Uma chapada de realidade - ECMBC - Sarajevo 2022 Chega ao fim mais um Campeonato da Europa, o 5º em que tive o privilégio de representar a Seleção Nacional. Encarámos este desafio com ambições muito altas, de rumar, de uma vez por todas, à divisão B. Não servindo de subterfúgio de nada, esperávamos um emparelhamento lógico de 2 grupos de 7 nações cada, em que os primeiros 4 passariam aos quartos de final e definiriam também as 8 seleções da divisão B, que por sua vez cobiçariam a subida à divisão A, neste inédito Europeu conjunto das divisões B e C. Um sistema mais "criativo" da IWBF ditou 4 grupos, 2 de 4 e 2 de 3 equipas, e saíram-nos as favas. A potência Lituânia, vinda da divisão A, e a Bélgica, sempre poderosa, desaparecida dos últimos torneios, e com um ranking elevado, apesar desse ocaso..
Batemo-nos de frente com a Lituânia, contra quem nos traçavam um destino mais trágico, surpreendemos e galvanizamo-nos para tentar superar a Bélgica e consumar a passagem. Veio um fracasso rotundo, não tanto pelo desfecho de derrota, mas pela incapacidade de contrariar os momentos naturais de parciais altamente desfavoráveis, algo bem elucidativo da falta de contacto competitivo das nossas seleções e clubes. A partir daí, devíamos ter batido a Sérvia - combalidos pelo desgosto, não o fizemos - e vencemos, sem surpresa, os restantes jogos. Somos de divisão B, mas as palavras não chegam. E cansa este discurso entranhado na alma lusitana da vitória moral.
Além deste balanço, há evidências que nos berram e continuámos a ignorar para os resultados não virem, que os "especialistas" à distância, bem como alguns incautos, tendem a ignorar:
1 - na Lituânia e Bélgica, moram lá um punhado de jogadores profissionais e semi-profissionais, bem como outros tantos com passado no alto rendimento. Nas outras seleções de divisão B, nem vale a pena falar, são inúmeros. Portugal tem, neste momento, 0 jogadores profissionais ou semi-profissionais.
2 - Temos a boca cheia da necessidade de trabalhar os fundamentos no jogador de BCR português e é certo que este evoluiu, como se nota, à escâncara, no projeto Sub22. Contudo, no treino dos nossos clubes, temos de perguntar seriamente quanto tempo investimos no seu ensino. Não só do controlo da cadeira, onde a carência continua a ser imensa, mas vai evoluindo, como também no ABC do Basquetebol - driblar, lançar e passar. (Afinal, o BCR é Basquetebol, certo?). Quantos jogadores nacionais conseguem finalizar com a mão não dominante, transportar bola eficazmente, fazer um bounce stop, dominar a técnica de passe, lançar corretamente a uma mão? Continuamos a ser complacentes nas classes baixas e a incentivar o lançamento a duas mãos. "Atira a bola lá para cima. O importante é chegar.", dizemos nós. Pois bem, vejam o número #14 belga, classe baixa, e depois voltaremos a conversar.
3 - Será possível aspirar a mais com uma média de 2/3 treinos por semana? Aqui entra algo que reclamo há muito. Talvez, mais do que programas bem intencionados, porém, curtos, precisemos de pontes sólidas, através das entidades que tutelam a modalidade, nacionais e regionais, para que os clubes de BCR consigam a benesse dos municípios para terem uma carga horária de treino superior. Eles vão-nos dando.. os horários da tarde, quando pedimos mais treinos. E ficam pasmados que os atletas com deficiência trabalhem.
4 - há um jogo deste Europeu, que constitui um hino ao Basquetebol, o Letónia vs Bósnia-Herzegovina, meia-final. A forma como a Letónia atua, repleta de jogadores rápidos, baixos e ótimos atiradores, abrindo o campo, asfixiando defensivamente, atacando pacientemente, mas castigando sempre que possível com o lançamento exterior, deve inspirar a forma de modelar o jogo no nosso país. Porque seremos sempre mais baixos do que todos os outros. Esta Letónia também era face aos gigantes bósnios, mas deu uma lição de mobilidade de bola, de exploração do ataque, com 3 atiradores mortíferos em simultâneo, ora desferindo lançamentos imediatos, ora explorando os 24s, alimentando os seus postes de qualidade média. Abandone-se esta obsessão do jogo interior que perpassa o BCR nacional, porque grandes só somos cá dentro. Para isso, será conveniente ter mais do que um atirador por equipa..
Por último, quero agradecer aos meus colegas de Seleção, equipa técnica e staff, pois sofremos muito neste campeonato da Europa, acontecendo-nos absolutamente de tudo, no campo e fora dele, com muitas rasteiras de saúde. Foram inexcedíveis e a decepção no semblante de cada um chega-me para perceber que, apesar de tudo, temos futuro.
Pessoalmente, saio com o sentimento de dever cumprido, após a época mais desgastante a nível mental e físico da minha vida, o que me fez temer não reencontrar o melhor nível atempadamente. Consegui-o e dei tudo, o que tinha e o que não tinha, nos jogos capitais, para encaminhar a seleção para onde um dia irá chegar.
Obrigado a todos, onde incluo aqueles que, à distância, me foram amparando e motivando, nestes 15 dias.
1...2...3! Poooor! PORTUGAL! 🇵🇹

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