunca deixou de treinar", conta o irmão de Paulo. Foi o início de um percurso que culminou com a conquista de duas medalhas de ouro e dois recordes do mundo no primeiro Mundial de atletismo para portadores de síndrome de Down.

"O atletismo foi uma forma de afirmação pessoal e a dedicação que ele tem ao treino é simplesmente fora do vulgar. Treina todos os dias, faça chuva ou faça sol", diz José Manuel com orgulho.

"Fez-se um homem e um atleta", corrobora o antigo treinador Henrique Santos, que, durante 18 anos, trabalhou com Paulo no Centro de Acção Social do Concelho de Ílhavo (CASCI). "Sente paixão pelo que faz. Treinava de manhã na instituição e de tarde em casa. Para ele não é um sacrifício. Saía de casa sozinho para treinar", acrescenta, destacando a autonomia que o pupilo ganhou graças ao atletismo.

"É uma espécie de um filho meu, apesar de ser meu irmão. Ao princípio foi um desafio grande, mas tomei essa responsabilidade", conta José Manuel. Paulo tem um dia-a-dia autónomo. "Levanta-se sozinho, toma o pequeno-almoço e vai para o CASCI", diz José Manuel. Na instituição, onde existem várias actividades ocupacionais, Paulo está na parte da tecelagem. "Regressa a casa ao final da tarde e toma a iniciativa de ir treinar, sozinho", continua o irmão, acrescentando que, se for necessário, é o próprio Paulo que vai às compras e trata do jantar. "Tem uma particularidade, cozinha muito bem. Melhor que eu, seguramente", sorri José Manuel. E acrescenta: "Consegue ter uma vida autónoma e o atletismo ajudou muito a isso." "Ajudou à auto-estima dele", concorda Henrique Santos.

Superar barreiras

Para ter a vida que tem hoje, incluindo na vertente desportiva, Paulo teve de ultrapassar algumas dificuldades. "A síndrome de Down tem alguns problemas associados, como cardiopatias ou a tendência para a obesidade. Mas ele contraria isso", sublinha José Manuel. "Ele fez um electrocardiograma antes de ir para o México e o cardiologista ficou simplesmente boquiaberto, disse: "Nunca vi um caso como este, é muito raro"", conta.

Paulo foi ao México participar no primeiro Mundial de atletismo para portadores de síndrome de Down, realizado no início deste mês em Puerto Vallarta. Os resultados dos atletas portugueses superaram as melhores expectativas. No total foram 19 medalhas: seis de ouro, nove de prata e quatro de bronze, para além do título de vice-campeã mundial por equipas para a selecção portuguesa.

Na bagagem, Paulo trouxe duas medalhas e dois recordes do mundo (nos 800m e 1500m), que surgem como uma consequência natural da dedicação ao atletismo.

A açoriana Maria João Silva, de 34 anos, protagonizou uma surpresa ao vencer os 400m marcha e 1500m marcha (com recorde mundial). "Estava longe de pensar que isto surgiria", confessa Carla Tomás, que começou a lidar diariamente com Maria João há três anos, no Centro de Actividades Ocupacionais (CAO) para Jovens com Deficiência da Santa Casa da Misericórdia da Madalena do Pico, nos Açores.

"Ela nunca tinha feito desporto na vida", recorda. Até ao dia em que experimentou. "Gostou e continuou a trabalhar", aponta Carla Tomás. "Tudo decorreu de forma muito rápida e inesperada", continua a responsável. Admite que não esperava os resultados alcançados: "Não pensava nisto com as proporções que tomou. De agora em diante terei ainda mais empenho, a atenção será maior e investirei mais na Maria João e noutros atletas."

Os "miúdos"

Na área do desporto adaptado para portadores de síndrome de Down está quase tudo por fazer. "Foi uma experiência nova. É um trabalho com apenas um ano", explica o seleccionador nacional, José Costa Pereira, recordando os seis meses até à escolha do grupo que viajou para o México. "Foi fantástico. Depois desses seis meses iniciámos o processo de selecção final", que culminou com dois estágios, o último deles no Estádio Nacional, no Jamor.

Por várias vezes durante a conversa José Costa Pereira deixa escapar "miúdos" em vez de atletas, quando se refere a Maria João Silva e a Paulo Henriques. "É como lhes chamamos carinhosamente, mas são todos atletas", explica o vice-presidente da Associação Nacional de Desporto para a Deficiência Intelectual.

A motivação pode ser, por vezes, um problema. "Sinto isso no trabalho no CAO. Muitos deles iniciaram actividade muito tarde e às vezes é difícil conseguir motivá-los", confessa Carla Tomás. Nada que tire a disposição a Maria João, que a professora descreve como alguém "muito acessível, divertida e optimista. Gosta de ultrapassar obstáculos e é bastante persistente". As palavras são acompanhadas por um sorriso que se percebe mesmo através do telefone.

Pelo contrário, José Manuel Henriques nunca teve problemas em motivar o irmão, porque, para além do exemplo familiar, houve a dedicação do próprio Paulo. O atletismo é a actividade que lhe absorve mais tempo, mas o recordista também gosta de jogos electrónicos e é fascinado por dominó.

"O Paulo demonstrou que com esforço tudo é possível. Os resultados servem para deixar a mensagem que o desporto é mais que suficiente para que os jovens possam encontrar a motivação para se sentirem bem e se sentirem úteis", continua José Manuel. Conclui com uma confidência emocionada: "Quando o Paulo bateu o primeiro recorde do mundo [no México], fui ter com os meus vizinhos e contei-lhes. As pessoas começaram a chorar de alegria. Têm um carinho muito grande por ele.".

Fonte: Público
 

 



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